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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 12/21

Eu pensava que era Deus no Céu e eu na Terra

Tacioli – Você magoou muita gente?
Germano – Com certeza devo ter feito isso. Porque depois comecei a não seguir mais um caminho certo, não obedecer mais o que a gravadora mandava. Hoje, se a gravadora mandar cantar na privada, eu vou. Vou mesmo. A gente tem que sofrer para aprender. Hoje dou valor ao dinheiro, antigamente eu não dava.
Seabra – Isso é um ponto interessante… Em que momento você discordou da gravadora? Qual foi o motivo?
Germano – Comecei a ficar relegado a segundo plano… E aí veio o iê-iê-iê que ajudou a me enterrar… Veio a bossa nova, música italiana, música estrangeira… Tudo isso ajudou a me enterrar. E eu já não estava muito bem visto pela mídia, né?
Max Eluard – Por quê?
Germano – Não, não era assim também. Eu era tido como irresponsável. Eu botava muita banca… Essa era a verdade. Pensei que era Deus no Céu e eu na Terra.
Max Eluard – Você queria que tudo fosse do seu jeito?
Germano – Isso… Eu ganhava dinheiro. E gastava.
Tacioli – Mas em que momento você discordou da gravadora? Você se lembra?
Germano – Não fui eu quem discordou, foi a gravadora que discordou de mim. [ri] Começaram a me encostar. Eu não gravava mais. Também houve o momento em que o samba estava por baixo. Na época do iê-iê-iê, quando se falava em sambista, não deixavam nem entrar na emissora. Hoje em dia o samba está em alta. Há muito tempo o samba está em alta, e vai continuar em alta.
Max Eluard – Por que o samba voltou?
Germano – Tô desconfiado que o brasileiro ficou mais patriota. E as emissoras também começaram a executar mais a música brasileira. Bons intérpretes… Logicamente, isso também é um carma meu que resgatei. Depois de tanto tempo em segundo plano, acho que já paguei todos os meus pecados. [ri] E, agora, tô voltando. Inclusive tive muita sorte na gravação. Com 68 anos tô com voz boa, apesar da minha voz ter cinco efes: fina, feia, fraca, fuleira e fudida. [risos] Fina, feia, fraca, fuleira e fudida… Puta que o pariu, não tem mais efes! [risos]
Tacioli – Mas você sempre achou que sua voz era…
Germano – Pra samba a minha voz é boa. Porque eu pareço um crioulo paulista cantando. O carioca diz que tenho um sotaque italiano. Então, sou um crioulo paulista cantando.
Seabra – Você tem um sotaque paulistano legítimo!
Germano – Legítimo.
Max Eluard – Da gema.
Seabra – Você podia abrir uma escola de idiomas.
Germano – Realmente. Não é dizer que sou italianado, não! Não sou italiano.
Seabra – Não, é o paulistano legítimo.

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