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Entrevistas de música brasileira

Gaby Amarantos

A cantora e compositora Gaby Amarantos. Foto: Renato Nascimento/Gafieiras

Gaby Amarantos

parte 9/14

Sou a única com voz grave que não quer cantar como a Joelma

Max Eluard – Gaby, você tem formação musical?
Gaby Amarantos – Nada.
Max Eluard – Você fala com tanta propriedade…
Gaby Amarantos – É porque eu sou abusada mesmo. Mas nada. Na igreja eu lembro só o que eles ensinaram, que foi legal, foi aprender a aquecer a voz pra não ficar com a voz rouca depois de cantar. Isso foi o máximo que estudei. De violão, somente revistinhas de violão de tudo que eu comprava, Legião Urbana, eu ia olhando e tocando…
Tacioli – Mas você tem noção: se você pega um violão sai um (acorde)…
Gaby Amarantos – Sim, sai alguma coisa, sim. Quando eu componho a minha música, eu componho toda no violão, já boto os acordes, levo para o Félix, que corrige algumas coisas, acrescenta mais se precisar. Teclado eu gosto mais, porque é mais fácil. “Olha, Félix, é aqui. Fiz uma música!” Canto pra ele e ele já cifra. Ele é músico formado, escreve e tal. [n.e. Referência ao guitarrista e percussionista Félix Robatto (ex-La Pupuña), que integrou a banda de Gaby até julho de 2013]
Tacioli – Se você pensa em um negócio e não consegue expressar isso musicalmente, você sente falta de algum conhecimento, de algum elemento?
Gaby Amarantos – Quando eu canto, eu consigo. Se eu não conseguir fazer o acorde, vou fazer a linha melódica e vou gravá-la no celular. Eu vou mostrar: “Tá aqui”. Então é tranquilo, mas eu gostaria. Eu tô muito querendo estudar. Eu quero estudar piano, porque é uma parada que eu gosto muito, queria tocar. Não quero fazer um número só pra tocar uma música no show e dizer que é bonitinho. Não! Eu quero estudar mesmo. Não tô falando de ninguém, gente! Mas eu quero muito estudar. Eu lembro dos meus sete anos eu tinha um pianinho de brinquedo. E eu tocava essas coisinhas “Parabéns pra você” e “Noite feliz” de ouvido. Já dedilhava as músicas. Sempre gostei muito. Pretendo ter tempo pra isso agora.
Natale – Gaby, o termo brega é diferente no Sudeste/Sul do que é para o Norte. Isso te incomoda isso? Você sente ainda no Sudeste essa taxação de brega ser uma coisa agressiva e não uma referência ao Frankito, Carlos Santos… Às vezes a referência é meio…
Gaby Amarantos – Negativa.
Natale – Isso chegou a te incomodar em algum momento?
Gaby Amarantos – Já, já me incomodou no início. Eu ficava assim: “Por que as pessoas não entendem?”, mas quando eu ainda estava em Belém, somente em Belém. Às vezes alguém vinha me entrevistar e perguntava. Eu não tinha vindo ainda pra cá. Ainda lá!
Natale – Te perguntavam da maneira perjorativa
Gaby Amarantos – Eu pouco viajava, ainda não tinha saído e eu não entendia o porquê. Aí quando comecei a vir pra cá, pro Recife… Lá tem uma cena que eu brinco que é o “Reverbero de Belém”. Eles gravam uma música em Belém, estourou uma música da Tecno Show em Belém, uma banda em Recife vai gravar a mesma música e vai também estourar.
Mauricio Pereira – Na Bahia também tem uma banda…
Gaby Amarantos – Na Bahia tem uma cena também de brega, tem aquela banda Deja Vu que pegou as músicas de lá de Belém, então rola muito isso, tudo começa em Belém. Até essas bandas de forró grandes, como Aviões (do Forró), essa galera do A3, do forte esquema do forró, é uma galera que fica ligada se tem algum sucesso na parada. Se tem algum sucesso, eles gravam. Então essa é uma forma de fazer com que a gente não saia de lá, porque se uma música como “Beba doida”, que foi um sucesso, já é de forró, aí começou a rolar o contrário, a galera de Belém começou a pegar os sucessos de forró e gravar no melody. O que eles chamam de melody, eu até entendo que se queira colocar um nome diferente pra fazer o que a Calypso fez, colocou calypso e conseguiu ser o que é devido a isso, e isso contribuiu muito, porque se disser pra eles que eles são brega, eles ficam com raiva. “Não, a gente não é brega. A gente faz calypso!” Eu sempre assumi o tecnobrega porque acredito que, em algum momento, as pessoas não vão ser tão ignorantes de entender de que existe o estilo musical e que existe o adjetivo, que é pejorativo. Acredito que as pessoas serão inteligentes pra entender isso, mesmo que demore. Eu sou a única que fala de brega, a única que assume o brega. As pessoas da cena, os meus colegas, todos ficam chateados “Por que a Gaby ainda fica falando de brega? Por que a Gaby fica queimando a gente com esse negócio de brega?”. Até lá…
Mauricio Pereira – Isso eles chamam de melody?
Gaby Amarantos – Eles chamam de melody.
Mauricio Pereira – Mas a música é a mesma?
Gaby Amarantos – É a mesma música. Rolou uma variação: o tecnobrega foi ficando muito acelerado, cada vez mais acelerado, acelerado, acelerado. Aí surgiu um ritmo que era um pouco mais lento que o tecnobrega e que se chamou de melody. Só que hoje em dia o melody também foi acelerando e ele está no mesmo bpm do tecnobrega de sete anos atrás. É a mesma coisa! Só que é mais bonito falar melody, que é uma palavra internacional, que eu acho horrível, eu acho que brega é tão legal.
Julio de Paula – O tecnobrega é um movimento?
Gaby Amarantos – Sim, um movimento porque existe diversas bandas, inclusive até a Som Livre fez um DVD mostrando a cena, escolheu dez bandas e quatro aparelhagens, e é um DVD que tá aí no mercado. Somando, no geral, devem ter uns 300 artistas desse movimento de banda e de aparelhagem trabalhando no Estado.
Tacioli – Só em Belém do Pará?
Gaby Amarantos – No Estado.
Mauricio Pereira – E tem público pra todo mundo?
Gaby Amarantos – Cara, a galera se mata. Eu sou a primeira que está conseguindo sair, conseguindo levar e conquistar outros públicos, porque as pessoas pensam que eu sou uma coisa e quando elas vão ver o show, elas entendem que eu trabalho com música popular brasileira. Às vezes, as pessoas, até jornalistas e curiosos, por meio de tuítes, dizem “Por que você não volta a cantar MPB?”. “Gente, mas eu canto música popular brasileira. Tecnobrega é música popular brasileira! “ É um processo que eu sei que não vai rápido, mas eu acredito que uma hora (vai rolar)… Uma vez o (DJ) Malboro falou uma coisa pra mim bem legal em relação ao funk, que são movimentos bem têm uma história parecida, mas tecnobrega não tem a coisa do proibidão e da apologia ao crime…
Julio de Paula – Pra quem tá de fora vê muita semelhança…
Gaby Amarantos – Muita, muita semelhança…

Joelmas: em cima, capa do disco da cantora capixaba que fez sucesso nos anos 1960 e 1970; abaixo, a cantora paraense ao lado do guitarrista Chimbinha, da banda Calypso. Fotos: reprodução

Dafne Sampaio – A distribuição também…
Gaby Amarantos – É bem parecido. Aí o Malboro falou uma coisa assim: “Gaby, com o funk foi assim. Começou a se falar, aí deu uma apagada. Aí de repente surgiu uma música ou algum fato e aí começou a se falar mais. Aí foi e deu uma apagada. Aí, de repente, surgiu aqueles meninos do ‘cachorra, sei-lá-o-quê, eguinha pocotó’ e explodiu. Mas sempre o funk tá aí, ele vai crescendo aos poucos. Então, acreito que vai ser a mesma coisa com o tecnobrega. Você apareceu em 2002. Em 2003 você estava no Faustão. Você deu uma sumida. Apareceram outros artistas. A coisa vai vai vai. Acredito que até o momento em que a coisa vai realmente estourar. No meu caso é muita informação. É uma artista nova, é um timbre vocal diferente, porque enquanto todas cantoras de melody querem ser Joelma, eu sou a única que tem uma voz mais grave que não quer cantar igual a Joelma, não que eu não goste da Joelma, eu adoro, mas…
Mauricio Pereira – Joelma é aquela da antiga?
Gaby Amarantos – Da Calypso.
Mauricio Pereira – Que susto! Entreguei minha idade! [risos]
Julio de Paula – Joelma? Que Joelma?
Gaby Amarantos – Essa Joelma eu não conheço…
Dafne Sampaio – O edifício? Joelma? [risos]
Mauricio Pereira – O velho Joelma. Pegou fogo!
Gaby Amarantos – Todo mundo querendo ir por aqui, e eu sempre indo por aqui. É um figurino que é diferente – eu até brinco com essa coisa que é um pouco chata de “Lady Gaga”…
Julio de Paula – E o LED no sapato!
Gaby Amarantos – E o LED também, sempre. Se você usa um figurino mais extravagante, você tá querendo imitar a Lady Gaga. Eu falo: “Gata, pega vídeo meu de dez anos atrás e veja se eu já não usava o sol na cabeça, se eu não usava uma roupa que já tinha…”.
Julio de Paula – É a Lady Gaga que viu os seus vídeos… [risos]
Mauricio Pereira – Só de ver a cara de uma aparelhagem maluca daquela, cheia de lâmpada, você já saca que tem uma estética…
Gaby Amarantos – Que já é uma parada muito diferente. E essa história de moda também: as minhas roupas eu quebrava espelho, colava espelho, pregava paetê, pegava glitter e passava nos meus lábios. Então, até o meu visual é diferente do dos meus colegas. São todos normais! Eu sou a anormal do brega. Eu sou a única, anormal. Então é muita informação: uma cantora, um visual, uma música, um estilo novo que as pessoas estão conhecendo. Não vai ser rápido.

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