gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 13/14

Quero apresentar a riqueza do Pará

Dafne Sampaio – Do ano passado pra cá que você está atingindo mais gente fora de Belém. Você tem algum receio de enfrentar um certo mal estar local? Algo como “A Gaby agora…”.
Max Eluard – Bateu asas, não é mais nossa.
Dafne Sampaio – É, a Gaby não é mais nossa
Mauricio Pereira – Como a Carmen Miranda quando foi aos Estados Unidos?
Dafne Sampaio – Isso, disseram que ela voltou paulistanizada. [risos] Tem algum receio disso?
Gaby Amarantos – Não! Eu sempre tive essa coisa de andar com a bandeira do Pará, vou com roupa com a bandeira do Pará, falo que eu sou do Pará. O Calypso faz isso, a Fafá faz isso, mas acho que faço de uma forma que eles (os paraenses) se sentem representados, não sei explicar como. Não tô dizendo que o que eu faço é melhor que o que os outros (fazem). Mas as pessoas (dizem), “Poxa, eu fico feliz que a Gaby tá indo. Tomara que ela vá, ela tem mais é que ir!”. Claro, tem os contras que são normais. Mas, por exemplo, o Twitter é uma ferramenta muito bacana, eu gosto por isso, por estar ali interagindo e tenho muitos seguidores que são do meu estado. As pessoas (escrevem): “A gente fica feliz quando te vê num programa, quando te vê numa entrevista. Fulano de tal estado me ligou falando que sua música estava tocando. Ah! Você tocou na posse!”. Nossa, quando eu toquei na posse, fui homenageada pela Ordem dos Advogados do Brasil de Belém com uma condecoração, porque eu tinha cantado na posse da Presidente e isso era uma coisa histórica. Então, já perceberam que a gente precisa mostrar essa cena.
Julio de Paula – Você cantou de roupa vermelha.
Gaby Amarantos – Cantei de roupa bordô.
Julio de Paula – É, bordô. [risos]
Gaby Amarantos – Não era vermelha, era bordô.
Julio de Paula – Vi num vídeo que estava meio ruim.
Gaby Amarantos – Era bordô.
Max Eluard – Sem contar que a Fafá cantou e imortalizou o Hino Nacional na morte do Tancredo.
Gaby Amarantos – Sim, sim. Cantoras paraenses fazendo a história.
Julio de Paula – Você falou um pouco como o resto do mundo te vê e tal. Acho que com bons olhos ou bons ouvidos, porque as pessoas não têm justamente o preconceito que a gente tem aqui. Até isso ficou bem claro naquela compilação Oi. Você tá lá, né?
Gaby Amarantos – Do Lewis. Tô na do Lewis e tô numa do (DJ) João Brasil. A gente gravou “Águas de março” em tecnobrega. [n.e. Oi! A nova música brasileira é uma compilação lançada em 2011pela gravadora independente inglesa Mais um Discos, do produtor Lewis Robinson, reunindo nomes como o de Instituto, Curumin, BaianaSystem, Burro Morto, Maderito e Gaby Amarantos]
Dafne Sampaio – Fiquei sabendo dessa história.
Gaby Amarantos – Será lançado agora segunda que vem, mas as faixas já estão disponíveis. [n.e. Disco Viagem ao mundo da Lua, produzido pelo DJ João Brasil, em que o DJ carioca Marcelinho da Lua remixa 13 faixas, incluindo “Águas de março”, com Gaby Amarantos]
Julio de Paula – E aí, você já tem algum retorno de fora?
Gaby Amarantos – A gente tá traçando um caminho pra gringa porque os caras têm uma mente mais aberta. E já está se falando bastante. Onde tem chegado (a música) tem chamado a atenção. Eu vejo um futuro muito bacana pro tecnobrega na gringa, até de ir e causar um rebuliço pra voltar com mais respeito para o Brasil. Aconteceu isso no Pará. Se eu sou respeitada lá como eu sou foi porque saí, conquistei programas, e aí eu voltei: “A Gaby agora…”. Então, acho que com o Brasil também vai acontecer isso. A gente está com conexão com gente de moda de Londres, estão querendo colocar música na pista, já estão querendo que eu vá tocar, abrir desfile de não-sei-quem e fazer shows em boates. E vai indo, vai indo, e quando vai ver, a coisa tá hypada. E as pessoas “Pô, aquela menina que era a Beyoncé está tocando na Europa”. Isso é normal acontecer e espero que aconteça mesmo. Estou vendo que a coisa está caminhando pra isso. A gente já tá se preparando. Tem umas sementes bacanas plantadas lá fora.
Julio de Paula – Outra pergunta que não tem nada a ver com isso. Você falou lá de ritmos. Você chegou a ver os Pássaros?
Gaby Amarantos – Sim, claro.
Julio de Paula – Cantou?
Gaby Amarantos – Eu já dancei Pássaros. Antes de cantar, eu tinha quadrilha junina e um grupo folclórico. Então, no grupo, a gente dançava todos os ritmos, desde os Pássaros ao Boi-Bumbá. Tem o Boi de Belém, tem o Boi de Parintins, tem o Boi do Maranhão. Sempre fui pesquisadora, nesse ponto eu estudei muito os ritmos paraenses, porque eu era educadora e dava aula sobre ritmos.
Julio de Paula – As músicas são lindas, né?
Gaby Amarantos – São lindas. E é uma cultura tão desvalorizada lá, tá bem abandonada. Eu pretendo pegar um Pássaro e gravar com tecnobrega, com uma batida. São esses resgates. Não posso chegar de uma vez. Eu tenho que ir aos poucos, chegando, porque o que eu quero apresentar para o Brasil é a riqueza que o Pará tem. “Pô, caramba, que legal que isso existe!”
Julio de Paula – São umas melodias super trabalhadas.
Gaby Amarantos – É lindo aquilo! Não sei nem se tem vídeo. Vou ver se tem registro até pra colocar…
Julio de Paula – Nunca achei.
Gaby Amarantos – Acho que não tem nada de registro.
Julio de Paula – Eu tenho duas gravações somente, duas canções.
Gaby Amarantos – Que é um absurdo! Você viu os bonequinhos cabeçudos?
Julio de Paula – Nunca vi nada, somente esses dois registros de áudio.
Gaby Amarantos – No Terruá eu vou avisar vocês. Acredito que vá rolar e também é lindo.
Dafne Sampaio – Vai ter Terruá em maio?
Gaby Amarantos – Vai ter Terruá em junho.
Dafne Sampaio – Junho.
Gaby Amarantos – Vai ser outra equipe. Eu fiz o primeiro e agora vai sair o DVD do primeiro junto com o disco. O Miranda quer lançar os dois produtos. E vai ter o Terruá 2, que vai ser em junho. Vai ser lindo!
Tacioli – Gaby, estamos nos finalmentes. Da mesma forma que você traçou uma linha evolutiva do brega, você consegueria traçar uma linha evolutiva do seu figurino?
Gaby Amarantos – Legal!
Tacioli – Da (época da) MPB, do Chibantes… Já tinha um figurino ali ou em que momento esse figurino surge? E como ele chega no que ele é hoje, em que desperta atenção para eventos de moda?
Gaby Amarantos – Bom, a MPB foi um processo pra eu avaliar: eu chamava atenção pela voz, cantava, mas as pessoas estavam ali no barzinho, me aplaudiam, mas não paravam pra me olhar. E eu queria que as pessoas ficassem me olhando. [risos] Eu usava roupas normais, mas pessoas não me olhavam. Aí comecei a sair da MPB. Já usava uns acessórios, umas coisas, mas não era um figurino…
Tacioli – Quais acessórios?
Gaby Amarantos – Se uma cantora normal usava uma pulseira, eu queria colocar três. Se usava uma flor no cabelo, eu queria colocar quatro, eu queria botar um jardim na cabeça. Mas era um desperdício fazer aquilo, então foi por isso que eu comecei ir pro palco. Eu não tinha grana para comprar a primeira bota. Aí começaram os meus figurinos. Peguei um couro de camurça, cortei, pedi pra costurarem o zíper e eu fiz minha primeira bota. Se eu tinha um vestido, eu ia e colava, customizava, quebrava vidro. Eu já fiz roupa com resto de carro, mas coisas que eu tinha que fazer porque não tinha quem fizesse, não tinham profissionais em Belém que fizessem esse processo. Aí veio a Tecno Show e fui podendo criar mais. Aí já tinha uma costureira que me ajudava e o figurino foi crescendo. A Tecno Show acabou e eu sou só Gaby Amarantos. De um ano pra cá, quando veio esse outro boom, eu comecei a ter condições de ter peças de estilistas e de chamar estilistas pra trocar ideia comigo, como Sandra Machado e Bruno Muniz. Hoje em dia eu canto com uma peça do Valério Araújo na cabeça, que é o estilista da Cláudia Leitte, da Daniela Mercury. Só não faz pra Ivete (Sangalo) porque tem a rivalidade das duas. [risos] Já me consegue roupa do Reinaldo Lourenço. André Lima já tuita comigo e quer fazer roupa pra mim. Hoje já tô chegando, mas não quero perder a minha essência de ter a coisa com a minha cara, de ter uma peça (minha). Eu sempre desenhei, desde criança. Eu tinha um caderno de desenho que era um caderno de estilista. Tinha um monte de roupa que eu já desenhava. Gosto muito de moda. Ontem um pessoal de um site de moda que foi fazer uma matéria comigo disse que eu sou a única cantora fashionista do Brasil. E falando sobre it girls e tal… [risos]
Dafne Sampaio – Ai, São Paulo!
Gaby Amarantos – Normal, né?! E sabe o que é legal? As pessoas puxam a pergunta e pensam que você não sabe. Acho que eu surpreendo um pouco por isso. “O que é it girl, Gaby?”. “Eu sei. É isso, isso e isso!” “Olha, ela sabe. Porra, pensei que ela não ia saber responder.” É normal! O Pedro (Alexandre Sanches) até brincou: na Virada (Cultural) me parece que eu vou estar no palco do Nordeste. Ele falou: “É bem São Paulo isso. Tem o palco do Norte, mas te colocam no palco do Nordeste, porque eles são burros e não sabem que o Norte…”. O Pedro Alexandre Sanches é quem fica mais revoltado. É bacana isso, mas eu sempre busquei ter a minha identidade. Não vou usar nada que Lady Gaga usa. É muito legal o que ela usa, mas quero usar o que ela faz. Quero usar um figurino do Valério, mas algo que tenha a ver comigo. Sempre tem um toquezinho meu. “Vamos tirar isso, vamos colocar aquilo!” Também gosto de costurar, de fazer as coisas.
Tacioli – Mas teve algum figurino dessa fase “Gaby costureira” não deu certo?
Gaby Amarantos – Tem umas trasheiras horrores lá em casa. Tem um baú! [risos]
Tacioli – Você foi dançar e…
Gaby Amarantos – Caiu? Já!
Julio de Paula – Não, foi tudo muito bem costurado! [risos]
Gaby Amarantos – De figurino que caiu, não, mas eu já caí muito no palco. Digo que se eu não cair no palco, o show não foi legal.
Mauricio Pereira – Salto muito alto, né?
Gaby Amarantos – Não, eu me libertei do salto alto agora. Não uso mais. Agora tô usando um outro estilo de sapato que é muito confortável e tô adorando. (Salto alto) não é saúde, ninguém merece usar aquele salto.
Natale – E nessa expansão dos negócios, você pensa em um dia ter uma grife?
Gaby Amarantos – Eu ia achar legal, mas eu quero me concentrar muito na música. Tive uma fase primeira em que estourei. Fui no Faustão duas vezes, em 2003 e agora. Então, na primeira, quando a coisa bombou lá e comecei a ganhar dinheiro, eu perdi tudo porque eu nunca tinha ganhado grana antes e comecei a gastar dinheiro com coisa que não devia, comecei a querer fazer e investir em não-sei-o-quê e acabei com o dinheiro e fiquei numa fase ruim pra caramba. Agora estou tendo a oportunidade de me capitalizar. Sei que tenho que investir muito na minha carreira e não tenho empresário com grana pra fazer isso, então eu que tenho que investir. E sei que preciso de um monte de coisas. Então, tô muito focada na carreira. Talvez, daqui a algum tempo, quem sabe… Já estou com um pessoal de uma grife de calçados que queria fazer um sapato com LEDs para comercializar… [risos] Um menino daqui me procurou pra fazer uma grife de roupas com luzes, fazer umas coisas com o cinto de castidade que eu uso com um cadeado na calcinha. “Não, vamos devagar. Deixa primeiro a música realmente acontecer…” E se tiver que rolar mais na frente, eu vou curtir pra caramba também.
Max Eluard – E o que é “realmente acontecer”, Gaby?
Gaby Amarantos – É o meu disco ficar pronto e, quando eu for tocar num show, que eu cante um hit que seja um hit meu, a música da Gaby. Que as pessoas me conheçam pela minha obra, que seja grande, que seja única, que eu seja uma hitmaker, mas que seja (a Gaby). Que eu tenha uma música que as pessoas saibam em qualquer lugar que eu vá, que pelo menos no meu país as pessoas conheçam o meu trabalho. E o meu trabalho não pela “Beyoncé do Pará”, mas que me conheçam pelo meu disco, pelo meu show. Que me avaliem depois de me assistirem. “Dá uma chance pra eu mostrar primeiro? Aí, depois, se vocês não gostarem, tudo bem, eu vou entender, mas deixa eu mostrar.” Quero fazer com que as pessoas entendam que o Norte existe lá no mapa, que não é o Nordeste. E que eu sou do Pará, que eu não sou da Paraíba. E que lá tem essa cena da aparelhagem com vários artistas. Que as pessoas olhem mais para cima e que percebam…
Natale – Essa ignorância geográfica é avassaladora.
Gaby Amarantos – Isso é muito complicado. E é uma coisa tão simples, né?

Tags
Gaby Amarantos
de 14