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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 10/21

Somos hoje o que construímos no passado

Almeida – E a leitura metafísica?
Germano – Metafísica é tudo que é transcendental. A base da Metafísica é Allan Kardec. Depois você passa para Teosofia, Budismo, Esoterismo… Tudo que acaba com “ismo”, menos comunismo. [ri] Entende? Então, eu aceito a lei da reencarnação e vivo dentro da lei do carma atualmente. “Carma” é uma palavra indiana da metafísica budista que significa “ação e reação”, que é professada pelo espiritismo. Causa e efeito. Não existe efeito sem causa, nem causa sem efeito. Então somos hoje o que construímos no passado e seremos no futuro o que construímos no presente. Quem semeia vento, colhe tempestade. A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Então tudo o que nos acontece tem duas razões de ser, ou é uma prova ou é uma expiação. Prova é quando você passa pelas coisas para ver qual atitude que você toma e ter conhecimento de causa. Expiação é pagar o passado.
Tacioli – E desde quando você está envolvido com a Metafísica?
Germano – Comecei depois que resolvi me regenerar…
Dona Ivone – Olha aqui o cafezinho.
Germano – Obrigado, querida! Depois eu dou uma bitoquinha em você, viu? [risos]
Dona Ivone – [rindo] Pára com isso!
Germano – Eu não apresentei, né? Essa aqui é a minha mulher, minha cara-metade. Ela falou, “Tô agüentando isso há 28 anos? Como assim? Não! Vamos dar um jeito nisso!”
Dona Ivone – Eu, 28 anos?
Germano – Tá louco, viu?
Dona Ivone – Mas não tem jeito mais, né? [ri e sai]
Tacioli – Mas, quando você estava começando a carreira, que relação você tinha com religião?
Germano – É o seguinte. Comecei a me interessar depois que passei por uns sofrimentos na minha vida muito grandes, e queria saber o porquê desse sofrimento. Então, vim a saber que todo o sofrimento que a gente tem é resultante de nossos erros passados. Agora, a Teosofia diz: “Deus, na Sua infinita misericórdia”… Deus é onisciente, onividente e onipotente. Você sabe o que querem dizer essas três palavras? Onividente é quem tudo vê. Onisciente, tudo sabe. Onipresente, tudo pode. Agora, se ele criou a vida assim… Por isso que tenho medo de Deus, tenho medo dele como o Diabo tem da cruz… Não tenho medo do Diabo, tenho medo de Deus, porque a gente não entende por que a vida tem que ser assim… Nós nascemos simples e ignorantes com propensão para o bem e para o mal… Acontece que existem dois grandes segredos e a natureza íntima da alma ninguém sabe. Ninguém é testemunha da hora em que se nasce, nem da hora em que se dorme, nem da hora em que se morre. Durma-se com um barulho desse. [ri] Então, Deus não podia nos ter criado com todos os atributos da divindade? A gente já não podia ter nascido sabendo tudo? Não podia ter nascido com os bons sentimentos? Tem pessoas que fazem coisas que nem um bicho faz. E é um ser humano. Nascemos para felicidade. Essa é a definição, mas para apreciar a felicidade precisamos saber quanto ela custa.
Tacioli – E você já sofreu bastante.
Germano – Sim, sofri muito. Porque gastei muito dinheiro inutilmente… [dirige-se ao Dafne] Opa, você quer que eu bote os óculos? De óculos eu machuco. [risos] Pra dar aquela pinta de sambista intelectual.
Almeida – Sambista metafísico! [risos]
Germano – Metafísico! Sabe o que é Metafísica? É um inventário sistemático… orra, agora vocês mexeram comigo. Vocês mexeram no meu fraco…
Tacioli – Vou perguntar, hein? Germano, o que é Metafísica?
Germano – Metafísica é o inventário sistemático dos conhecimentos provenientes da razão pura. É a teoria das idéias. [ri]
Tacioli – Muito bom.
Germano – Então, eu vivo dentro da lei do carma. Tudo o que faço hoje em dia, desde que levanto até a hora em que vou dormir, é pensando no futuro. Porque, depois que morremos, o futuro continua. Nada morre, tudo se transforma. A teoria do pai da Química moderna, Lavoisier, estava certa. Na natureza – não foi o que ele disse? – nada morre, tudo se transforma. Então nós largamos esta carcaça e entramos em outra vida, na quarta dimensão. Nós entramos naquela dimensão… Mas aí você me pergunta, “Você tem prova disso?”, você pode me perguntar… Você sonha?
Almeida – Eu? Sonho.
[pergunta a todos e todos dizem sim]
Germano – Vocês repararam que se a gente tá sonhando com coisas boas, o gozo é maior do que se estivéssemos em estado de vigília, isto é, acordado? E se a gente sonha que tá sofrendo, o sofrimento é maior? O pesadelo… É ou não é? Então, essa é a vida que nós vamos levar depois que morrermos. Nós nunca morremos! Pra gente conseguir coisas boas no futuro – até gozos! – e não ter sofrimentos drásticos, temos que viver no imperativo da lei do carma. Então, tudo o que a gente faz tem que ser… fazer a coisa certa… procurar não fazer nada errado. E se, às vezes, a gente faz uma coisa errada que não dependeu da gente, a gente não pode se culpar. Por exemplo, quando um soldado mata na guerra, ele não é culpado. Não é culpado das atrocidades que cometeu. Que nem o policial. Eles são instrumentos da lei do carma, como o médico. O médico nos corta, faz a gente sofrer pra caramba… Vocês já foram operados? [todos dizem não] Nem queiram! É um sofrimento filho-da-puta! E a gente ainda beija a mão do médico: “Obrigado, doutor! O senhor me salvou! Isso é que é médico!”. Fez você sofrer que nem um danado! [risos]
Almeida – E o que te tranqüilizou nessa busca foi saber que a coisa não acaba aqui?
Germano – O que me tranqüilizou foi saber que a gente tem um ser superior que nos dá as coisas de acordo com o nosso merecimento. Então, aquele que se arrepende sinceramente de uma coisa muito grave… O arrependimento somente não é o bastante! Ele vai tem que sofrer depois a lei do carma. Se o camarada se mata… Ele tem que vir na matéria com a seqüela do que fez com o corpo anterior. As doenças servem para tirar os venenos que trazemos no corpo espiritual. Catarro, pus, todos esses venenos que saem do corpo… São “morbos psíquicos”! Puta que o pariu! Vai falar bem assim na puta que o pariu! [risos] Então, não se vingue! Nunca se vingue! A não ser numa situação de defesa pessoal… Como é? Como é? De… quando você mata o outro pra não ser morto?
Dafne – Legítima defesa.
Germano – A não ser numa coisa dessa. Então, como eu estava dizendo… aquele que é obrigado a fazer as coisas como soldado numa guerra, não é culpado. Ele é um instrumento da lei do carma para fazer o outro padecer.

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