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Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 4/14

Dona Onete é o Mestre Verequete de saia

Julio de Paula – Você desde criança ouvia e cantava carimbó?
Gaby Amarantos – Eu tenho uma história com o carimbó. Uma finada tia, Ana Lúcia, me ingressou nas artes. Ela fazia a gente fazer teatro e a cantar em datas específicas – Dias das Mães, Dia dos Pais, Natal, Dias das Crianças. E no dia dos meus 15 anos, ela fez uma homenagem pra mim. E eu lembro! “Sua cor preferida?” “Azul”. “Seu cantor preferido?” “Pinduca”. Conto pra ele essa historia porque carimbó é uma coisa que eu sempre gostei muito. E tive o prazer de conhecer o Mestre Verequete. Não tive o prazer de cantar (com ele) porque já estava muito debilitado, já não fazia mais shows. Ele morreu, se eu não me engano. Já estava com quase 90 anos, mas eu tive o prazer de conhecê-lo. [n.e. Augusto Gomes Rodrigues (1916-2009), o Mestre Verequete, é considerado o Rei do Carimbó]
Natale – O Verequete é do Jurunas também?
Gaby Amarantos – O Verequete morou no Jurunas, inclusive a família dele mora na Cremação, que é um bairro colado no Jurunas.
Julio de Paula – Ele é um dos mais importantes.
Gaby Amarantos – É, eu considero o mais importante. Mas o Mestre Verequete vivo é a Dona Onete. Digo que é o Mestre Verequete de saia. E que também tem uma história… A Dona Onete foi professora do meu pai, de todos os meus tios, me conhece desde garotinha. Tem uma história que ela me contou que eu nem sabia. Eu ficava procurando alguém da minha família que tivesse sido músico. Fora os meus tios que tinham um grupo de samba, tinha um tio-avô que tocava trompete. A minha ascendência é de escravos da parte do meu pai. E eles tinham uma dança que se chamava Banguê. Enquanto traziam a cana-de-açúcar para fazer a cachaça, eles vinham dançando. E dessa folha do abaeté ele fazia um trompete com uma lanterna e tocava… Vinha tocando o trompete. Aí quando ele vinha na canoa no meio do rio ribeirinho, interior, interior mesmo, sem energia, poucas casas e vilas, todo mundo falava: “Olha, lá vem o compadre Herógenes!”. E as pessoas corriam para a porta. E ele cantando. Todo mundo vinha batendo palma, os botos vinham pulando. Era uma festa! E eu não sabia disso. Fiquei emocionadíssima quando ela me contou essa história. Até hoje lá tem engenho, a casa do senhor feudal. Fui visitar; tem tudo lá. Minha bisavó morreu com 100. Meu outro avô morreu com 100. Minha bisavó com 97. Meu bisavô paterno com 114, avô materno com 100. Então espero que eu consiga viver pelo menos até os 70.
Tacioli – Tem muita Gaby pela frente.
Gaby Amarantos – Eu espero, né?! Estou cuidando da saúde pra isso.
Tacioli – Você é muito ligada nessa de antepassados? Essa história pregressa te interessa?
Gaby Amarantos – Sim. Eu tenho lembrança dos meus avós, do meu bisavô, da minha bisavó. Ela era uma negra que tinha um rosto e um nariz finos. Eu tenho lembranças muito fortes deles. A casa em Belém era nossa. Então, quando qualquer tia-avó, qualquer idoso ia fazer um exame ou outra coisa, ficava em casa. E eu não queria saber de ir pra rua, só queria ficar perto do vô e da vó, do tio-avô, da tia-avó. Sempre gostei muito de pessoas de mais idade. O único emprego que eu tive foi trabalhando com pessoas de mais idade. Sempre tinha o carinho de estar ali perto. Eles me contavam cada história! E essa minha raiz foi um dos fatores pra cantar na posse da Dilma. Depois fui descobrir que o pessoal da Fundação Palmares que estava fazendo a escala das cantoras foi pesquisar a minha história e descobriu que eu tinha antepassados escravos. Aí me convidaram também por conta disso. Fiquei super feliz!
Natale – Qual era a cidade? Você falou que a casa da sua família em Belém era de vocês, né?
Gaby Amarantos – Era.
Natale – E os seus avós eram de onde?
Gaby Amarantos – Eram de Igarapé-Miri, interior do Pará. Em Igarapé-Miri tinha o Rio Anapu. Então, da parte do meu pai é somente de negros. Da minha mãe, portugueses e índios. A minha bisa materna era índia e o meu avô era português, tinha olho azul. Eu não o puxei, infelizmente.
Mauricio Pereira – Mete uma lente.
Gaby Amarantos – Mas isso é o de menos. Então, tenho essa miscigenação: brancos, negros e índios.
Natale – Anapu é a cidade da Dorothy Stang?
Gaby Amarantos – Não, não. Anapu é o rio, que tem o mesmo nome da cidade que do sul do Pará, da Irmã Dorothy. [n.e. A missionária norte-americana naturalizada brasileira Dorothy Stang foi assassinada em 2005 em Anapu, oeste paraense]
Tacioli – Qual foi esse único emprego que você disse?
Gaby Amarantos – Trabalho desde moleca, mas o único emprego que eu tive de carteira assinada foi no IASEP, um órgão público. [n.e. Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Pará] Eu marcava consulta para os velhinhos. Tinham uns que não tinham nem família, iam e não sabiam chegar em casa. Eu largava o balcão e ia deixá-los na parada do ônibus. Às vezes eles iam cedo e não tinham comida. Eles me apelidaram de “Madre Teresa dos velhinhos”, porque eu comprava lanche… Eu ganhava ovo de Páscoa. Era uma festa pra mim aquele emprego. Ficava vendo o descaso: depois que as pessoas ficam mais velhas parece que são abandonadas, mesmo tendo família. Eu cuido muito da minha mãe. Meu pai ainda tá muito inteirão, garotão, negão. Parece que é meu irmão. Tenho muito medo de perdê-los. Eu já vi cada coisa: da pessoa ir, marcar uma consulta, tá doente e não ter dinheiro pra voltar pra casa. É um absurdo isso no Brasil!

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