gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 2/14

Amo o Frankito!

Tacioli – Gaby, se você puder falar um pouquinho como a música passava na sua casa quando você era menina. O que você lembra disso?
Mauricio Pereira – Em que ano você nasceu?
Gaby Amarantos – 78. Eu sou nascida e criada num bairro que se chama Jurunas, que é o maior bairro de periferia de Belém. Eu nasci no meio em que tudo dizia não pra mim. Mas, fora isso, o Jurunas tem, paralelamente, é uma coisa cultural muito forte, porque quase todas as aparelhagens são sediadas no Jurunas, os artistas de brega, os grupos folclóricos, os movimentos de quadrilha, de boi, a primeira escola de samba, que é a terceira mais velha do Brasil, é do Jurunas. Então, a música fala a todo o momento. As primeiras rádios de poste, as primeiras rádios piratas, tudo que não presta vem do Jurunas. [risos] Tudo que não presta vem do Jurunas… E é um lugar assim: “Você vai no Jurunas? Cuidado, não leva relógio, cuidado!”. Tem essas piadinhas de mau gosto. A minha família é de sambistas e quando eu cheguei da maternidade o meu pai conta que já tinha um samba me esperando pra comemorar o mijo, não sei se vocês usam essa expressão aqui, que é quando a criança nasce e se faz uma festa para recebê-la. O jurunês é muito festeiro. E com as aparelhagens de manhã, eu já acordava com um carro-som: “É hoje, festa não-sei-onde!”. É festa em todo o lugar. Qualquer barzinho vira uma (festa). É um bairro que me trouxe toda essa cultura musical. E nos fundos de casa os vizinhos tinham uma banda de rock e eles escutavam muito desde rock nacional até Black Sabbath e Led Zeppelin. Então, eu escutava rock no fundo de casa; na frente de casa tinha um bar, que chamava Bar do Brega, que tinha uma aparelhagenzinha. Toda a minha influência de brega foi do Bar do Brega da frente de casa. Desde os artistas de lá, porque tinha uma cena paralela a Reginaldo Rossi, ao menino da pílula… Odair (José)… Até cantei com ele no Rec-Beat, o menino da pílula.
Dafne Sampaio – O menino da pílula é bom… [risos] [n.e. Referência ao clássico popular “Uma vida só (Pare de tomar a pílula)”, de Odair José e Ana Maria, sucesso de 1973]
Gaby Amarantos – Eu digo “o menino da pílula”. Diana, que era a mulher dele, e tinha uma cena paralela: Francis Dalva, Juca Medalha, Teddy Max, que até chegou a vir para São Paulo. Eu cresci ouvindo Pinduca, guitarradas, e ainda tinha as rádios…
Natale – Frankito Lopes você ouviu?
Gaby Amarantos – Frankito! Sou fã! Tenho todos os vinis do Frankito. Sou mega fã.
Natale – Eu cheguei a trabalhar com o Frankito.
Gaby Amarantos – Sério?
Natale – Na Atração. [n.e. O violonista, compositor e gestor cultural Edson Natale foi diretor artístico e de produção da gravadora paulistana Atração Fonográfica. Atualmente é o Gerente do Núcleo de Música do Itaú Cultural]
Gaby Amarantos – Eu sou apaixonada, eu amo o Frankito. Amo!

Morto em 2008, o matogrossensse Frankito Lopes fez carreira no Pará, onde é referência para a música brega. Foto: reprodução

Natale – Ele é muito louco.
Gaby Amarantos – Muito louco! E tinha as rádios que pegava a frequência do Suriname, da Guiana. E a gente pegava todas (as rádios)… Por isso a palavra “calypso”, que vem desses ritmos de lá. Colocaram esse nome até pra tirar o brega; na verdade, calypso e brega é a mesma coisa. Só mudaram o nome. O Chimbinha tem até uma pegada de guitarrada, que é diferente, que caracterizou o estilo que eles chamaram de calypso. E o meu avô trabalhava numa casa que era de uma família rica de lá. Deram pra ele uma caixa, um baú cheio de vinis. Tinha Ella Fitzgerald, Billie Holiday… E eu ficava ouvindo também os discos de jazz porque sempre gostei, desde garota. Clara Nunes, Beth Carvalho, tudo de samba. Pixinguinha, Noel até Martinho, Zeca Pagodinho, pagode. Cresci ouvindo tudo isso. Então, como minha mãe saia para trabalhar, a gente ficava em casa e eu que tinha que cuidar de dois irmãos. A gente ficava trancado em casa com a chave na tia do lado. A gente não ficava na rua. A nossa diversão era ficar ouvindo música o dia inteiro. E tinha aquele baú do meu avô, de vinil. A gente ficava ouvindo desde coisas de criança – Balão Mágico, Xuxa e tudo, até Noite Ilustrada, cantando alto. Aí fui perceber que eu tinha os agudinhos, porque eu conseguia cantar as músicas do Noite Ilustrada uma oitava acima. Fui começando ouvir que eu tinha uma voz, mas nunca tendo pretensão de ser cantora. E a nossa brincadeira era ficar ouvindo música, ficar brincando no meio da música. O Jurunas que me trouxe tudo isso.

Tags
Gaby Amarantos
de 14