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Entrevistas de música brasileira

Frank Aguiar

Frank Aguiar por Jefferson Dias

Frank Aguiar

parte 9/25

Reproduzia meu show em fitas e levava para o camelô

Tacioli – Quando você lembra dessa época de moleque, qual história lhe vem à memória?
Frank – Tenho tantas histórias. Eu tinha um carro, o primeiro carro, que transportava a minha banda, com o qual a gente andava 20 quilômetros e 10 empurrava, porque eu tinha limite até pra colocar a quantidade de óleo no ônibus.
Tacioli – Era um ônibus?
Frank – Era um ônibus que, depois de muitas ralações, de muito tempo, consegui financiar. Mas era velho e quebrava toda hora. Até pra ir de uma cidade a outra, eu botava o limite do óleo. E na volta eu tinha que torcer para que a festa desse algum dinheirinho pra voltar. Muitas vezes a festa não dava e eu tinha que quebrar a cabeça, como ia botar o óleo da volta, que já era limitado… Às vezes entrava ar no motor, não sei se vocês sabem o que é isso. E nós passávamos o dia na estrada, com fome… Aqui em São Paulo o sofrimento foi maior, porque eu não tinha onde morar, mas tive abrigo, uns amigos me acolheram aqui em São Bernardo. Em todas as férias, quando os amigos viajavam no mês de julho e no fim de ano, eles davam a casa pra eu ficar cuidando. E eu botava pau, não pagava aluguel. Queria ser conhecido, mas o mercado de trabalho era restrito. Eu chegava nas casas e dizia: “Olha, deixe eu tocar porque lá no Nordeste faço muito sucesso”. “Oxente, bichinho, então volte pra lá, porque aqui ninguém te conhece.” Já era sacanagem. A figura do nordestino não era vista de forma cultural. E eu ia ficando indignado, mas não mudava o discurso, queria defender, queria dizer que eu era de lá. Fui para as ruas pregar meu nome com lambe-lambes. Em tudo quanto era paredão eu pregava meu nome, na noite fria de São Paulo. Peguei pneumonia duas vezes. Chegava na casa de shows onde eu queria tocar, o cara não me conhecia e não ia contratar. “Então me alugue a casa.” “Mas que caboclo desaforado esse! Como tu vai arranjar dinheiro pra alugar a casa?” Eu tomava dinheiro emprestado; os amigos me conheciam, sabiam que eu devolvia. E enchia a casa somente com amigos e conterrâneos. Quando chegava sábado, com a casa cheia, o dono ficava doido. Aí, na semana ou mês seguinte, ele me contratava. E eu fazia isso no bairro vizinho, fazia no Largo de São Miguel, no Largo Treze, em Osasco, e nas quatro zonas da Grande São Paulo.
Tacioli – Isso foi começo dos anos 90?
Frank – Começo dos anos 90, 92.
Tacioli – E qual era o repertório que você tocava?
Frank – Canções de outros que interpretava no ritmo do forró. Pegava um sertanejo e fazia no ritmo do forró; pegava samba em ritmo de forró. Havia minhas canções que não faziam sucesso, mas somente quem vinha de lá conhecia minhas músicas. Eu passava a noite todinha reproduzindo o meu show e depois levava 100, 200 fitas para o camelô. Cansei de procurar gravadoras e ninguém… Eu dizia “Alguém tem de saber…”
Dafne – Você gravava o show?
Frank – Gravava o show. Eu queria que as pessoas conhecessem o meu produto, então levava a fita para a feira. “Olhe, toque minha fitinha, bote pra rodar, pra vender. O que vender você me paga, o que não vender, você me devolve. Você não está correndo risco de perder.” E eu deixava lá. Eu me lembro do Chorão, que era um amigo que tinha uma banca no Largo Treze de Maio. Aí eu mandava os meus amigos comprarem essas fitas. E quando era meio-dia não havia mais nenhuma. O cabra ficava doido e ele mesmo cuidava de reproduzi-las. E eu ia fazendo a cena vizinha. Dali a pouco o nome ficou conhecido; o produto era bom. “Vamos oficializar esse negócio, porque ficar no informal não é bom pra ninguém.” E logo veio gravadora, vou pagar os direitos das músicas que eu gravava, vou ganhar meus direitos também, e a história foi crescendo…
Dafne – Lambe-lambes, os shows, as fitas… Esse marketing pessoal é um negócio que você sempre pensou?
Frank – Sempre gostei muito de marketing, tanto que o primeiro contrato que fiz com a gravadora, o Mainard, da Abril, que era o meu presidente, disse: “Eu quero lhe contratar, mas com o seu marketing”. Achei maravilhoso, porque eu tinha liberdade para continuar falando. Mas eu lembro que, quando ainda estudava em Teresina, onde fiz faculdade de Música, na Universidade Federal do Piauí (UFP), o primeiro curso técnico que fiz na minha vida foi um curso de Marketing. Eu queria aperfeiçoar uma vontade. Tive também um aperfeiçoamento teórico sobre marketing, mas sempre dentro das minhas características, sem fugir desse personagem.
Dafne – Esse das fitas, do lambe-lambe, do show, dono de um marketing pessoal agressivo, diferente, original, era um personagem ou você?
Frank – Muito parecido com eu. [risos] Olha, estou com uma roupa que vou usar no show, um jeans… Não sei porque não estou com camisa branca. É porque estava bem geladinho ali em cima e eu botei uma preta pra esquentar. E aí vocês chegaram e, pra não me atrasar, desci assim mesmo. Mas vai dar tudo certo, viu! [risos]
Almeida – Pode tremer o olho?
Frank – Não, se tremesse seria o direito. [risos]

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