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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

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O excêntrico elã do zelador da síncope

Em pouco mais de duas horas de entrevista, as pernas de Germano Mathias não se aquietaram, tensas, como que se antecipando à tônica do corpo, o tão expressivo corpo – também ele sincopado – de quadril forçado ao suingue nos 47 anos de carreira. Os olhos esbugalham, a língua se contrai, se contorce. A energia dissipada contamina, o faz rir, sozinho e conosco.

Tipo irreverente, promotor do mais reconhecível dos sotaques paulistanos, nobre falido, morador da extrema Zona Norte paulistana. Quando chegávamos à entrada de seu conjunto de prédios – uma familiar construção da Cohab –, perueiros reunidos, com seus veículos de trabalho, discutiam a segurança no bairro.

Foi rei. Na década de 1950, inaugurou transmissões de TV em Pernambuco. Era campeão de vendas. Shows por todo o Brasil. Sensação branca e paulista no carioca mundo da música negra. Pagava aos amigos noitadas no Jockey Clube. Bebida, mulheres, cavalos.

Passado.

Que não comove o sambista na grandeza mas incomoda o homem pelas escolhas que hoje julga equivocadas e que o fizeram herdar o passatempo laico das palavras cruzadas e a atenção abrangente e racional à “literatura metafísica”. De Kardec ao hinduísmo, as bases para a ausência de culpa e a aceitação do carma: a expiação dos 20 anos sem gravar disco próprio, de dureza, de shows aqui e ali para a paga da feira.

O presente, diz Germano, não tem “classe”, nem “elã”! Mas mesmo o elã – registre-se – há tempos perdeu a vivacidade. Germano, o homem, não se encontra no mundo, não encontra espaço para sua excêntrica elegância. Por isso tem os olhos no futuro. E com dois novos CDs na praça e três projetos na cabeça, quer reencontrar o sucesso. Daí sua preocupação excessiva em nos mostrar o disco, faixa a faixa, durante a entrevista. O mesmo disco que ouvíamos antes de partir para o encontro.

A entrevista que se segue foi realizada, por tudo isso, em clima tenso, mesmo que entrecortado por momentos de gargalhadas genuínas. Estávamos ansiosos em busca de um homem convicto de ser tão-somente um sambista – o que não é pouco, mas, por isso, preocupado em falar apenas do seu tradicional samba sincopado, que nenhum outro executa nos tempos atuais. “Sou o único!” – exaltou-se.

Por buscar essa individualidade, queríamos todos despi-lo do personagem, do discurso e da indumentária que o acompanha. De seu lado, pediu para que não o fotografássemos sem seu chapéu. Por instinto ou dever profissional, Dafne Sampaio fez as fotos que julgou necessárias. Cabe ao leitor e ao próprio Germano decidir se, durante a conversa, fizemos o mesmo. Alô, Raul Gil, você tira o chapéu para Germano Mathias?

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