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Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 8/14

Bebo na fonte da Tati, Beyoncé, Tina e Thierry Mugler

Tacioli – Gaby, como você transporta essa sua história e os preconceitos sofridos para a sua música, você que é autora de mais de 300 composições?
Mauricio Pereira – Vou pegar carona. Então, qual que é sua parte Beyoncé, qual que é sua parte Tati Quebra-Barraco e qual que é sua parte Tina Turner? Cada uma tem uma pegada diferente.
Gaby Amarantos – Sim, sim. Caramba! Eu sempre procuro ter uma parte total de Gaby. Até não gosto de assistir a esses DVDs de cantoras e tal, não pra não me influenciar, prefiro ouvir a música, mas prefiro não ver aquele visual para, de repente, não querer fazer um figurino parecido ou querer jogar o cabelo igual… A Tina Turner é uma grande diva e tem uma história de vida que já pesquisei, assisti a filme e eu gosto muito. Já tive também uma história de ter um ex-companheiro, que não me espancava, mas que tinha também uma história meio parecida com a que ela viveu com o Ike. Acho que o lado Beyoncé é o que estou vivendo hoje, de poder ter mais esse glamour de fazer no meu show um pouco do que eu quero, mas sem pegar nenhuma referência. As pessoas me chamam de diva. Agora tá na moda chamar (alguém) de diva. Eu digo que sou uma diva malaca, porque eu não quero jogar o cabelo chique, eu quero mostrar a periferia de onde eu vim, quero chegar marrenta e aí nessa hora entra a marra da Tati. Eu conheci a Tati no Rio. Ela não se abre pra qualquer pessoa. Lembro que até tentei me aproximar, conversar, e ela não deu bola, é uma pessoa fechada, porque já sofreu preconceito pra caramba e entendo totalmente a postura dela de ser assim. Foram bem citadas pelo jornalista essas três referências de cantoras. Sou talvez um pouco delas misturadas, mas colocando a coisa da Gaby nisso, porque para os meus figurinos procuro fazer algo que não se pareça com a roupa de ninguém, mas bebo na fonte da Tati, bebo na fonte da Beyoncé, bebo na fonte da Tina, bebo na fonte do Thierry Mugler, que é um estilista maravilhoso de vanguarda. E é saber lidar com o preconceito, de talvez ter um potencial para ser uma cantora de MPB, mas querer cantar um estilo que começou marginalizado, mas que agora está sendo descoberto e devidamente respeitado, não somente pela classe musical, mas pela elite. Em Belém esse preconceito ainda existe, mas ele é mínimo perto do que já foi.
Mauricio Pereira – Você está falando do preconceito musical e você tem feito muito festival de rock, nessa onda do Fora do Eixo, Varadouro. Como você lida pra chegar onde tem caras que querem ouvir rock and roll? Você tem de chegar com um som mais suingado? Em São Paulo o rock and roll é rock and roll. Realmente, se o Carlinhos Brown aparecer vai tomar lata se o público for de rock and roll. Por que você acha que você nesses festivais não rolou isso com você? Qual foi o xaveco que você deu nos caras? O que o seu som tem? Ou o povo é mais aberto fora do eixo Rio-São Paulo? Aqui o pessoal é cabeçudo…

Diva é a Dona Onete!

Gaby Amarantos – Acho que é muito por ter oportunidade de fazer o show com a banda. A minha banda vem de uma banda que fez muito sucesso em Belém, que fez muito festival, que era o antigo La Pupuña. O som que eu sempre quis fazer, e que estou podendo fazer de um ano para cá, depois do Rec-Beat, tem uma pegada heavy metral misturada com a base do tecnobrega. Você não vai ouvir no meu show o repertorio de um disco de coletânea de aparelhagem.
Mauricio Pereira – Quer dizer então que o seu tecnobrega não é um tecnobrega comum?
Gaby Amarantos – Ele é diferente!
Mauricio Pereira – Fora do padrão.
Gaby Amarantos – Ele é mais ousado, não que seja fora do padrão, mas a galera toca com computador, DJs e os meninos lá na frente, como MCs. Fui a primeira a pegar e “Vamos botar uma banda e misturar com o computador, com a batida.” A gente tinha um instrumento lá que chama curimbó, que é um instrumento especifico para tocar carimbó, um tambor grave. Então, quando eu tentei fazer a dois anos atrás a coisa da batida, ela não ficou pesada com bateria. Eu falava: “Pô, vou ter que voltar pra batida da aparelhagem, porque a bateria não está respondendo do jeito que eu quero”. E há seis anos eu conversava com o Miranda que falava “Tem que colocar o curimbó. Curimbó tem grave. Curimbó vai dar a batida da aparelhagem”. Aí, esse ano, eu cheguei no ensaio e tinha o curimbó no lugar do bumbo da bateria. “Cara, isso é genial!” A gente até brinca que inventou o curimbumbo, um instrumento novo. E, aliado a batida, ficou mais pesado que na aparelhagem.
Mauricio Pereira – Então, qual que é a formação da banda?
Gaby Amarantos – Bateria, teclado, baixo, duas guitarras, percussão eletrônica e acústica, e o tecladista solta as batidas no computador. A gente toca misturado.
Mauricio Pereira – Quando você foi no Faustão, essa vez agora, você foi com a sua banda?
Gaby Amarantos – Não, foi com a banda deles.
Mauricio Pereira – Meu, ela se virou lá…
Gaby Amarantos – Tive que me virar…
Mauricio Pereira – Você cantou a da Beyoncé, depois você saiu cantando…
Gaby Amarantos – Uma música que eu tinha composto lá na hora. Era alguma coisa do Brasil. Peguei e já fiz aquela música. Lá, (no Pará), a gente tá com uma técnica que eu digo que é um novo estilo musical: a galera faz muita música somente com uma nota. Os DJs, que são os DJs produtores – porque tem o DJ de aparelhagem e tem o DJ produtor, que tá com um computadorzinho na casa dele fazendo música – não são músicos. Então, eles não sabem fazer a variação, criar uma harmonia e colocar os acordes corretos. O que eles inventaram? Colocam uma nota só para a base inteira e o cantor é que tem que improvisar na melodia vocal pra poder parecer que é uma música. Então, é um exercício difícil pra caramba.
Mauricio Pereira – Ela pediu um tom e saiu chutando…
Gaby Amarantos – Eu já exercito isso lá… Vocês devem conhecer o Pio Lobato, né? [n.e. Guitarrista e produtor musical é um estudioso da guitarrada, gênero musical paraense fruto do iê-iê-iê, merengue, choro e surf music. Criou o projeto-grupo Mestres da Guitarrada, conduzido por Mestre Vieira] O Pio fala uma coisa engraçada: o Stravinsky, que é um compositor alemão que fez ópera…
Julio de Paula – Russo… [n.e. Pianista, compositor e maestro russo, Igor Stravinsky (1882-1971) é autor da célebre “A sagração da primavera” (1913) que, anos depois, ambientou a animação “Fantasia”, de Walt Disney]
Gaby Amarantos – O cara inventou uma parada meio parecida com isso. Ele tocava algumas músicas num acorde só e fazia uma parada lá. Às vezes, para gravar, os DJs gravam errado. Gravam o baixo num tom, grava a guitarra num outro tom e grava a batida num outro tom. Somando fica alguma coisa audível, mas é louco. Aí, o Stravinsky é gênio e os meninos aqui do Pará são doidos. Por quê? O Pio foi o primeiro a levantar essa questão. O que tem de DJ que manda base pra mim: “Mandei uma base pra você. Vamos fazer uma aparelhagem tal?!”. Lá tem música tipo a Galera da Laje, que é um grande sucesso que vai estar no meu disco, é um grande hit, é uma música de uma equipe – equipe é um fã-clube de aparelhagem. Cada aparelhagem tem 200, 300 equipes, 200 equipes. A galera da Gang do Eletro vive de fazer música pra equipe. Eles cobram 300, 500 e por dia faz duas ou três músicas. Você tá lá e tem: a equipe dos jornalistas que vai pra festa do Super Pop. “Vamos tocar a música da equipe dos jornalistas. E vocês estão lá bebendo e “Vai tocar nossa música”. É mais ou menos assim. Hoje em dia eles fomentam a cena daquela galera que tá ali e tem que tocar a música de todas as equipes. E é isso que fez eles virarem esse grande fenômeno, porque você vai pra ouvir. Se você quiser: “Ah, eu vou fazer a minha música. Vou fazer a música do Pedro. DJ, toca a música do Pedro aí!” Vai tocar a música do Pedro. Isso é muita interação, isso é muito louco! E tem todo um momento: eles usam um telão de LED, eles têm as logomarcas das equipes e na hora que vai tocar a música da equipe, o cinegrafista filma a equipe e ela aparece no telão. Então, para os caras, estar numa festa de aparelhagem, aparecer no telão, o DJ tocar a música da equipe e ainda mandar um abraço pra eles, é a glória.
Natale – É uma lógica de gincana que a gente tinha na escola…
Julio de Paula – … e é um mercado também: as pessoas pagam pras festas, pra entrar nas festas.
Gaby Amarantos – E outra coisa que eu digo: o Pará também reinventou essa coisa de levar a música para o pirateiro.
Julio de Paula – É isso que eu ia te perguntar…
Gaby Amarantos – A música para o camelô. A coletânea do Vetron, que é a coletânea do momento, que é uma aparelhagem pequena que está se tornando gigante, os caras vendem cem mil cópias de CD pirata.
Julio de Paula – E como é essa história de você gravar o disco e entregar na mão (do camelô)?
Gaby Amarantos – Essa história já é antiga, de quatro anos atrás. Agora, com a internet, basta mandar por e-mail, né?! [risos] Mas, antes a gente pegava e “Gravamos! Vamos lá”. Fazia 20 cópias da música num CD e a gente já sabia quais eram os pirateiros, os camelôs, os DJs e já pontuava. A gente saía num dia de viração e ia a pé porque não tinha grana pra ir de carro, nem de ônibus. Eram muitos ônibus. Quando começou a Tecno Show, íamos eu e o Maluquinho pelo comércio. Tinha a rádio do comércio, tinha o camelô do comércio e deixava pra galera. Ainda dava uma entrevistazinha na rádio e anunciava “Amanhã, a galera da Tecno Show vem aqui lançar música nova”. Para os caras que fazem coletânea, levava o disco, gravava umas 12 músicas, dava para o cara, ele reproduzia, botava nossa foto na capa e botava pra vender por 2 reais, 1 real. Botava pra vender.
Mauricio Pereira – No duro você estava falando de antropologia. É uma sociedade diferente de uma sociedade Rio-São Paulo, que é mais institucional, mais europeia. No duro, se a gente for pensar, não é nem pirataria. Pirataria é você copiar um disco que já existe cinco milhões e aí dar para o camelô. O camelô não é pirata! Ele é…
Max Eluard – É uma rede de distribuição. Não é pirataria!
Julio de Paula – Ele tá distribuindo. É uma rede de distribuição que só tem lá.
Gaby Amarantos – E pra gente era confortável…
Julio de Paula – A lógica é: as pessoas conhecerem o trabalho de vocês e irem para os shows.
Gaby Amarantos – Isso. Porque eu não vou precisar estar lá, porque até os nossos CDs a gente gravava pra vender nos shows. A gente tinha uma torre que gravava sete de uma vez. Eu ficava gravando e eu embalando. E era muito artesanal o trabalho. Foi muito bom pra me formar: eu desenhava meus figurinos, compunha minhas músicas, ia para o estúdio pra fazer o arranjo, sei tocar um pouquinho de teclado, “Eu quero um solo assim”, e ia lá no teclado fazer. “Eu quero o solo da guitarra assim.” Eu tinha que ser a minha produtora porque as pessoas ligavam pra mim pra fechar o show. O telefone de contato que estava lá (era o meu). ”Eu quero fechar um show da Gaby.” [muda a voz] “Você quer fechar um show da Gaby? É aqui mesmo e tal. Qual é a data?” Eu fazia a minha empresária, a minha produtora, e vendia o meu próprio show. [risos] E muita gente falava comigo e não sabia que estava falando comigo porque eu fazia uma voz diferente.
Tacioli – Você tinha um nome?
Gaby Amarantos – Cara, era Viviane, Vanessa, era o que vinha na cabeça. [risos] Depois que eu comecei a ter uma produtora, mas não confiava de deixar alguém com o meu telefone pra atender. Eu continuava atendendo, mas eu dava o nome da pessoa. Aline, Joana. E eu ficava fechando os shows. Lá, Baixo-Amazonas, a gente anda muito de barco. Faz muito show pelos interiores para os ribeirinhos. Então, ia lá no barco pra despachar tantos CDs e cartazes. Era uma viração. Então, tinha que aprender ser um pouco empresária, estilista, produtora, porque não tinha quem fizesse, não tinha ninguém pra acreditar. Alguém pra chegar e “Pô, vou pegar essa menina, vou investir dinheiro nela, vou transformar…”. Não, não tinha. Se não fosse eu disponibilizar a internet, eu correr atrás, acreditar, é o que a galera faz lá, mas é bom porque forma. Hoje a gente tá bem, é um treinamento muito forte, a gente precisava trabalhar.

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