gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 11/14

Meu apelido lá é Xuxa dos Jurunas

[O fotógrafo Renato Nascimento se despede]

Gaby Amarantos – Pronto, gente! Agora tá carregando. O fotógrafo já fez foto bastante, já tá liberado. Eu até vinha com um figurino…
Tacioli – Qual figurino?
Gaby Amarantos – Eu vinha com um figurino com a cabeça, com um olho de pirata para falar de pirataria. Pensei, “Não, vai ser muito chegar lá (assim)!”.
Dafne Sampaio – Achei legal a sua camiseta.
Gaby Amarantos – É da Kumbia Queers.
Dafne Sampaio – É da Kumbia Queers? Ah, da Kumbia Queers, agora vi!
Gaby Amarantos – Eu as conheci no Rec-Beat esse ano.
Dafne Sampaio – Ah, mas você não foi tocar…
Gaby Amarantos – Não, fui somente pra curtir o festival, e elas cantaram no sábado, foi incrível. Já ficamos amigas, elas vão pra Belém em junho e vamos fazer um show juntas lá.
Max Eluard – Gaby, voltando pra história que a gente estava falando do funk e do tecnobrega, tem uma outra manifestação sutil do preconceito, quase fofa, que é quando esses ritmos são adotados pela elite como uma coisa exótica. Aquelas festas de bacana, todo mundo dançando, indo até o chão e tal. Como você vê e se relaciona com isso, de você virar produto de consumo pra essa galera, mas como uma coisa exótica, quase engraçada?
Gaby Amarantos – Olha, isso é uma coisa que já acontece comigo há um tempo. É engraçado, estava pensando nisso quando você fez essa pergunta, mas de uma forma diferente. Tem (caso) quando um produtor, um músico ou alguém do meio musical fala que aquilo é legal, e todo mundo acha legal porque o cara falou que é legal, e tem umas festinhas moderninhas, alternativas, de uma galera que acha que aquilo é engraçado e quer tirar sarro daquilo. No início, quando vi essas manifestações, comecei a saber: “Ah, tá rolando uma festa assim em tal lugar. A festa ‘Quero não-sei-o-quê, a festa…”. Esse povo está aproveitando consumir uma coisa que eles consomem de uma forma que eles acham que é certa, mas em vez de ir pra festa de aparelhagem, fazem a sua festinha de aparelhagem aqui, restrita pra os amiguinhos.
Dafne Sampaio – Sem precisar se juntar com aquele povo…
Gaby Amarantos – … com aquele povo todo! Já tiveram alguns eventos… [ri] Às vezes eu fico pensando muito em mim, porque sou uma pessoa tímida no dia-a-dia. Eu sou calada, falo com poucas pessoas. Eu tô falando muito agora porque eu preciso, mas eu sou muito calada. [risos]
Dafne Sampaio – Porque estão me perguntando…
Gaby Amarantos – Aí eu subo no palco e eu faço o que eu fiz ontem. Ontem foi um show em que a performance “Caramba! Foi outra coisa que eu senti!”. Aí eu estava numa festa dessas, era uma festa gay. Em Belém eu sou a rainha do movimento gay. Me adotaram: em todas as paradas gay eu toco. É um outro público, que é uma outra coisa difícil pra mim, de entrar num público cult, que é underground, que é alternativo, um público gay, eu tenho um público infantil, eu tinha um programa infantil em Belém…
Tacioli – Você teve um programa?
Gaby Amarantos – Tenho um público infantil.
Natale – Você teve ou tem?
Gaby Amarantos – Eu tive. Meu apelido lá é Xuxa do Jurunas. [risos] É um dos meus apelidos. Fiz show em Belém no ano passado. Tive que fazer duas sessões: uma às oito da noite, porque tinha alguém que queria levar criança, queria levar adolescente e não podia. Fiquei até às dez. Lá eu tenho esse público. Tem o público povão, que foi de onde eu vim, e tem esse público elitizado lá que tá começando a aceitar. E, caramba, não sei se tem algum artista no Brasil, se tiver, me ajudem a fazer essa reflexão, que consiga transitar em todos esses públicos. E isso não é fácil, porque eu me sinto pisando em…
Mauricio Pereira – Roberto Carlos…
Gaby Amarantos – Eu nunca vi o Roberto Carlos cantar num festival de rock.
Natale – Não, e nem em Parada Gay.
Gaby Amarantos – E nem Parada Gay.
Mauricio Pereira – É uma falha dele. [risos]
Gaby Amarantos – Pode ser corrigida, né?
Mauricio Pereira – Pode ser, ainda tem carreira. Nunca é tarde.
Gaby Amarantos – Por favor, não estou dizendo que eu sou mais popular que o Roberto Carlos, mas é uma coisa difícil pra eu lidar, porque eu ainda estou encontrando o público o qual pertenço. Por quanto tempo vou ficar transitando por todos?
Tacioli – Mas isso te preocupa na hora de trabalhar artisticamente, de saber quem é o seu público?
Gaby Amarantos – Eu faço músicas sem pensar especificamente em ninguém. Eu faço a música do jeito que eu gosto, aí ela acaba atingindo. Eu não (penso): “Vou fazer essa música para o público gay. Vou fazer essa música para o público cult”.
Natale – Gaby, você reflete muito sobre isso? Você está cada vez mais entrando, expandindo o seu público, a sua área de atuação e, no fundo, talvez seja quase inevitável pensar mais em estratégia de mercado. Por exemplo: vai ter que escolher entre esse show e aquele, você vai ter que, daqui a pouco, viabilizar outro tipo de transporte pra você chegar mais rápido, fazer mais shows.
Max Eluard – Quando eu perguntei da relação dela com esse público era um pouco nesse sentido, de como se relacionar e encontrar sua estratégia de existência.
Natale – Pelo ponto de vista filosófico, é uma estratégia até pra você se resguardar. Vou fazer um apêndice: não sei se alguém assistiu ao filme VIPs. Vocês sabem a história, do cara que fingiu que era o filho dono da Gol e as pessoas recebendo aquele cara de um jeito… Tanto é que ele dá uma entrevista depois em que fala “Escroto sou eu que menti ou foram as pessoas que me receberam bem porque acharam que eu era o que eu não era?”. É muito doido isso.
Gaby Amarantos – É muito doido.
Natale – Mas, de qualquer maneira, tem uma estratégia do ponto de vista emocional e tem uma estratégia do seu ponto de vista do negócio. Você é uma pessoa, você é uma artista que cada vez mais tem poder de arrecadar recursos financeiros pra você e pra sua equipe. Isso te apavora? Você se acha preparada pra isso? Você tem uma equipe que está amadurecendo tanto artisticamente quanto sob o ponto de vista da gestão da sua vida financeira?
Gaby Amarantos – Pela primeira vez aconteceu uma coisa comigo: aceitei uma pessoa vir a cuidar de mim. Eu sempre fui uma fera indomada. Sempre quis fazer tudo sozinha, não queria ter empresário. É um gestor de carreira, é um amigo pessoal, que já me conhece há muito tempo, e que já estava, de certa forma, observando isso e vendo uma forma de “Gaby, tu és muito difícil de se trabalhar”. O dilema: sempre trabalhei atrelada à pirataria e agora estou lançando um disco. “Cara, como é que eu vou fazer isso?”
Natale – Um bom dilema esse.
Gaby Amarantos – Gravadora? Vou lançar o meu disco eu mesma? Nunca gastei 200 reais para fazer uma música. Esse meu disco já está batendo os cem mil de investimento: disco profissional, que vai ser mixado, vai ter diretor e tal. Então, eu tô passando de um processo que era totalmente informal pra a profissionalização. Gravadora é um outro dilema. Não sei como é trabalhar com uma gravadora, quais são as vantagens…
Natale – Você assinou um contrato com a gravadora?
Gaby Amarantos – Não. Não assinei com ninguém, porque ainda tô analisando tudo, tem selo até internacional, porque estou numa coletânea. O cara manda e-mail pra mim sempre, manda DM, quer lançar o disco lá fora. Já tem uma galera interessada. E eu fico: “Gente, como vou lidar com isso?”. Isso é bem novo pra mim. Estou analisando muito. Primeiro, eu tô concentrada em deixar o disco pronto, porque não tem nenhuma previsão, mas espero lançar no primeiro semestre. É muita coisa nova, e na minha vida acontece isso, sempre vem uns retumbões que eu tenho que saber como lidar. Aí falei, “Cara, agora não vou dar conta sozinha. Preciso chamar alguém”. Aí o Marcel, que já é gestor…
Natale – O Marcel Arêde?
Gaby Amarantos – O Marcel Arêde que já estudou, que é muito bem relacionado nesse meio e tal. Tenho também não sei se é sorte ou consequência do meu trabalho, tipo, o Miranda vai em Belém pra ouvir todo mundo, e ele gosta do meu trabalho. O Hermano foi, ouviu, gostou (do meu trabalho). Pô, que bom que essas coisas acontecem. Os meninos do Móveis me indicaram pra tocar com eles no Rock in Rio. Sempre que vejo entrevista deles, eles falam de mim. Os meninos do Macaco Bong… Então, essa coisa de eu transitar nesses festivais, convenções, Porto Musical, em coisas em que vai se discutir música, sempre gostei da Feira da Música, me fez ter know-how para eu ir pesquisando porque eu sabia que uma hora esse negócio ia bater. “E agora? Eu você vai se profissionalizar ou você vai continuar nesse mercado informal.” E continuar a trabalhar com a Internet como aliada. Inclusive, a gente já fez o disco com faixas a mais: vamos lançar 11, mas gravamos 16. E essas extras são pra gente ficar trabalhando na Internet, porque eu preciso continuar aquecendo esse mercado que sempre me divulgou, mas também tenho que dar um jeito de trabalhar com uma gravadora. É tudo novo. Já tenho conversado com algumas pessoas, como o Miranda, que é alguém que tem experiência pra caramba, Kassin e Berna, que são meus amigos, Thalma (de Freitas), que já vieram desse esquema, Fafá (de Belém) é uma guru, uma pessoa com quem sempre converso, “Fafá, eu tô com uma dúvida aqui. Fafá me ajuda aqui? O que tu achas?”. É uma cantora que conseguiu se firmar num patamar das cantoras top do Brasil, que veio do Norte. Ela fala: “Olha, Gaby, eu não quero que você cometa os erros que eu cometi”. Ela tem um carinho, sempre está ali me pontuando. Procuro ouvir pessoas que são amigas, pessoas em que eu acredito. O Pedro é uma pessoa com quem eu sempre converso, gosto de trocar ideia. O Emicida é um cara que eu tenho conversado, a gente quer fazer umas coisas juntos. É parecida a coisa de onde a gente veio, ele também trabalha com um estilo que tem discriminação. Então, procuro muito ouvir. Eu sou uma pessoa muito reflexiva. O meu trabalho é um vício. Se eu não estou trampando, eu estou pensando. Ou estou trampando ou estou pensando. Coitado, o meu filho nem me vê.
Natale – Quantos anos tem seu filho?
Gaby Amarantos – Dois anos.
Natale – Ah, por isso que ela fala dois anos.
Gaby Amarantos – Dois anos! [risos] Meu filho tem dois anos! Gente, parece piada…
Max Eluard – Tá na hora de ter outro.
Gaby Amarantos – Não! Tá bom só esse. Deixa eu trabalhar, quero trabalhar mais.
Tacioli – Como ele chama?
Gaby Amarantos – Davi. E minha mãe é o meu suporte. (Ela) cuida dele. Eu sou mãe solteira. Ela é a gestora da minha vida. A minha família é muito boa. Minha irmã me ajuda; agora eu tô construindo a minha casinha, então é a minha irmã que cuida dela pra mim. Meu irmão cuida da minha habilitação, porque eu tô tirando habilitação. Minha mãe cuida (do Davi). Só para o meu pai não dou nada pra cuidar, senão ele vai tomar tudo em cachaça. [risos] Minha família é muito boa. Não é uma relação comercial, de empresa, não, é tudo informal, mas que me ajuda por amor e sabe que eu tô crescendo e ela está comigo também.

Tags
Gaby Amarantos
de 14