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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 14/21

Tenho três projetos de discos

Max Eluard – Você é otimista, Germano? Vejo os programas que você citou – o da Adriane Galisteu, o da Luciana Gimenez -, e eles costumam dar muito mais espaço para essa nova geração de pagodeiros, esse povo que toca hoje… Você acredita que eles vão lhe dar algum espaço?
Germano – Depende dos produtores. Se forem produtores jovens, mas que sabem dar valor, eles me chamarão. Mas tem muito produtor jovem…
Max Eluard – Mas você não acha que para isso acontecer não depende muito de uma estrutura da própria gravadora?
Germano – Perfeitamente. Tem uma moça chamada Meire que falou que vai atacar “de televisão”. Então, estou esperando… Tô que nem mulher grávida, sempre esperando. [risos]
Max Eluard – Mas você está contando com essa estrutura?
Germano – Tô contando. Se essa estrutura funcionar, vou ficar numa boa. Mas se não funcionar, continuo na merda do mesmo jeito. [risos]
Max Eluard – Piorar não vai. [risos]
Seabra – Esse “ficar numa boa” é vender quantos discos?
Germano – Não sei. Tô tão por fora que nem sei mais quanto se vende. Mas vai sair outro CD… Agora é calça de veludo ou bunda de fora. Até aqui eu não tinha nada, agora terei dois CDs. É aquele da Warner que vai sair…
Tacioli – Qual é a duração do contrato com a Atração?
Germano – Um ano e meio. Com direito a fazer mais um CD. Vai terminar em 10 de dezembro de 2003. E aí a gente vai escolher. Tem três projetos: o tributo a Caco Velho, tem outro de forrós bem ritmados da década de 40 e 50 e sambas de morro das décadas de 40 e 50 que ninguém sabe, só eu sei.
Max Eluard – Sambas de São Paulo?
Germano – Sambas do morro do Rio. Que fizeram sucesso… [cantarola e batuca] “Encontraram o sapato de Maria / E junto dele seu vestido de algodão / Atirado no asfalto da avenida / A notícia dolorida machucou meu coração”… Você vê que a linha melódica é outra… “Me contaram que ela estava toda nua / Sambando no meio da rua / Sambando de pé no chão / Na quarta-feira de cinzas ela vai ver / Quando voltar para o nosso barracão”… Vai levar um cacete, que eu vou lhe contar! [ri]
Dafne – De quem é essa música?
Germano – Tudo de… É de 40, 1940!
Dafne – Mas você sabe quem é o compositor?
Germano – Olha, eu nem sei. Se não achar o compositor tem que colocar D. R., Direitos Reservados. Quando aparecer o compositor com uma comprovação, paga-se a ele. Tem aquele… [cantarola e batuca] “Eu já vi que a minha sina”… Ah, “Alguém me cumprimentou / Boa noite! Como passou? / Eu não passo tão bem como passa o senhor / Tenho o coração ferido / E o lar abandonado / Vivo recordando a fingida mulher do passado / Quando este alguém perguntou / Qual era a razão da minha nostalgia / Eu respondi com tristeza / Quem sente saudade / Não tem alegria / Ele então olhou pra mim / Abraçou-me e respondeu / Vamos tomar um pileque / Que seu sofrimento é bem igual ao meu.” [risos]
Almeida – Muita boa.
Germano – Viu que bacana? Tudo samba dessa linha.
Almeida – Você lembra tudo de cabeça?
Germano – Ah, eu tenho 300 sambas na cabeça. E esses sambas só eu sei, ninguém mais lembra, ninguém mais sabe. Vou botar o título no CD de Sambas daquele tempo. Gravar com Escola de Samba, trombone e clarinete… [cantarola, batuca e imita som de trombone]…. “Eu vou ficar / Eu vou / Sem os carinhos seus / Mas não faz mal / O meu penar entrego a Deus”… Tudo pra frente, pra cima! “Na vida / Só tenho tido amor fingido / Desilusão / Mas entrego a Deus todo o sofrimento meu / Eu vou ficar / Sem os carinhos seus / Mas não faz mal”… isso é que é gostoso! Eu vibro com isso! Quer ver outros dessa época… “Tenha pena de mim / Não posso mais / Ai meu ciúme / O meu amor não volta mais”… São coisas que… “Meu sofrer é profundo / Já vi que o mundo me abandonou / Quem me vê a sorrir / Pensa que eu sou feliz / Mas feliz eu não sou.” Sambas bonitos! Ninguém sabe esses sambas! Aqueles que sabiam, já morreram.
Almeida – Você não canta um tocando na latinha?
Germano – Não, não, a latinha é somente pra fazer breque.

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Samba de breque
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