gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 6/14

”A gente vai jogar ovo nela!"

Natale – Quando você falou do pessoal da MPB: “Você poderia ser uma cantora de MPB e está louca de ir para o tecnobrega”. Na própria Belém existe preconceito ainda.
Gaby Amarantos – Sim, sim. Agora mais por parte das elites. Ainda existe, mas eu já sinto uma aceitação muito grande. Tem um clube que é a Assembleia Paraense, o clube top de lá, onde os caras já me chamaram pra fazer evento esse ano. Há quatro anos eu era proibida.
Julio de Paula – Isso é uma mudança…
Gaby Amarantos – Um marco. Lá tem a Estação das Docas, que é um ponto turístico. Era proibido tocar tecnobrega na Estação das Docas. Eu cantei no ano passado, fiz vários shows lá, até no aniversário da Estação eu cantei. E na Assembleia, esse clube que eu falei, antes de vir pra cá, eu estava fazendo um spa lá, e as pessoas – os funcionários e os sócios – quando me viram: “Cara, a Gaby aqui!”. Eu via essas pessoas ligando: “Olha, aquela cantora, Gaby Amarantos, tá aqui a piscina da Assembleia!”. Quando eu vi já saiu nota na coluna social que eu estava na Assembleia Paraense. Até a diretoria já mandou me convidar se eu quiser ser sócia. [risos] O maior preconceito da minha vida eu sofri nesse clube: num show, há dois anos, com o Monobloco. Eu fiz um show pra abrir o do Monobloco. Eu queria gravar um DVD, só que na mídia que foi feita na TV aparecia: “Participação: Gaby Amarantos”. Acho que as pessoas imaginavam que eu ia cantar junto com o Monobloco e não que iam chegar lá, ter uma aparelhagem no palco e que seria o meu show. Eu lembro de duas pessoas na bilheteria querendo quebrar tudo, pedindo pra devolver o dinheiro do ingresso porque não queria ver aquela porcaria. As pessoas reagiram até bem, gravei esse DVD, tem cenas do público, mas não é o calor do público da aparelhagem, aquela loucura que é. Mas reagiram bem, até dançaram. E depois teve um problema com a diretoria, com o pessoal que fez a festa, que mandou parar o meu show no meio porque tinha gente reclamando. Eu fiquei ofendidíssima, até saiu no jornal, foi a maior coisa. Dois anos depois, o grupo me acolhe. Aí a mulher do dono da afiliada da Globo de lá, TV Liberal, ela malha comigo, é minha amiga, me liga pra saber como estou e tal. Eu sempre tive essa coisa: só entro no Theatro da Paz pela primeira vez se for para cantar. Eu sempre tive isso: só vou entrar no Theatro da Paz se for para cantar. Nunca um artista de brega tinha cantado no Theatro da Paz. Eu fui a primeira. Até aqui, como no Prata (da Casa, do Sesc Pompeia), eu sou a desbravadora do movimento. Sempre vou primeiro. Tem um festival no Acre que se chama Varadouro. A galera tava no Twitter: “O que que essa Beyoncé do Pará vai cantar?”. Os roqueiros (diziam): “A gente vai jogar ovo nela porque não era pra ela tá aqui, isso é um festival de rock, tem que respeitar!”. Maior onda. E na hora do meu show, os camisas pretas pirando. Quando acabou, eles vieram me cumprimentar, pedir desculpa porque não sabiam que o meu show era legal. Rolou essa parada da Beyoncé, então quem não conhece nada do meu trabalho, liga a TV e me vê dançando “Single ladies”, pensa que eu sou uma pessoa que resolveu ser a Beyoncé e que estou querendo me aproveitar disso. É normal essa reação. Tinha um pessoal super de boa, mas é muito legal esse choque que causa, do depois as pessoas (virem e) “Pô, caramba, é outra parada, não é nada do que eu tava pensando”. Foi o que aconteceu no Rec-Beat, onde eu cantei no ano passado. O Rec-Beat foi o grande divisor de águas. Depois do Rec-Beat veio toda essa repercussão. Tinha um produtor do Faustão lá, todos os jornais falaram que foi o melhor show do festival. Queimou o meu teclado, fiquei sem base pra tocar, tive que me virar nos trinta lá. Acho que por isso que fui para o Faustão, ter de me virar nos trinta, né?! Nem sei como eu consegui: tinha uma base com a música da versão da Beyoncé, que nem é minha, as pessoas até hoje acham que é minha, e da “Beba doida”, que é uma música que também não é minha, mas que eu canto. As minhas músicas eu não pude fazer. Aí eu fiquei repetindo essas músicas. Cantei seis vezes cada uma. [risos] E nos intervalos, como eu estava com um guitarrista, eu pedi para ele fazer um loop de carimbó, eu dava os tons e cantava carimbó. E as pessoas dançavam carimbó sem a percussão, somente na guitarra. Até piada eu contei nesse show! [risos] Quando acabou o show, o DJ Dolores: “Gaby, você encheu a melhor linguiça que eu vi na minha vida”. [risos] Eu fiquei sem teclado pra fazer o show. Falei: “Gente, o meu teclado queimou!” E todo mundo: kkkkkk! “Gente, tô falado sério, não sei o que vou fazer aqui com vocês.” Aí eu comecei a brincar: estava com um maiô preto, estava meio que fantasiada de Beyoncé pra tirar um sarro, era Carnaval, e “Single ladies” estava estourada, era o hit do momento. E comecei: “Olha, vou fazer uma dancinha aqui da Beyoncé”. E as pessoas: “Beyoncé, Beyoncé, Beyoncé!”. O público foi recorde: 30 mil pessoas. Ainda não colocaram mais público no Rec-Beat. E no outro dia nos jornais: “A Beyoncé do Pará arrebentou em Recife! Ela é uma mistura de Tina Turner, Beyoncé e Tati Quebra-Barraco”. [risos] Pronto, me batizaram de Beyoncé, acharam essa semelhança não-sei-como. Aí o cara do Faustão liga: “Tu tá afim de vir aqui? Mas é o seguinte é pra vir como a Beyoncé do Pará”.
Mauricio Pereira – Eu vi esse Faustão no YouTube.
Gaby Amarantos – Eu falei: “Peraí, deixa eu pensar: ou vou foder minha carreira e jogar tudo pela janela ou eu me garanto. Eu vou!” E eu fui e tô aí.

Tags
Gaby Amarantos
de 14