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Entrevistas de música brasileira

Frank Aguiar

Frank Aguiar por Jefferson Dias

Frank Aguiar

parte 11/25

"É, filho duma égua, queria estar na sua pele!"

Tacioli – Você tocava as músicas religiosas.
Frank – Sim. Mas somente para justificar aquilo que eu disse: ninguém duvida do que eu quero, do que você quer; a gente não tem que duvidar de ninguém, as pessoas têm que saber o que querem. Viu que trabalhão que deu? Era um monte de filho, o pai sem condição, um colégio caro. E que moleque danado… Então fica aqui essa mensagem: querer é poder. Não é mensagem escrita que a gente escuta falar, não. E o que é poder? É buscar, é ter determinação, se situar. Tudo que pedi, tudo que projetei, eu consegui. Muito além do combinado, do esperado.
Tacioli – Quando moleque, o que significava ser um artista de sucesso?
Frank – [Segue a linha de raciocínio da questão anterior] Mas podia era fazer uma viagem na história do colégio, da mensalidade… Vocês não sabem que eu morava num pensionatozinho, com um quarto bem menor que meu banheiro, com duas beliches, uma em cima da outra. Você não sabe o que é isso! Tinha almoço, mas na janta a gente tinha que se virar.
Tacioli – Você lembra dos colegas do pensionato?
Frank – [Segue a linha de raciocínio da questão anterior] E eu não passava fome, não. Fazíamos um rachinha, comprávamos pão, lanche, cuscuz. Os pais sempre mandavam a feira do interior. No dia que a minha acabava, um amigo me dava; no dia em que a dele acabava, eu dava pra eles. No dia que não dava, eles roubavam mesmo. A gente escondia os lanches, os doces de leite. Era muito bom! Então quando eu lembro de tudo isso… Vale a pena você viver, senão nessa hora você fica bobo ou besta, querer passar por cima de todo mundo, empinar o nariz, achar que é o tal. “Consegui, agora dane-se o mundo.” Sabe, quando você consegue de uma hora pra outra, fica esse sentimento; então tem que penar mesmo, ralar…
Almeida – Tem amigos que fizeram parte da sua vida, da sua infância e juventude que poderiam estar numa posição como a sua, mas que se perderam?
Frank – Muitos.
Dafne – Instrumentistas bons…
Frank – Instrumentistas. Do meu grupo, pra você ter uma idéia, somente eu me sobressaí. Dos grupos em que toquei, e foram vários na época, somente se sobressaiu um. Por isso que eu te digo, naquela época um milhão queria conseguir o que eu consegui. Tiveram muitos também que… “Mas, Frank Aguiar, rapaz…” Essa semana me encontrei com Eugênio, em Boa Vista. Ele é engenheiro que cuida da energia do Estado. Engenheiro muito bem-sucedido. “Mas vocês viraram tudo doutor. Larguei minha faculdade e vocês tudo doutor!” “É, filho duma égua, queria estar na sua pele!” [riso] São historinhas tão gostosas. Cada um realizando a sua história; eu na música, ele na engenharia. O Juninho, que sempre vem passar o final de semana comigo, hoje é um dos melhores neurologistas, médico bem-sucedido. Outros, advogados com belos escritórios. Enfim, é prazeroso. Somente aqueles que não tiveram coragem, que não tiveram essa determinação, que ficaram. E assim vai ser a vida de cada um de nós que não tiver determinação.

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