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Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 10/14

Você já ouviu falar em samba de cacete?

Tacioli – Você comparou o tecnobrega com o funk, mas a lambada teve também um movimento, muita gente e depois sumiu.
Gaby Amarantos – Eu não vejo muita gente…
Julio de Paula – A lambada tinha uma coisa da indústria fonográfica…
Max Eluard – Não era uma coisa que surgiu…
Julio de Paula – … que se espalhou pelo Brasil.
Natale – Foi uma coisa meio Beto Barbosa. [n.e. Considerado o “Rei do balanço”, o paraense Beto Barbosa foi um dos pioneiros do “movimento do ritmo brega” e o principal nome da lambada nos anos 1980, com sucessos como “Adocica” e “Preta”]
Dafne Sampaio – Foi uma coisa restrita mesmo, foi meio de moda. Era uma coisa que estava rolando em vários lugares, veio um artista, explodiu, aí começou a rolar um monte de genéricos.
Tacioli – Mas isso acontece com o tecnobrega?
Gaby Amarantos – Mas tem um grande exemplo pra mim essa história da lambada, porque o Beto é de lá. A galera tem uma mágoa com ele porque ele dizia que era de Fortaleza. Ele foi o primeiro artista a estourar, mas como a galera que vinha do Norte sofria muito preconceito, pra ele era mais cômodo dizer que era de Fortaleza. “Gente, não vamos julgar o cara. Isso aí foi quase 20 anos atrás. O cara surgiu e era muito difícil você dizer era do Pará.” Então, o que foi que aconteceu com o Beto? O Beto estourou, mas não veio ninguém decorrente, somente o Kaoma que não era nem daqui, e morreu com ele. Outra coisa do Pará que estourou: Calypso. Calypso também, boom, uma explosão, um fenômeno, mas não tem ninguém pra passar o bastão, alguém pra dividir, como os baianos já fazem, eu uso muito os caras de exemplo em relação a isso. Vai sempre reciclando. O que eu digo pra galera do tecnobrega? Pode pegar as minhas entrevistas – eu sou a odiada da galera, porque só a Gaby aparece, porque só a Gaby vai para o Faustão, só a Gaby faz isso, tudo só acontece com a Gaby. Gente, não é assim! É um trabalho que eu já venho fazendo e eu sou corajosa. Eu vim pra São Paulo da primeira vez com uma mão na frente e outra atrás. Larguei tudo e “Vou pra São Paulo”. E vim tentar fazer contatos que são importantes hoje por eu ter vindo aquela primeira vez. Eu já estou aqui, mas falo de toda a cena porque é uma cena incrível, não somente por querer fomentar, mas porque é foda, é uma cena muito incrível! Se você pesquisar a cena paraense, os ritmos… Você já ouviu falar em samba de cacete? Já ouviu falar em banguê? Já ouviu falar em samba de criolo doido? Isso tudo tem em Belém do Pará e as pessoas não conhecem, além do carimbó, do siriado, do retumbão, do lundu, do brega, do flash-brega. É muita coisa que tem. E eu sempre falo: tem a galera da Gang do Eletro, que é genial, que são meus colegas, que eu quero que cresçam, tem a galera da banda Quero Mais, então eu estou aqui, mas tô querendo trazer o Waldo pra tocar aqui comigo, porque a gente precisa realmente rotativizar a coisa. Não cometer o erro que a lambada e o Calypso (cometeram). A Calypso até quis fomentar uma cena, mas uma cena que não deu muito certo porque não foram os artistas certos. Por exemplo: eu estourei e agora quero que meus amigos estourem. Não é. Eu tenho um monte de amigo, gente que eu adoro, que eu amo de paixão, mas quem tá fazendo um trabalho genial? A Gang do Eletro, Waldo, Maderito. “Vamos fazer a coisa junto, vamos fomentar!” Eu canto no DVD deles e eles tocam no meu disco. “Vamos pegar quem mais que tá fazendo um negócio legal: Dona Onete.” Dona Onete tem uma música no meu disco, pra mim a música mais incrível do meu disco, que é uma música que uma senhora de 78 anos fez pra mim. A música é inacreditável e não tem nada a ver com o tecnobrega. É outra coisa, até pra mostrar a diversidade de ritmos que é uma música que é o novo “Canto das três raças”. É uma música incrível! E o disco vem com essa pegada. Tem tecnobrega, tem um pouco de zouk eletrônico, o Waldo umas coisas novas, a Fernanda Takai vai gravar uma música comigo, então tem um pouco (de tudo) pra mostrar que não é só isso, que é muito além, e que com essa batida dá pra fazer coisa pra caramba e abrir o leque. Acho que esse foi um passo que o funk não deu. O funk ficou naquela coisa roots, que é muito legal, mas não se experimentou outras coisas com o funk. Teve aquele funk cult, que foi a galera cultzinha querendo fazer funk, mas…

Capa do disco Treme, o primeiro "título oficial" de Gaby Amarantos. Com produção de Miranda e participações de Fernanda Takai e Dona Onete. Foto: reprodução

Julio de Paula – Que passou…
Gaby Amarantos – Que passou também.
Mauricio Pereira – Mas o funk tomou muita pancada pelo fato de estar aqui no eixo Rio-São Paulo. Uma vez eu fui num programa da TV PUC sobre canção. Éramos eu e um professor da PUC. Enquanto a gente falou do Dorival Caymmi estava tudo lindo. Aí eu falei do Bonde do Tigrão, só faltou alguém me segurar e o cara me bater na cara. Eu penso: o funk está muito perto da “cultura”, então fica mais fácil esticar o braço e dar uma bifa no funk.
Gaby Amarantos – Ainda bem que estou lá em Belém do Pará. [risos]
Mauricio Pereira – Num certo sentido, estar longe preserva. O eixo Rio-São Paulo é como um um monstro comilão: primeiro ele comeu a Bahia, depois Pernambuco, o Maranhão foi bola da vez aqui nos anos 90, maracatu – São Paulo tem mais grupo de maracatu que o Maranhão inteiro, só aqui na zona oeste de São Paulo… O Sul vai descobrindo as coisas. E estar longe é ruim porque não sei se é fácil ganhar a vida lá sem vir para o Sudeste, mas é bom porque vocês se livram, aqui o comércio manda, faz parte da nossa cultura. Aqui o dinheiro fala alto, gira muito. Somente em São Paulo são 23 milhões de pessoas, então…
Gaby Amarantos – Já vi alguns DJs tentando produzir (tecnobrega), até fazendo coisas assim louváveis, mas…
Julio de Paula – Não chega.
Gaby Amarantos – Nem no dedo do pé.
Natale – A primeira aparelhagem tem 67 anos. No fundo, talvez a diferença que tenha do Calypso, por exemplo, que é uma coisa que foi inventada ontem, adaptada de um gênero, e o tecnobrega ou o brega, é porque o brega é da região. Na verdade, não tem como você tirar, é como você tirar o Ilê Aiyê da Bahia. Não tem jeito, tá ali impregnado.
Gaby Amarantos – Mas eu já vi algumas produções de funk carioca feitos por outros DJs que ficaram assim bem próximos. Acho que é uma música fácil de ser produzida. Se o Waldo Squash quisesse fazer um funk, ele podia fazer alguma coisa bem próxima do que é lá (no Rio de Janeiro), porque é uma música simples de se entender. O tecnobrega também é uma música simples, mas tem uma experiência que é o que preserva e protege a gente, que é a coisa do DJ da aparelhagem tocar pra multidão. Então, quando toca uma música, ele sabe qual a música que é gol e qual a música que não rolou o gol. Ele solta a batida e quando começa o solo a galera quebra tudo. Essa experiência da gente ir pra festa desde criança e saber “esse timbre aqui funciona, esse não funciona” é uma coisa que deixa a gente bem mais a frente das pessoas. Já me mandaram coisa do Rio, de DJ de funk que tentou produzir tecnobrega, que ficou com timbre de funk na batida do tecnobrega. Tem até alguns DJs que estão morando em Belém pra tentar…
Julio de Paula – Pra tentar aprender.
Gaby Amarantos – Pra tentar sentir isso, entender e ir muito pra festa de aparelhagem para poder chegar nessa coisa que a gente, tanto eu quanto o Waldo, escuta desde criança. Não quer dizer que não chegue. Gente, eu quero é que gravem! Não tenho essa coisa “É nosso, ninguém tem que tocar!”. Eu quero mais é que expanda e que a galera produza mesmo.
Max Eluard – Preciso interromper pra tocar a bateria.
Tacioli – E também não sei quanto tempo temos ainda de entrevista.
Max Eluard – “Gaby Amarantos, take um.”
Tacioli – São dez e vinte.
Dafne Sampaio – Qual é o deadline?
Tacioli – Diga pra gente, Gaby.
Gaby Amarantos – Mais trinta minutos tá bom?
Max Eluard – Não! [risos]
Gaby Amarantos – Mais trinta minutos pra eu sair daqui onze horas?
Tacioli – Tá.
Gaby Amarantos – Tá tranquilo?
Tacioli – Eu falei pra você que a coisa vai…
Gaby Amarantos – Né? O tempo…
Julio de Paula – O tempo passa e tem várias perguntas. Algumas mais… Só uma pergunta pessoal. Você falou dos ritmos…
Max Eluard – Peraí, peraí, só pra eu não perder…
Julio de Paula – Mas essa não vale.
Max Eluard – Vale. Todas valem.
Tacioli – Os offs valem.
Julio de Paula – É bom porque a gente come enquanto isso.
Max Eluard – Pra comer, quem quiser ir ao banheiro. Preciso tambémm trocar a bateria do gravador de áudio.
Tacioli – Quer alguma coisa pra comer?
Gaby Amarantos – Não, só quero ver onde está o meu carregador.
Max Eluard – Tá aqui na cozinha, Gaby.
Gaby Amarantos – Deixa eu ver, porque tá vermelho aqui e a pessoa…
Max Eluard – Tá azulzinho.
Gaby Amarantos – Tá azulzinho? Mas vou deixar lá…

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