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Entrevistas de música brasileira

Frank Aguiar

Frank Aguiar por Jefferson Dias

Frank Aguiar

parte 16/25

Está tudo no meu museu

Tacioli – Você se lembra de alguns artistas de referência do Piauí?
Frank – Lembro. Assis Batista foi um artista de sucesso que deixava eu pegar as caixas de som dele. Quando cheguei pra estudar no Colégio Diocesano, na mesma rua do pensionato em que eu morava, na Simplício Mendes, ele tinha um conjunto. E aí eu passava pra ir para o pensionato e via Assis Batista ensaiando. Aí um dia cheguei: “Homem, pelo amor de Deus, deixa eu montar as suas caixas de som. Aí você me dá uma ajudinha de custo pra eu fazer meus lanches na escola e ajudar no pensionato”. Parece que todo mundo foi me dando chance. Ele tinha uma Pampa, depois uma Caravan e todos os dias ele fazia show à noite. Eu pegava as caixinhas de som dele, eram meia dúzia de caixas, com o violão dele e tal, botava em cima, e montava. Eu já tinha experiência de som e eu mesmo era quem ligava. Era o técnico, era o jacaré, era o roadie, era tudo. E ele tocava. E, dali a pouquinho, cheguei pra ele e disse: “Olha, se tu deixar eu toco teclado também”. [risos] Ele não sabia o que estava aprontando pra vida dele. [risos] São boas essas histórias, afirmo, cara! [risos] E aí ele pegou um teclado, um Casio pequenininho, que me mandou no ano passado e que está no meu museu.

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Tacioli – Onde fica o museu?
Frank – Lá no Piauí. Vocês estão convidados, se tiverem a curiosidade, pra ver a primeira roupa do primeiro disco, a sanfoninha que meu pai me deu na época do Gonzagão. Está tudo lá, a minha história.
Dafne – Na tua cidade.
Frank – Na minha cidade. É um local de turismo, as pessoas vão de caravana. Agora em dezembro vai ser uma loucura. Chegam os ônibus de vários lugares pra visitar a cidade e conhecer a minha casa. Tem um guia, tem um senhor que fica contratado pra andar, pra explicar, pra contar a história. Com minha mãe todos querem tirar foto e ela vai explicando. Sabe mais do que eu…
Almeida – Tem alguma grande atração no museu?
Frank – São as fotos, as peças, o violãozinho todo quebrado. O Fausto (Silva) já foi lá e mostrou uma vez a nível nacional as peças principais. Mas é tudo muito atrativo, é tudo muito gostoso. As fotos: eu, cabelinho curto, magro, seco de trabalhar. Aí ele (Assis Batista) me deu esse teclado, depois de uns dias, uns meses, digo: “Olha, se tu deixar eu te ajudo cantar também”. [risos]
Dafne – Deu o golpe.
Almeida – “Se quiser posso fechar o contrato pra você.”
Frank – Mas ele deixou. “Cante duas.” E aí fui tocando minha serestinha. Dali a pouco as pessoas já estavam pedindo pra eu cantar mais. Aí ele começou a ficar danado, enciumado, mas aí já era tarde. Já havia conquistado muitos fãs, muitos amigos e ele disse: “Frank, olha cara…”
Dafne – Eu vou parar… [risos]
Almeida – Procura teu caminho aí…

Frank – “(…) Pode ir, você vai longe e não é a questão da ciumeira que o ser humano tem, mas você tem estrada, trilha, eu tô aqui pra te ajudar. Você não precisa mais que te auxilie, você não precisa mais desmontar as minhas caixas”. E foi em seguida também que financiei meu equipamento e saí tocando. Daí pra frente foi um estouro.
Tacioli – Qual era o nome dele?
Frank – Assis Batista.
Tacioli – Ele era compositor também?
Frank – Ele era irmão do Naeno, um dos maiores poetas e compositores de lá. O Naeno até mandou essa música pra mim, para o meu DVD: [canta e toca ao violão] “Quando a lua lá no céu pintou de branco / O fogo todo clareou / Molhando a gente na varanda / Entretidos no amor / Teus cabelos presos num cocó / Puxei a fita e desatei o nó / Eles caíram como um manto / Grudados no teu suor / A saudade passa e logo vem / Afina a gente faz o que convém / Remédio tem sido eu chorar / A saudade é dor que dói no peito / E não tem mais jeito…”. Até esqueci a música, mas é linda, ela é uma poesia maravilhosa. A saudade faz a gente chorar que até afina a gente, sabe o que é isso, né? Emagrece, o cabra fica sem comer, doido e tal. Eles contam tantas histórias bonitas.
Tacioli – E do Assis, você lembra de alguma?
Frank – O Assis era intérprete.
Tacioli – Ele não compunha.
Frank – Era na época [canta] “Não se admire se um dia / Um beija-flor invadir / A porta da tua casa / Te der um beijo e partir / Foi eu que mandei o beijo / Pois quero matar meu desejo / Faz tempo que não te vejo / Aí saudade de ocê”. [n.e. Composição de Vital Farias, “Ai que saudade de ocê” foi lançada em 1982 pelo autor e regravada no ano seguinte por Elba Ramalho] Era por aí, MPB, o fino da MPB, muita coisa de Caetano… Ele tocava nos melhores restaurantes, as bodas de prata, ouro, os casamentos finos e tal. E aí naquele tempo em que fiquei com ele, fui conhecendo as pessoas, nos intervalos eu estava abraçando, estava nas mesas, trocava uns telefones. Não, “mafiando” o meu amigo, mas acreditava que eu ia contar uma história no futuro e já preparava essa cena.

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