gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 12/14

Religião é uma coisa, arte é outra

Tacioli – Você disse que o Rec-Beat foi um capítulo importante. O que essa exposição afetou sua vida cotidiana?
Gaby Amarantos – Eu tive o Davi. Quando fui cantar no Rec-Beat, o Davi estava com quatro meses, eu estava recém-parida. Estava numa fase deprê, não queria mais, estava pensando em largar o tecnobrega e ficar cantando em barzinho, estava pensando em voltar a estudar, porque esse negócio de música não tava dando. Isso antes de eu ter o Davi. Aí, de repente, o Davi nasce. E Davi foi o sol que trouxe tudo, trouxe toda a sorte, toda a vibe positiva pra essa fase nova. E esse lugar que estou almejando chegar – não quero muito, somente quero esse reconhecimento por esse movimento porque ele merece. Eu represento isso, mas por trás de mim tem dezenas de artistas que vêm trampando por isso. Então, não quero ser a rainha da cocada preta. O Miranda fala: “Tu és a ponta da lança. Tu és a responsável”. Me conscientiza muito pra não ter estrelismo, pra trazer comigo essa cena para que ela possa ser duradoura. E fazer um trabalho social no meu bairro, que precisa muito, que é uma coisa que eu preciso fazer…
Natale – Nesse sentido você se espelha um pouco no trabalho do MV Bill?
Gaby Amarantos – Ia falar do MV Bill agora, nesse momento.
Natale – É um modelo político?
Gaby Amarantos – É muito do que eu quero fazer, mas investimento em Belém pra qualquer coisa é praticamente zero. Apoio de governo é muito mais difícil; aqui ainda que se tem essa coisa de ter alguma ajuda até por lei, que esses caras já sabem como fazer, mas a gente tá caminhando. Eu sou uma artista que se posiciona, boto a boca no trombone. Quando tenho que reclamar, vou e reclamo. Sempre que tem alguma polêmica me chamam porque sabem que eu vou falar. Tento não me posicionar muito politicamente, que foi uma coisa que eu fiz da última vez e vi que não é legal, justamente pra poder fazer um trabalho social. Não quero ser política, não quero fazer nada, só quero ajudar um pouco o lugar de onde eu vim. E, terminando de responder aquilo que você perguntou ainda agora, eu vou cantar nessas festinhas alternativas e tiro sarro. “É engraçado! Vocês não gostavam de tecnobrega e agora tão tudo tremendo com o tecnobrega, né?”. Eu fico tirando uns sarros quando participo dessas festinhas porque eu gosto de participar e sou até mais exigente do que se eu estivesse em um outro evento. Até dou uma de estrela nessas horas e peço um monte de coisa somente pra tirar sarro dos caras e para respeitarem a coisa. [risos]
Max Eluard – E é engraçado que você faz isso e eles te respeitam mais, né?
Gaby Amarantos – Sim, respeitam mais. Ontem o menino falou, “Pô, a galera de uma festa tal quer te levar, mas eles estão juntando grana porque dizem que seu cachê tá caro”. “É pra eles juntarem grana mesmo!”
Max Eluard – Gastar a mesada do papai.
Gaby Amarantos – É pra juntarem a mesadinha, trabalharem pra pagar o meu cachê. É engraçado essa coisa. E eu tiro sarro, mas eu tiro um sarro porque é bacana que isso esteja acontecendo mesmo que seja dessa forma. O.K., ótimo, o importante é que a música esteja chegando e que eu chegue lá e mostre pra eles que não era um bicho de sete cabeças como estavam pensando.
Max Eluard – Mais uma pergunta sobre preconceito. Você falou dos seus ídolos, dos seus mestres, das suas referências, e são todos homens, como aqui, com seis homens te entrevistando. Como você lida (com isso)? Foi uma questão pra você em algum momento?
Gaby Amarantos – Não. Sempre tem cinco homens, mas tem uma mulher, como a Dona Onete, que é a diva da música paraense. Essa coisa de diva não sou eu; diva é a Dona Onete! Tem a Francis Dalva, uma cantora que teve um papel importantíssimo, que me ligou semanas atrás dizendo que estava passando dificuldades. Pensei, “A gente precisa de um Retiro dos Artistas em Belém”. Eu sempre fui a Gaby no meio da macharada, sempre tive amigos homens. Os amigos que confio são sempre homens. Tenho amigas também. E sempre tem aquela coisa de você (homem) estar conversando um assunto e, como tem uma mulher (na conversa), você não quer falar.“Ah, na frente da Gaby a gente fala!” Sempre tive essa relação com os homens. “A Gaby é da galera!” E eu digo, “Vocês tão pensando que eu sou macho também é?”, mas eu sempre tive essa relação com os meninos desde a época da igreja. O meu grupinho era eu, mais uma menina e tudo homem. O meu filho é homem, ainda bem, eu queria que fosse homem, não que eu não tenha essa relação também com mulher, mas os meus amigos de confiança são mais homens.
Tacioli – O nome Davi também vem da influência da…
Gaby Amarantos – Da Bíblia.
Tacioli – Hoje, como essa formação religiosa se manifesta no seu trabalho artístico? Ela te limita em algum aspecto quando você vai compor alguma coisa ou fazer uma dança?
Gaby Amarantos – Ontem eu entrei no Sesc de peito de fora. Pra mim é arte. Religião é uma coisa e arte é outra. Isso é um esclarecimento mais recente, porque se fosse na época da igreja eu não faria, ficaria neurada de fazer. Mas, se tiver que colocar um palavrão em uma música… Isso não quer dizer nada, porque tem muita gente que nasce em família de gente (religiosa) e vira doidão. O Dani fala uma coisa engraçada. Eu falo muito do Daniel, que é um amigo daqui e a gente tem uma história parecida.
Tacioli – Daniel Sampaio?
Gaby Amarantos – Daniel Peixoto. Ele fala uma coisa engraçada: “A Gaby é a única artista que eu conheço que é doida de pedra, maluca, e não cheira e não fuma nada”. Não que eu seja careta, porque eu já falei, “Dani, eu não curto mesmo!”. Não estou aqui pra dizer, “Não às drogas, porque eu abomino…”. Não, cada um com a sua onda, mas porque eu não curto, eu não preciso. Se eu cheirar alguma coisa, não sei o que eu vou fazer mais, porque eu já sou maluca no palco, faço umas coisas que nem acredito. E totalmente sóbria. Talvez a minha formação tenha ajudado: crack do lado de casa, boca, tudo na rua de casa, e eu não enveredei por essa onda porque não gosto. Mas, claro, eu tenho uma fé imensa. Sou uma pessoa que reza, sou uma pessoa que vai à igreja, que gosta de ficar de joelhos. Tenho uma relação mesmo com o Pai. Deus é uma palavra que eu não gosto, tem vários deuses, é uma palavra banalizada. Pra mim é um Pai e eu tenho uma relação de estar ali sempre, “Ai, Pai, socorro!”. Eu sou muito conectada, 24 horas, eu tô aqui pensando, mas tô pensando sempre em Deus. Eu vejo ele me observando. E eu gosto de ter essa relação e gosto de assumir. Agora, não vou para o palco cantar de peito de fora com strass na periquita e ficar pregando, falando de Deus. [risos] Pra tudo tem o seu momento. Se eu tiver que falar em algum momento, tudo bem, mas a hora que eu tô no palco é a hora da minha piração. Não vou ali pra pregar! Vou ali pra cantar pro povo pirar o cabeção.
Tacioli – Você não voltou mais pra igreja depois do sucesso?
Gaby Amarantos – Para cantar, não, mas a igreja eu frequento até hoje. A igreja é do lado de casa, no Jurunas. Eu vou a pé pra igreja. Sempre vou às missas! O padre já nem me olha feio porque a igreja ficou popular. Muita gente já foi fazer entrevista lá, matéria pra ver o lugar em que eu nasci. Hoje ele até sorri, já me abraça, “Gaby, vem aqui. Ela é a nossa estrela da igreja”.
Dafne Sampaio – Mudando um pouquinho de assunto…
Tacioli – A gente tem mais uns dez minutos.

Tags
Gaby Amarantos
de 14