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Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 7/14

Era a filha da lavadeira que estudava na escola particular

Max Eluard – Gaby, de onde vem esse preconceito? E por que você a sua música conquista as pessoas? Onde a sua música quebra com esse preconceito?
Gaby Amarantos – Eu acho que essa coisa do preconceito me favorece, porque a pessoa já está ali com uma aversão, “Não quero ver isso”, aí vê e, nem que precise ser tão bom, mas vê que não é o que estava pensando e já começa a abrir. Acho que por eu vir de um bairro pobre eu sempre assumi muito isso. Não é coitadismo, “Ah, porque eu vim pobre”. Não! Eu não suporto coitadismo, mas quem é do Jurunas sabe o quanto é difícil você vencer. Quando gravei um DVD lá, que o Vincent Moon fez, foi um dos momentos mais emocionantes da minha carreira. Eu só queria dizer para as pessoas da minha rua, os meus vizinhos, a galera que tá fumando crack do lado de casa e a galera que está ali achando que “Nasci no Jurunas e não vou ser nada na vida”, “Cara, eu venci! Vocês também podem.”. É só isso: eu queria dar de recado para as pessoas de lá.
Max Eluard – Mais um preconceito social…
Gaby Amarantos – É. Um preconceito social, acho que também racial, que é uma coisa que eu enfrento desde garotinha, hoje em dia eu posso usar os artifícios que deixam o meu cabelo loiro, mas quando eu era criança isso não existia. Eu queria ter franja. Eu não entendia porque minhas coleguinhas tinham o cabelo liso e loiro e o meu era preto, porque o meu cabelo era enrolado. E eu sofria por ter cabelo enrolado e por ser um pouquinho mais escurinha. Nem sou tão negona, mas tenho traços de negra. A minha mãe ralava pra pagar a escola em que eu estudava. Era uma escola particular. Eu era a filha da lavadeira que estudava na escola particular. Podia não ter comida na mesa, mas tinha que estudar. Eu digo, “Mãe, infelizmente a senhora jogou esse dinheiro fora, porque não estudei mais, só quis cantar”. [risos] E ela, “Não, minha filha, foi com prazer! Com a formação cultural que você tem, você sabe enfrentar determinadas situações porque já as enfrentou na infância”. Na escola eu era a atração, eu e a Adriana, uma amiga que era mais escurinha. Éramos as duas únicas alunas mais escurinhas da escola, que era a Santa Maria de Belém, uma escola top de Belém. E as pessoas separavam a gente.
Max Eluard – Separavam como?
Gaby Amarantos – Separavam assim: as crianças não queriam brincar com a gente, ficavam afastadas da gente. Eu lembro que me chamavam de “nega maluca” e eu ficava p da vida. Eu batia nos meninos, eu brigava. E tinha um amigo que tinha um jeito afeminado e chamavam ele de bichinha. Então, era a gangue dos excluídos.
Max Eluard – Essa pressão do preconceito não te intimidava.
Gaby Amarantos – Imagina! Isso me fez enfrentar esses festivais em que eu toco hoje. Até o próprio Se Rasgum, que é um festival de Belém, na primeira vez em que eu (tocar), falei “O que eu vou fazer aqui? Os caras vão me jogar lata igual fizeram no Carlinhos Brown no Rock in Rio. O que eu tô fazendo aqui?”. Mas eu já sabia lidar com a situação de você não ser querida num lugar e você chegar e conquistar o espaço. Então, essas situações pelas quais eu passei na infância, de eu ser do Jurunas, (me fortaleceram). O meu pai ficava feliz! Ele me levava na escola, era um pouco longe, e tínhamos de sair cedo, porque íamos a pé para não pagar um ônibus. E de lá ele só pegava um ônibus pra ir para o trabalho. Meu pai era guarda de banco que virou gerente do banco. E ele saiu do banco porque os amigos ficavam com preconceito, não aceitavam um negro comandá-los. Então, armaram uma parada lá e ele foi demitido com 28 anos de serviço. Foi a primeira vez e única que eu vi o meu pai chorar como uma criança. Ele dedicou a vida toda ao Banco Mercantil do Brasil. Começou de guarda, foi crescendo, era um profissional incrível, mas o fizeram sair como se fosse um ladrão…
Max Eluard – E ele falava disso pra você?
Gaby Amarantos – Sim, sim. Sempre fui meio da madrugada. Então, lembro de acordar, quarto colado e casa de madeira, e escutar ele conversando com a minha mãe. E, como eu era a mais velha, com seis, sete anos de idade já cuidava de dois irmãos menores. Tinha que cozinhar. Minha mãe trabalhava fora e meu pai (no banco). Então, a responsabilidade foi desde cedo. Vendia “chup” na escola, já vendia picolé na igreja pra ajudar a igreja. Eu trabalho desde garota.
Tacioli – Vendia o que na escola?
Gaby Amarantos – Vendia chup. Chup é um geladinho, gelinho. [risos] Lá a gente chama de chup de frutas. Fazia bolo pra vender na rua. E eu sempre fui virada. Então, tudo isso, vir do Jurunas, ter essa infância…
Max Eluard – Mas quando isso aconteceu com o seu pai, você tinha quantos anos?
Gaby Amarantos – Tinha uns 12 anos. Foi quando passamos para a escola pública. A gente até passava necessidade, mas a minha mãe prezava a educação. Nunca passei fome, mas, por exemplo, “Não vamos jantar, mas hoje vamos comer um café com pão, vamos diminuir a comida pra poder pagar o colégio dos meninos, pra poder construir a nossa casa”. A minha mãe sempre foi a guerreira da família. O meu pai é boêmio até hoje. A cena do meu pai é: frente de casa, uma cadeira e uma mesa e meu pai tomando uma cerveja. Hoje em dia, minha mãe bota (a cerveja) na geladeira pra ele não ter que tomar no bar, pra ele ter que ficar em casa. Os meus amigos todos se apaixonam pelo meu pai porque ele é uma figura. Você chegava lá dois meses antes, “Cadê a Gaby?”. Agora, “Cadê o seu Conrado?”, porque ele vira um amigo. Ele nunca quis crescer, já se acostumou com essa condição, porque ele veio do interior do Anapu do Rio pra morar em Belém, fez o meu papel na infância, teve que cuidar dos irmãos, porque o pai dele morreu cedo e ele catava cabeça de peixe no Ver-o-Peso. A história do meu pai é linda. Ele vendia pirulito de cana-de-açúcar que eles faziam no Ver-o-Peso; passava fome, apanhou na rua. Então, ele é um grande exemplo pra mim. E a minha mãe de acreditar que você pode mais.

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