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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 17/21

Se eu tivesse nascido negro teria mais oportunidade

Seabra – Germano, em algum momento você gostaria de ter nascido negro?
Germano – Olha, acho que se eu tivesse nascido negro teria mais oportunidade. [ri] Como sambista, né? Mas como eu estava dizendo… O cara disse assim, quer dizer, pensei que ele fosse dizer “Falou a voz da ignorância”, mas não. Ele falou, “Diz que tem uma religião aí na Bíblia dos hindus, que são os vedas”… Todo mundo, porra, vagabundo falando essas coisas… “Os vedas dizem que quando a gente morre pode voltar em um animal ou em uma planta, reencarna em animal ou em planta”… [faz barulho de baforada] Devem ter razão. [risos] “Tô cumpadi, pega aí!”, “Ah, o cumpadi tem razão mesmo”. [risos] Aí, eu tive a idéia de fazer o samba: “Todo mundo morre / Só eu não vou morrer”. Ah, e outro falou assim, “Ia ser bom se a gente nunca morresse”, e um outro emendou, “Só se ficar pra semente”. Eles me deram a idéia do samba: [cantarola e batuca] “Todo mundo morre / Só eu não vou morrer / Vou ficar para semente / Cá no meu modo de ver / Todo mundo morre / Só eu não vou morrer / Vou ficar para semente / Plantada no seu jardim / Só pra ver você meu bem / Jogar água em cima de mim / Se você não me regar / A chuva irá me regando / Se você não me regar / A chuva irá me regando / E florescendo numa linda planta eu irei me tornando”.
Max Eluard – E o que você não gosta nos seus sambas?
Germano – Acho que tem coisa melhor…
Tacioli – Com licença, vou ali afinar o contrabaixo. [risos]
Germano – Por favor, tire a água do joelho.
Max Eluard – Então, você acha que tem coisa melhor?
Germano – Acho. Acho que os sambas que tenho são melhores daqueles que faço. Mas se tiver uma oportunidade de gravar… Se a gravadora quiser…
Max Eluard – Porque nenhum desses três projetos tem músicas suas. Você já gravou um disco somente com músicas suas?
Germano – Não. Já gravei músicas minhas, por exemplo “Guarde a sandália dela”, com parceiros… mas só com músicas minhas, não. Mas vamos ver, tô com essas idéias aí. Quer ver, tenho até aqui… ah, esqueci de mostrar pra vocês… LPs meus, antigos. Gravei 17 LPs. Deixa ver se tem alguma coisa. Olha aqui… a trilha da novela Cambalacho, quando cantei… “Jerônimo era um herói anônimo / Cheio de homônimos / Mas não perde o pique”… aqui eu entrei de convidado no disco dessa sambista de São Paulo, Giba Rocha… tô cantando, “Acabou-se a luz Maricota / Vamos embora / Porque essa turma é capaz de botar as manguinhas de fora / Vai ser um tal de lesco-lesco e piripipi / Esses caras são folgado e podem estragar você”… é a história de um cara que vai tocar em um pagode, e o negócio lá é barra pesada… todo mundo se encoxando feito louco… então, acaba a luz e, imagina, se o negócio era brabo com a luz acesa, imagina depois que apagou a luz? Passaram a mão até no cara [ri]… deixa eu mostrar os outros. Não sei onde tá o diploma… acho que me roubaram o diploma na mudança… o diploma de bacharel. Agora só tenho ele na contracapa dos LPs.
Tacioli – A fotografia do diploma.
Germano – Olha esse aqui… Eles pegaram minhas primeiras gravações e juntaram com o Gilberto Gil.
Tacioli – Famoso esse disco.
Germano – As primeiras gravações… podiam ter me chamado pra regravar, né? Só que ele [Gilberto Gil] tá um malandro bicha que eu vou te contar! [risos] Trancinhas…
Max Eluard – Trancinhas, brinquinhos, hummm…
Germano – Ah, vá pra puta que o pariu! E eu também tô com cara de bicha aí! Duas bichas nessa merda! [ri]
Max Eluard – Ah, eles só pegaram as músicas.
Germano – É porque a Philips era a antiga PolyGram.
Tacioli – 1978, né? Qual foi a resposta desse disco?
Germano – Orra, comprei até móveis com o dinheiro desse disco. Ganhei um dinheiro bom com isso aí. Vendeu bem.
Max Eluard – Olha a latinha! [segura um de seus primeiros discos]
Germano – Aí eu estava começando a carreira. Estava novo.
Tacioli – É a mesma latinha?
Germano – Era o Tony Curtis da Barra Funda [risos], o Marlon Brando dos pobres. [risos]
Tacioli – Você tem esperança de que esses LPs saiam em CD?
Germano – Eles saem. Saiu um que nem tenho aí. Foi o meu primeiro de 12 polegadas… porque tive o primeiro de 8 polegadas e depois o de 12… o título eraIncontinência ao Samba. No CD virou As 20 Preferidas. Vai sair agora esse que eu gravei na Chantecler há 23 anos, o tal disco que tem a ocarina.

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