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Entrevistas de música brasileira

Frank Aguiar

Frank Aguiar por Jefferson Dias

Frank Aguiar

parte 10/25

“Me dê esse direito de estudar, padre”

Almeida – Frank, como foi sua convivência com o meio acadêmico na época da Universidade Federal?
Frank – Era taxado de turista. [risos] Mas foi muito boa. Brinco assim, mas faltei o que era permitido; não ultrapassei os 25% que a faculdade não permite. Mas faltava à algumas aulas porque era necessário; tinha de trabalhar. Muitas vezes saía de casa com a roupa do show dentro do carro, da faculdade corria direto pro show, me trocava ali mesmo. Chegava das viagens e ia direto do aeroporto para a faculdade com uma tremenda força de vontade, cansado, com sono, olhos inchados. Tinha uma menina, pra fazer média comigo, que todo dia levava um colírio. “Olha, seu olho está vermelho.” Eu chegava baqueadão. E fui citado em alguns seminários e palestras como exemplo. “Já tem uma carreira definida, uma vida estabilizada e está aqui quase que todos os dias, estudando, se formando. Vocês estão aí, ninguém trabalha, filhinho de papai, o que querem da vida?!” Fui bem, com uma receptividade muito boa. Da catraca pra dentro da faculdade, fiquei amigo de todo mundo. Pedi logo no início: “Olha, aqui é o estudante, não o artista. Sou um cara que precisa de um pontinho a mais como vocês, então quero toda liberdade pra descer na hora do intervalo, fazer o meu lanchinho e compartilhar trabalhos”. No início do ano era mais complicado porque havia os alunos novatos, aí havia assédio, autógrafos, fotos. Depois do segundo mês eles viam que eu não era aquele cara que queria ficar isolado e me deixaram à vontade. Foi muito saudável.
Tacioli – Mas isso agora, não?
Frank – Sim, na Unip agora, depois da fama.
Tacioli – Mas como era lá em Teresina quando você estava na faculdade de Música…
Frank – Em Teresina eu ainda não era famoso.
Tacioli – Mas havia algum reconhecimento artístico, local?
Frank – Sim, claro, a mesma cena, não com a mesma atenção de artista nacional, até porque também havia outros colegas que faziam sucesso regional e que faziam faculdade. Havia um professor muito bom de regência, o Aurélio, que também era cantor renomado por lá.
Tacioli – A faculdade era de música popular? Poucas instituições têm esse curso.
Frank – A UFP tem um curso maravilhoso em Teresina. A faculdade é muito boa. Eu nem cheguei a concluir o curso porque a prática já estava me roubando muito a cena, um outro caminho. Eu estava desestimulado. A teoria talvez não me convenceu, não foi um estímulo.
Almeida – Não foi revelador…
Frank – Mas foi gostoso, eu peguei alguma coisa, uma noção teórica, precisava.
Almeida – Você nunca voltou pra lá, depois de famoso…
Frank – Pra morar?
Almeida – Como músico famoso, você voltou pra faculdade?
Frank – Não, pra faculdade, não, eu já estava jubilado. [risos]
Almeida – Não pra estudar, mas pra dar uma palestra, falar com o pessoal, discutir a sua música…
Frank – Voltei, já voltei na faculdade, inclusive nos colégios de ensino médio voltei pra fazer palestra, pra fazer show no Centenário, no Diocesano, que era um colégio de padre. História boa… Quando cheguei em Teresina… Bom, tenho seis irmãos e o meu pai não era um homem rico, porém nunca deixou também a gente passar fome.
Tacioli – Qual era a profissão dele?
Frank – Agricultor. Só que mandar os filhos estudarem na capital, poxa, como ele ia conseguir dinheiro para os seis filhos? E eu fui, sou o caçula. Olha que responsabilidade: todos vieram primeiro e eu fiquei com a responsabilidade de cuidar de todos. São missões, né? E eu disse: “Pai, quero ir pra Teresina para estudar”. “Meu filho, você está louco. Como você vai? São seis filhos e não dei isso para os outros. Vou dar pra você? Não tem como.” “Eu quero ir, pai. Eu vou, arranjo condição. E quero estudar no Colégio Diocesano”, que era o colégio melhor do estado, um colégio jesuíta, de padres. Aí, fui e fiz o teste para o colégio. Até pra entrar era difícil, mas passei. E quando passei veio aquele desespero. Meu Deus do céu, de repente eu nem acreditava que ia passar, mas fiz com essa intenção boa. E aí digo: “Como vou pagar a escola agora? Mas vou conseguir”. Eu já sabia que meu pai não podia mandar mensalidade. Além disso, havia um pensionato que ele disse que segurava. E aí fui ao diretor, o Padre Darly. “Padre, quero lhe contar uma história.” Aí contei minha vida, o que eu fazia, as minhas condições. “Eu passei no teste do colégio e eu quero estudar aqui. Me dê esse direito de estudar, padre.” [Frank Aguiar se emociona] Eu disse que podia tocar na missa todo dia, mas queria que ele me desse a mensalidade. Ele nem deixou eu terminar o papo. “Filho, eu te dou a mensalidade. Pode vir porque você vai estudar.” E eu tocava, tirava meu coro numa missa, tocando, mas estudei no colégio que eu queria.

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