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Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 5/14

Se não tiver aparelhagem, a festa não bomba

Tacioli – Nesse emprego você tinha quantos anos?
Gaby Amarantos – Acho que eu tinha 21, 22 anos.
Tacioli – E já estava cantando em barzinho?
Gaby Amarantos – Já estava cantando. Larguei o emprego por causa da música.
Dafne Sampaio – Durou quanto tempo?
Gaby Amarantos – Dois anos trabalhando.
Julio de Paula – Esse é o prazo pra mudança.
Gaby Amarantos – É o que eu tô contando agora…
Mauricio Pereira – A primeira vez que você estava cantando MPB no bar faz uns dois, três anos.
Gaby Amarantos – Dois anos também cantando MPB
Mauricio Pereira – Aqui no Sudeste, barzinho é geralmente um violão, uma mesinha. Você já tinha essa onda de aparelhagem, era um negócio mais dançante?
Gaby Amarantos – No bar mesmo nós éramos um trio: um baixista e um guitarrista que, às vezes, tocava teclado. Ele soltava as batidas do teclado. Depois ele comprou uma bateriazinha que a gente apelidou de japonês. Botava a batida e a gente tocava.
Mauricio Pereira – Como você foi cair na coisa dançante? No Pará dança muito. É impressionante.
Gaby Amarantos – Sim, sim. O povo gosta de dançar. Eu já cantava. Cantando nos bares foi ressoando o meu nome. Eu chegava em casa e “Tem um telefone aqui de alguém de uma banda não-sei-o-quê, forró, quer fazer um teste”. “Uma banda de brega…” O axé na época era o rei da parada, todo mundo queria ser baiano. Em Belém tinha um monte de banda de axé. Mas eu falava: “Pô, cara, não é isso que eu quero. Não é essa parada que eu gosto. Se for pra sair do trio pra fazer alguma coisa, eu quero fazer alguma coisa com o brega, pra cantar brega”. Ai fui cantar numa banda de brega, que era a banda Quero Mais. Foi antes da Tecno Show. A Tecno Show foi a banda que eu fundei pra fazer o tecnobrega. Eu cantava antes brega; tocava calypso, tocava carimbó, tocava muita cumbia, lambada, os ritmos mais populares. Fazia festas. Aí comecei a ter contato com multidão, com o palco, de ir pra frente, pra dançar. Fiz a minha primeira bota de papel camurça. Aí quis fazer roupa de show. Já fui despertar esse outro lado artístico. Depois veio essa banda, que eu também fundei – Quero Mais – em que fiquei um pouquinho mais de dois anos. Mas fui expulsa também. Isso foi verdade. Tinha um vocalista que não gostava de mim ou uma coisa assim. E entre ele e eu, ficaram com ele. Não sei se vocês conhecem o DJ Maluquinho. Já ouviram falar, de lá de Belém? Ele cantava comigo. O nome dele é Marcos, Marquinhos. Ele falou: “Saia dessa banda. Não volte mais. Saia! Não sofra com essa banda! Eu vou montar um trabalho pra você. Escolha o nome”. O tecnobrega já estava com um ano, os primeiros experimentos… E eu falava: “Cara, já que tá se falando dessa coisa de tecnobrega, e eu sempre gostei disso, vou colocar Tecno Show”. Criei o nome da banda, Tecno Show. Aí começamos com a banda em 2002.

Tacioli – O trio da MPB tinha um nome?
Gaby Amarantos – Tinha. Cléber Viana, não, o nome era Chibantes.
Tacioli – Chibantes.
Gaby Amarantos – Chibantes, que é uma expressão paraense que significa rebeldes. Chibantes. Você já tá com a sua chibancia? Você já tá com a sua rebeldia? É uma expressão do interior do estado. Uma pessoa chibantes.
Tacioli – Como foi esse primeiro ano do tecnobrega? O que caracteriza esse primeiro ano?
Dafne Sampaio – E quando você escutou pela primeira vez o tecnobrega? O que era, o que tinha ali de diferente do brega, que depois virou flash-brega.
Gaby Amarantos – O flash-brega é antes…
Dafne Sampaio – É antes ainda.
Gaby Amarantos – É antes. O flash-brega é o paralelo à cena da Jovem Guarda. Foi quando se começou a falar de brega. Depois veio o brega. Aí veio o brega-pop, que era um brega, digamos, mais moderno, mais popular. Depois veio o brega-calypso, o tecnobrega, o cyber-tecno, e agora o eletro.
Dafne Sampaio – O eletro-melody.
Gaby Amarantos – O eletro-melody. É toda uma rede. Gravar um disco de brega em Belém era um negócio que não saía barato. Tinha que gastar uns 7, 8, 9 até 15 mil para gravar um disco no estúdio, com todos os instrumentos. Todo mundo queria ter banda. Tinha um monte de gente. Aí o brega estourou lá. Explodiu o brega-pop. Todo mundo queria gravar disco, mas não tinha grana pra gravar. Tem um cara que se chama Tonny Brasil. Ele foi o primeiro a trabalhar com batidas eletrônicas, aquela batida do teclado que tinha o eletro-ritmo. Ele ligou no computador, colocou aquela batida eletrônica e gravou o teclado. Fez o baixo e uma guitarrinha no teclado só pra dizer que tinha uma guitarra, começou a fazer essa música barateou o custo. De dez mil pra mil reais. “Venha comigo gravar um disco. Mil reais!” Todo mundo começou a gravar com o Tonny Brasil. O Tonny Brasil virou o cara do estúdio…
Julio de Paula – O produtor.
Gaby Amarantos – O produtor. Mas isso não se chamava tecnobrega. Isso era uma música nova que estava nascendo e que não tinha absolutamente a mínima pretensão de se tornar o que se tornou depois. Era uma coisa para ficar mais barato. Foi assim que começou a coisa. Aí veio um outro cara, que é o grande cara que batizou (o estilo): o Jurandir. Pegou uma batida que havia começado a pesquisar, criou uma outra batida e começou a fazer música. Várias músicas… Nas músicas dele tinha uma vinheta. Todas as músicas em Belém sempre tem a vinheta. “Jurandir o rei do tecnobrega.” Eis que nasce o tecnobrega. O cara deu o nome. Gente, tecnobrega, que legal, mas ainda era bem ali do gueto. Até a aparelhagem não era o que se tornou. Todos começando juntos. E a Tecno Show, que é a minha banda, foi quem procurou um estúdio que tinha Pro Tools. [n.e. Programa de gravação, edição e mixagem de áudio que revolucionou a indústria fonográfica] O cara que tinha Pro Tools se chamava Beto Metralha. “É o cara, o cara tem Pro Tools! Vamos lá com ele que é a sensação do momento!” O N-364 era um teclado com que a gente gravava muito o estilo de tecnobrega. [n.e. Teclado Korg N-364] Na época ele custava uns sete mil reais, então quem tinha o N-364 era o rei. A gente tinha um microfoninho, que era o B2, que já tinha mais qualidade. Então, a gente começou a gravar com qualidade em relação à galera que veio antes. Então, por isso que a Tecno Show teve um papel fundamental. Tinha muita gente: “Poxa, eu não gostava de tecnobrega, mas depois que ouvi a Tecno Show, passei a gostar”. Foi esse o papel da Tecno Show. Aí o Hermano Vianna foi a Belém fazer um programa para o Fantástico sobre a moda brega, pra entrevistar o Wanderlei Andrade, que era um cara que tinha o cabelo colorido, que usava aquelas botas, aquelas roupas muito legais. Mas o Wanderlei em Belém já não era mais ninguém. Dois, três anos antes, o Wanderlei era o rei. O Hermano chegou atrasado. O Wanderley (Andrade), o Anormal do Brega, nem cantava mais…
Julio de Paula – O Anormal do Brega… [n.e. Persona artística do advogado Rubens Motta]
Gaby Amarantos – O Anormal do Brega saía de dentro de um caixão. Ele tinha uma música: “Ele é tarado por brega”. Ele saía do caixão, tinha um show pirotécnico de luzes e tal.
Tacioli – Mas o Wanderley era de qual (estilo)?
Gaby Amarantos – Era do brega-pop. O primeiro brega que estourou. Wanderley, Kim Marques, Edilson Moreno, Aninha – A Odalisca do Brega. Foi quando começaram essas bandas, como a Banda Cheiro Verde. Uma fase pós Frankito Lopes. Frankito já era o flash brega, que foi o primeiro de tudo. Por isso que essa galera do flash-brega é muito foda. Aí o Hermano chegou e se deparou comigo, meio gata-borralheira, no chão, costurando minhas roupas pra fazer a matéria da moda brega. Nós gravamos com o Hermano falando da roupa e tal. Minha roupa tinha espelho. Ele adorou a minha roupa… E caiu um toró em Belém, uma chuva. O Hermano ficou preso lá e começou a conversar com a gente: “E aí, o que está rolando aqui?” “A sensação é aparelhagem!” “Aparelhagem? O que é?” “Vai ter uma festa mais tarde. Você vai ficar até quando?” “Até segunda.” “Ah, vamos lá.” E levamos o Hermano na primeira festa de aparelhagem do Príncipe Negro. Quando o Hermano ouviu o imenso sound-system tocando tecnobrega, ele disse “Meu, aquilo que eu tava querendo fazer… É isso!”. Ele foi o primeiro cara a falar do tecnobrega para o Brasil.
Mauricio Pereira – Isso foi quando?
Gaby Amarantos – Ele gravou com a gente no início de 2003. Foi em fevereiro ou março. Dois ou três meses depois eu já estava no (Programa do) Faustão por indicação do Hermano falando do tecnobrega. Fiz o Fantástico.
Mauricio Pereira – E de quando é a aparelhagem? É uma coisa antiga? Ela foi aumentando de tamanho? Descreva uma aparelhagem.
Gaby Amarantos – Bom, a aparelhagem é um imenso sound-system que tem caixas de som, sempre tem uma cabine muito colorida com muita luz. Hoje em dia com a mais alta tecnologia que existe no Brasil. Com DJ sempre, na maioria das vezes, são uma dupla de irmãos. DJs Élison & Juninho são irmãos. DJs Edilson & Edielson são irmãos. E tocam nas festas pra cinco, seis, dez mil pessoas. Tocam cinco vezes por semana.
Mauricio Pereira – Mas pode ter banda ao vivo?
Gaby Amarantos – Não, não tem banda.
Mauricio Pereira – Nunca é banda. Aparelhagem é só a…
Julio de Paula – Só a discotecagem.
Gaby Amarantos – A discotecagem. Bem parecido com aquelas equipes de som Big-Mix do funk carioca.
Natale – Furacão 2000…
Gaby Amarantos – Furacão 2000. Parecido com isso, com as radiolas que têm no Maranhão. Só que quando toca uma aparelhagem de uma banda, tem um palco separado pra banda ou o artista pode subir e fazer uma performance em cima da cabine do DJ. A aparelhagem mais antiga se chama Rubi e tem 67 anos. Então, tem o Tupinambá que tem 50 e pouco. O Super Pop, que é a mais atual, tem 30 e pouco. É uma parada muito antiga. Os caras tocavam antes na grade de cerveja com um equipamentozinho, as caixinhas. E foi crescendo muito marginalizada, que veio bem vagarosamente. Também quando explodiu foi uma febre, um fenômeno. Hoje, a aparelhagem é o que há. As festas… Se não tiver uma aparelhagem na sua festa, a sua festa não bomba. E tem mais de 100 aparelhagens em Belém.

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