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Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 3/14

Sentia uma energia cantando nas missas

Tacioli – Gaby, você falou de tudo que gostava. Muita coisa. Mas o que você não gostava de ouvir?
Gaby Amarantos – Eu não entendia o hard core ou quando ouvia aquele heavy metal. Quando eu era garota eu não entendia aquilo. Eu achava meio estranho. Era a única referencia que eu lembro que não conseguia entender. Hoje em dia eu adoro.
Julio de Paula – E MPB, Chico Buarque…
Gaby Amarantos – Ah, sim… Milton Nascimento, Djavan, Bethânia, Gal, Elis. Tudo isso. Inclusive comecei a cantar, depois que me expulsaram da igreja. Eu comecei a cantar na igreja. Quando fui cantar em barzinho cantava MPB: desde o pessoal do Clube da esquina a todos os mpbistas. Mas sempre que estava para acabar minha função, cantava uns breguinhas, cantava uns carimbós. Quando via, o pessoal já estava arredando a mesa pra dançar. Então aquela coisa intimista de eu estar cantando “Como os nossos pais” e, (de repente) virava uma fulhanga. Tudo mundo já tava dançando e bebendo. Eu falava: “Acho que meu caminho é por aqui”. Aí comecei a querer fazer um trabalho com musica eletrônica, que na época era novidade… O tecnobrega já existia tinha um ano, mas era super marginalizado e gravado com qualidade quase zero. Foi quando pensei: “Isso é muito legal se a gente fizer um trabalho com essa música misturando com algumas coisas”. Eu também ouvia muito mid back, house. Sempre gostei muito de música eletrônica. Mas se você ouvisse as coisas que a gente ouvia lá… Lembro que tinha um vinil verde de uma banda que eu não lembro o nome. Era uma música, não sei falar inglês, gente, tipo tinha um grave, já tinha uma coisa eletrônica… Tinha esse vinil e era verde. Eu falava “Caramba, quero esse vinil verde”, porque eu achava o vinil legal. Pet Shop Boys foi minha primeira referência de música eletrônica. Já ouvindo aquelas coisas de música eletrônica e que era muito legal. Foi quando a gente começou a misturar com o brega mas já percebendo na MPB.

Julio de Paula – Era o começo mesmo
Gaby Amarantos – Era o comecinho. O próprio Nilson que você citou, o Pedrinho Callado, uma galera de MPB já me via cantando nos bares. E tinha aquelas coisas de festival. Vamos inscrever essa menina em festival, ela tem a voz boa!“ Queriam me encaminhar pra esse lado. Quando eles viram que eu estava fazendo um trabalho com tecnobrega, disseram: Você é louca! Você tá com uma carreira brilhante pra cantar MPB, para virar uma cantora mostrando as raízes, como Fafá fez, Leila Pinheiro. E você vai cantar tecnobrega?”. Tenho amigos do meio que ficaram de mal comigo quando fui cantar tecnobrega. “O que você tá fazendo da sua vida? Você tá maluca!”
Dafne Sampaio – Você tinha quantos anos essa virada ai?
Gaby Amarantos – Acho que nessa virada eu estava com 20, 21 anos.
Dafne Sampaio – Na adolescência os sons vão se complementando, vão se juntando. A família é religiosa?
Gaby Amarantos – Sim.
Dafne Sampaio – Você chegou na igreja pela sua família?
Gaby Amarantos – Pela minha mãe.
Julio de Paula – Conta isso de cantar na igreja. Como foi?
Gaby Amarantos – É assim: o pai é o boêmio, cachaceiro, com os tios e o grupo de samba. E eu queria cantar no samba. Já ia garotinha, eu lembro muito: calcinha, não tinha nem peito, uns sete ou oito anos, a roda de samba e eu cantando com eles. E minha mãe com raiva porque eu tava lá no meio dos machos cantando samba. Aí minha mãe me levava pra igreja. E indo pra igreja, ouvindo aquela coisa – a gente tinha um grupo de canto –, eu falava: “Pô, legal!”. Eu sempre gostei de estar na frente. Se tinha peça na escola, eu queria ser a atriz principal. Fui Clara Nunes quando eu era criança, porque eu tinha um cabelo cheio que nem o da Clara e eu sabia dançar “Morena de Angola”. Então eu fui a Clara Nunes, teve uma encenação. Eu queria aparecer em tudo. Eu tinha uma fixação por aparecer. Eu ia pra igreja e aquilo era uma forma das pessoas estarem me vendo, mas não porque eu queria ser cantora; eu não sabia que poderia ser cantora. Eu tinha mais uma liga de atriz. Cheguei até a fazer teatro, porque eu queria ser atriz. A música veio me pegar depois da igreja. Ia garotinha (à igreja) desde os oitos anos. Adolescente (eu) era dos movimentos jovens. Comecei a cantar na igreja com 15 (anos). Entre 15, 16, 17 (anos) eu comecei a formar um público nas missas. Igreja católica. “Que horário você vai cantar?” “Vou cantar na missa das sete.” “Ah, então é nessa missa que eu vou.” As pessoas já estavam indo para querer me ver cantar. E eu já estava lá. Nessa época, a igreja era super contra o movimento carismático. Você tinha que cantar lá, quietinha e…
Tacioli – Pelo jeito, você fez todo o percurso (católico): catecismo, crisma…
Gaby Amarantos – Sim. Eu era um prodígio! Com oito anos eu tinha feito a primeira eucaristia. Eu já era catequista com 13 anos. Dava aula para crianças na primeira eucaristia. Já era engajada, era do movimento jovem, já tinha uma coisa politica na Igreja; já queria fazer uma revolução. Já garotinha, 14, 15 (anos), eu já era dos grupos, não cantava, mas eu já era muito conhecida da galera da igreja. Num domingo de Páscoa teve um concurso, um karaokê. “Vamos escolher uma pessoa de cada grupo”. Foi quando comecei a cantar. “Vamos escolher uma pessoa de cada grupo pra cantar. A Gaby vai pela catequese!” Porque eu ia ganhar, minha torcida era grande, eu era popular na igreja. Então, eu ganhei pela popularidade, não porque eu tivesse cantado bem. Pra mim era uma brincadeira. Eu lembro que ganhei uma caixa de bombom que todo mundo dividiu e não me deu nenhum. Reclamo disso até hoje. E cada pessoa tinha que escolher uma música. E o pessoal do grupo: “Pô, você tem uma voz legal, não quer vir cantar nas missas com a gente?”. Eles que me convidaram. “Ah, legal. Vamos!”. Pra mim era tudo festa. E comecei a perceber que tinha alguma coisa ali que me chamava. Toda música que eu ouvi na infância – de Rosana cantando “Como uma deusa” até Billie (Holiday) e Ella (Fitzgerald) – tudo isso já me movia, mas eu não sabia nem o que eu queria ser. Eu queria fazer Geografia, queria ser psicóloga, mas (também) eu queria ser advogada, queria ser atriz. Queria ser bancária porque meu pai trabalhava em banco. Eu queria dar aula pra criança… Eu queria ser tudo, mas eu não sabia o que eu queria. A música foi o que eu realmente (disse): “É isso aqui que eu quero”. Foi onde eu me encontrei. E nessa coisa do karaokê eu ganhei o concurso. Foi num domingo. No próximo domingo eu já estava cantando na missa, já tinham me convidado. Aí comecei a cantar na missa, e já cantava assim: “Vamos lá, galera, levanta a mão! Vamos louvar!”. O pessoal de lá não gostou muito, porque eu estava tirando a atenção (da missa), de formar um público. As pessoas iam à missa pra me ver cantar e eu querendo ser a cantora de axé na igreja. Aí o pessoal fez uma reunião e “Vamos tirar essa mulher!”.
Mauricio Pereira – Já tinha o Padre Marcelo?
Gaby Amarantos – Ainda não.
Julio de Paula – Se fosse hoje já iam gravar o seu CD.
Gaby Amarantos – Já ia ser a nova cantora da igreja e tal. Seria isso.
Dafne Sampaio – Pastora Gaby.
Gaby Amarantos – É, não seria pastora, mas seria uma das meninas católicas…
Julio de Paula – Tem várias meninas…
Gaby Amarantos – Eliana (Ribeiro)… Saco um pouco porque minha mãe é Canção Nova o dia inteiro. [n.e. A Comunidade Canção Nova é uma comunidade carismática católica e mantém uma emissora de TV e rádios de mesmo nome] Hoje eu liguei pra ela e ela falou que estava feliz porque meu filho, que tem dois anos de idade, conseguiu falar “Olha, o Papa”. Isso pra ela é o céu: meu filho reconhecer o Papa na TV. Ela estava no céu!
Tacioli – Mas sua mãe ainda torce pela salvação?
Gaby Amarantos – Não, imagina.
Tacioli – Quero a Gaby cantando na igreja…
Gaby Amarantos – Na verdade ela sempre soube que eu ia dar pra alguma coisa que fosse das artes. Não sabia o quê. Ela falou: “Só quero que você pelo menos termine seus estudos, termine o segundo grau. Depois você faz o que quiser!”. Nem terminar os estudos eu terminei, porque quando comecei a cantar na igreja e chegaram num domingo de Páscoa e ”Olha, a gente fez uma reunião e decidiu que é melhor (você se afastar). Você vai fazer vestibular esse ano, né?”. Eu estava no último ano. “Você não vai trabalhar? Achamos que você não vai mais ter tempo. A gente está com um coordenador novo e vamos ensaiar todos os dias agora. Então, a gente acha melhor você se afastar do grupo.” Eu falei “Tá, cara. Fala que está me expulsando e que quer que eu saia. Tudo bem. Eu vou entender”. Nesse mesmo dia eu fui encontrar uma amiga. “Poxa, me expulsaram da igreja!” “Vamos ali tomar um sorvete e (você) me conta essa história.” Quando eu cheguei no barzinho tinha um rapaz tocando violão que me conhecia da igreja. Ele me mandou um bilhetinho: “Quer dar uma canja?”. Eu olhei e falei “Tá!”. Nessa época a Marisa Monte estava estourada com aquele CD Rosa. [n.e. Referência ao disco da cantora carioca Verde anil amarelo cor de rosa carvão, de 1994] Eu ouvia muito esse CD Rosa, ouvia muito Bethânia. E como eu estava fazendo teatro, a galera ouvia muito Caetano, ouvia muito MPB, e eu estava nessa liga de ficar ouvindo MPB. Assim meio hippie! Estava nessas… “Tá, então vou cantar uma música da Marisa Monte.” Comecei… “Com vocês, a grande cantora paraense Gaby!” “Gente, o que está acontecendo?!” Juro a vocês, voltei de um transe, já estava cantando um carimbó e tinha gente arrendando a cadeira e dançando. Foi quando eu fui entender o que estava acontecendo. Quando acabou ele, (disse): “Fica aqui pra gente tomar uma sopa”. Esse lugar tinha tradição de ter sopas. “Eu te levo em casa. Olha, eu canto de terça a domingo e pago 30 reais por dia pra você ficar cantando comigo. Tá afim?”. “Bora!” Já havima me expulsado da igreja mesmo. Foi quando eu comecei a cantar na noite.
Dafne Sampaio – Na igreja você cantava músicas da igreja?
Gaby Amarantos – Músicas da igreja.
Tacioli – Você lembra de alguma, Gaby?
Gaby Amarantos – Lembro. Muitas.
Tacioli – Canta um pedacinho.
Gaby Amarantos – [canta] “Segura na mão de Deus / Segura na mão de Deus.” Essas coisas… Todos os outros ritos, ato penitencial… Acabava a missa, a gente pegava os instrumentos e levava pra pracinha. Aí eu já queria cantar a bagaça para o povo dançar. A pracinha estava ficando agitada; por isso as pessoas queriam ir no meu horário da missa, porque sabiam que depois ia ter a bagunça lá na pracinha.
Tacioli – A micareta.
Gaby Amarantos – A micareta, mas eu cantava brega mesmo, cantava lambada…
Dafne Sampaio – Quanto tempo durou essa fase da igreja?
Gaby Amarantos – Dois anos.
Dafne Sampaio – Dois anos?
Gaby Amarantos – Dois anos.
Tacioli – Você compôs alguma coisa nesse período?
Gaby Amarantos – Cheguei a fazer. (Foi) minha primeira composição, mas não foi uma música para a igreja. Tem uma música que eu fiz para os meus amigos da igreja. Até cantei lá no festival. Foi a primeira, nem lembrava mais disso.
Tacioli – E que música [?]
Gaby Amarantos – Eu lembro de um pedacinho. Era um plágio de uma música das Paquitas. Eu confesso que era um plágio das Paquitas! [risos]
Julio de Paula – Era um sampler.
Gaby Amarantos – Era um sampler. Já se fazia, mas não em Belém. Era assim: “Quero expressar a você a minha amizade com essa canção”. Vou procurar essa música. Fiz para os meus amigos da igreja, porque eu já tinha planejado a minha vida: “Vou fazer uma faculdade, vou trabalhar e vou ficar cantando aqui na igreja pra sempre”. Aquilo pra mim era a glória! Eu sentia uma energia cantando nas missas que eu nunca senti em show nenhum. Eu era muito feliz! Se não tivesse rolado essa parada de terem me expulsado (do grupo da igreja), talvez eu não fosse o que eu sou hoje. Então, eu agradeço muito que isso tenha acontecido.

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