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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 11/21

Fiz muita besteira na minha vida, viu?

Seabra – Você disse que gastou muito dinheiro…
Germano – Ah, gastei muito dinheiro em farras!
Seabra – Conte um pouco sobre essas farras.
Germano – Eu ia pro Jockey Club… Jantava no Jockey Club com quatro mulheres! [ri] Não dava conta nem de uma, queria quatro! [risos]
[Dona Ivone voltou para deixar mais petiscos] Germano – Isso quando tinha dinheiro! [ri] Agora eu não dou conta nem da minha nega, coitadinha! [ri] O que eu estava dizendo mesmo?
Seabra – Sobre essas farras…
Germano – Jantava no Jockey Club com tudo do bom e do melhor… Eu e meu falecido compadre – que Deus o tenha em bom lugar! -, Toninho Lopes, que era compositor… Foi um companheiro de farras. Ele era ator! Como fazia eu dar risada! Sério. Fazia tudo na brincadeira, mas era sério! Dizia: “Mestre! Mestre! Sentai aqui”. Era eu que pagava tudo, né? Nós íamos em um restaurante, ele chacoalhava o lenço e dizia: “Mestre! O Rei do Samba! Sente aqui, por favor!” Gastei tudo com ele em farra. [risos] Aí, eu pegava e dava um dinheiro pra ele jogar nos cavalinhos… Deixava as mulheres na mesa e ia ver qual o cavalinho que estava melhor pra escolher. Eu falava, “Vai lá! Joga pra mim e pra você.” Aí, perdia. E morria de dar risada. Em vez de ficar triste, morria de dar risada. Olha que ignorante eu era? Eu só não era mais grosso por falta de espaço! [risos] Se São Paulo fosse maior [ri]… Quero dizer, fiz muita besteira na minha vida, viu?
Seabra – Quanto tempo durou essa fase?
Germano – Até 67, por aí. Até 67 eu ainda estava numa boa!
Seabra – Foram, então, uns dez anos?
Germano – Dez anos de farras. Mas também eu trabalhava muito. Era muito requisitado para shows. E eu pensei que isso não fosse acabar.
Almeida – Mas você pensou em se garantir? Em comprar carro, casa…
Germano – Perdi tudo. Acabei vendendo tudo. Até o carro vendi. E agora não posso dirigir porque estou tomando um remédio chamado Estugeron… E ele me dá sono. Se eu ficar parado na direção, durmo. O médico falou que se eu dormir posso acordar ou no céu ou no inferno. [risos] Dependendo do meu merecimento! [risos] Depois vendi o carro… Apesar de agora minha filha estar se separando do marido… Mas com esse negócio de me chamar de sogrinho, sogrinho, ele queria que eu emprestasse o carro. E ele é um louco na direção. Aí, minha filha ia ficar viúva e eu sem o carro. Então, para não emprestar, vendi o carro. [risos] Botei na poupança, mas a poupança não está rendendo nada. [ri] E agora com essa “turbulência financeira”, o dinheiro está acabando. [ri] É uma verdade. Quem fala a verdade não merece castigo! [risos]
Seabra – Uma coisa boa… você têm essa…
Germano – Facilidade?
Seabra – … De conversão, né? De largar a farra para ter mais contato com essa vida metafísica.
Germano – Mas é por causa do meu discernimento!
Seabra – Mas você não perdeu esse humor, que é de escárnio, né?
Germano – Ah, claro. Tenho horror ao sofrimento. Eu tinha falado uma coisa importante agora há pouco… O que eu falei? Era…
Almeida – Você falou em discernimento.
Germano – Isso. Por que resolvi adotar essa literatura metafísica? Porque tenho discernimento e razão desenvolvida. A gente tem que saber o que é certo e o que é errado. E a pessoa só aprende com lágrimas, com conhecimento de causa. A pessoa tem que cuidar de seu corpo. Isto aqui é um patrimônio… O corpo material é um patrimônio que vai ser devolvido ao almoxarifado Terra… Porra, almoxarifado Terra? [risos] Somos culpados pelo que fazemos ao outros, mas também pelo que fazemos ao nosso organismo. As doenças têm duas razões: ou são provenientes da nossa má conduta com nosso próprio corpo – porque temos que gostar do nosso corpo! Até o dia em que Papai do Céu nos tirar dele! Temos que tomar suco de uva, suco de frutas, leite, parar de fumar, não beber mais, cuidar do corpo, porque todas as impurezas que você botar no corpo, terão que sair em forma de doença. Acho que não precisa ser muito inteligente para saber isso, não é?
Tacioli – Então, tudo tem um porquê?
Germano – Não há efeito sem causa, nem causa sem efeito.
Tacioli – Mas jogando esse raciocínio para a sua carreira, você acha que esse tempo em que ficou sem gravar…
Germano – Me deu muita experiência.
Tacioli – Mas tem um porquê também. Pela farra…
Germano – Pelo sofrimento. Porque fiquei muito relegado ao segundo plano. Eu, com as minhas orgias, não levava a vida a sério. Eu era muito irreverente… Então, isso foi um dos motivos que fizeram com que eu ficasse relegado ao segundo plano. Eu era um pouco intransigente.

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