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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 8/15

Você está no ar, Décio! Faz alguma coisa!

Max Eluard – E o Móbile?
Faro  O Móbile foi o seguinte: um dia o Cassiano chegou para mim, em 62, 63. “Baixo, você precisa fazer um programa para mim, sábado à noite, onze e meia.” Eu disse, “Tudo bem. O que você quer?” “Ah! Faz o que você quiser!” [risos] “Não, Baixo, o quê? “Não, pense aí!” Aí pensei um programa móbile a partir daqueles objetos do Calder [n.e. Alexander Calder, artista plástico, 1898-1976], que não têm uma estrutura definitiva. Você chega, mexe e muda tudo. Comecei a fazer uma coisa assim e fui muito ajudado por um cenógrafo chamado Vilató [n.e. Badia Vilató, cenógrafo de “Música e fantasia”], um espanhol. Um cara incrível! Fazia aquelas coisas minimizadas que você enquadrava e parecia que você estava num castelo. A primeira coisa que fiz foi “O processo”, do Kafka. Fiz mil coisas lá! Eu levava muito o pessoal do Concreto, por exemplo, Décio Pignatari, que tinha uma revista. Daí, o Décio chegava com a revista A invenção debaixo do braço. Eu fiz uma que era um negócio assim: era ele morrendo… O poema se chama “Epitáfio”. Uma outra vez, ele chegou com a revistinha debaixo do braço, “Baixinho, tô aqui”. “Tá bom, Décio”, eu estava fazendo outra coisa. De repente, olho para ele e digo, “Décio, venha cá!” “Olhe a revista aqui!” Tomei a revista e o empurrei. “Você está no ar! Faz alguma coisa!” [risos] Claro que eu não ia deixar uma coisa vazia. Existiam uns pontos com a realidade dele. Por exemplo: uma mesa, uma máquina de escrever, um quadro negro, papel. Agora, os momentos de aturdimento que ele passou… Ele ficava assim [imita a expressão do Décio]. A outra câmera acendia, todas as câmeras acendiam e ele olhava assim… Lá pelas tantas ele começou, “Por que a dor…”, sabe aquelas coisas? Aí começou a fazer aviãozinho de papel e jogar. [risos] Mas era legal. Nesse programa fiz também aquele monólogo da Molly Bloom do Ulisses, do Joyce. Fiz um, além do Kafka, que foi a primeira coisa.
Analu  Era meio papo-cabeça para a televisão…
Faro  O superintendente da televisão, o Oliveira… Uma vez nos apresentaram: “Oliveira, este é o Faro.” E o Oliveira: “Você é aquele que faz aqueles negócios?” E eu disse: “Sou eu mesmo.” [risos] Mas aí lembro que fiz a “Molly Bloom”, que é esse monólogo interior, essa corrente… Fiz com a Dina Sfat. Foi uma coisa engraçada. Era 1º de abril. O arquiteto [Vilató] chegou na sala do Jorge Henrique, que era o diretor musical na época, e disse “E aí?” Lá estava o Lima e o David José. “Como, ”e aí”?” “O que vocês vão fazer?” Ele estava se referindo a Revolução de 31 de março/1º de abril. “Ué, Vilató, não posso fazer nada! A gente não sabe nem pegar em fuzil!” “Na minha terra (Espanha) a gente foi com pau e pedra!” “Mas perderam, né, Vilató?!” [risos] Eu tô lembrando, sabe do quê? Teve um tempo que a gente não estava agüentando aqueles negócios de Brasília. O Mino [Carta] chegou pra mim e disse “Vamos alugar um ônibus e ir pra lá? A gente junta uns amigos e inicia uma revolução.” Eu disse, “Mino, você tá louco? Os caras estão lá há 20, 25 anos, são treinados, sabem atirar de metralhadora, fuzil, revólver. Você atira de fuzil, Mino?” Aí desistimos. [risos]
Analu  E como você foi levando… 
Faro  Não! Deixe eu acabar o negócio do Móbile. Fiz o Móbile assim… Fico muito irritado quando você aparece na televisão, e você não é você. Há um modelo de apresentador, então você é aquele modelo: “Boa noite, senhoras e senhores, estamos aqui…” [imposta a voz] Cheguei e disse, “Não está certo!” E o Décio foi isso. Uma vez fiz com a Aracy Balabanian e com o Juca de Oliveira. “Quero que vocês façam um casal que faz palavras cruzadas. Quero vocês falando palavras cruzadas. Sentimento profundo. Vou trazer um Última Hora e deixar aqui.” O Juca: “Última Hora, não, é fácil demais, Baixo. Traga O Estado”. Levei O Estado. “Gravando!” Só que eu arranquei a página de palavras cruzadas do O Estado. Na hora, ele, “Ué? Mas cadê a página da palavra cruzada?” Então, essa coisa inesperada é que era legal. Uma vez eu fiz um negócio do J. D. Sallinger. Você conhece um conto dele chamado “Peixe Banana”? Fiz na Cultura, no Móbile. É a história de um cara superdotado, a família toda, aliás os personagens do Sallinger se repetem muito. Não é que se repetem, são sempre aqueles. Então, começa com a mulher cheia de bobe no cabelo, no quarto com o telefone, “Não, mãe, ele veio bem. Veio dirigindo na mão dele, sem problema. Não, está tudo bem.” Na praia ele está sentado, passa uma menininha e ele diz assim, “Você já viu peixe banana?” “Peixe banana?” “É, peixe banana.” “Como é um peixe banana?” “É que eles comem, comem e depois não podem sair da gruta e morrem.” A menininha fica conversando com ele, depois ele sai, vai para o hotel. Elevador, chega no quarto, a mulher estava com o rádio ligado. Ele desliga o radinho, senta na beira da cama, abre o criado-mudo, a gaveta, tira um revólver e atira. Isto está no teatro. No que eu fiz, no Móbile, a mão dele vai, o revólver escorrega da mão e entra o seguinte: “Aproxima mais, Baixo. Não! Olha o foco, você está perdendo o foco, aí!” “Não, mas aqui está normal!” “Não está normal!” Entende? Como se fosse uma coisa de televisão e não aquela coisa dramática do tiro. Uma vez fui fazer um negócio com o Lima [Duarte]. “Mineiro, venha cá. Quero que cê faça isso aqui tipo… imagine o Antonio Conselheiro falando! Quero que você faça isso.” Ele fez, mas eu disse, “Não está legal. Vamos fazer mais uma.” Fizemos umas dez. Aí ele,”Baixo, vou experimentar uma coisa, você topa?” “Topo. Faça.” “Vou tirar a dentadura.” “Baixo, ficou ótimo, ótimo!” [risos] Com Lima também aconteceu uma coisa incrível. Eu usava muito o Lima no Móbile. Uma vez eu disse assim, “Mineiro, grave um texto do Guimarães Rosa.” “E a parte de imagem?” De tardinha eu disse, “Mineiro, não tem parte de imagem, vou usar os bonecos que trouxeram de Minas, vasos. Vou usar isso de imagem.” “Tudo bem.” Três meses depois, “Mineiro, vou precisar de você, hoje.” Ele disse: “Não vou poder, Baixo. Você não tem aqueles bonecos, aquelas coisas?” [risos]
Tacioli  E no Móbile passou alguém ligado à música, Baixo?
Faro  Todo mundo de música, todo mundo. Com o balé da Marika [n.e. Marika Gidaldi, fundadora do Balé Stagium]… Como se chama o balé da Marika?
Analu  Stagium.
Faro  Stagium. A Marika era muito dócil. Cheguei e disse, “Marikinha, você pode fazer um negócio pra mim?” Levei-a pra lá e ela estranhou, porque o balé é sempre para um palco, uma visão italiana da coisa, você tem que ficar de frente e ver o balé. Eu pus uma câmera de frente, uma do lado e uma atrás. Não sei o que houve, mas naquele dia havia três câmeras. Chamei o César Mariano – vivíamos muito junto. “Cezinha, você lembra de uma musiquinha, de um teminha que você me mostrou no violão?” “Lembro.” “Quero que você toque pra mim.” “Pra quê?” “Não, toque!”. Quando entrou o balé, fiz sinal para o César, que começou a tocar o teminha. O Balé não ouvia, ninguém ouvia. Ele acabou de tocar. Peguei o Balé, que tinha a sua trilha. Pus um texto, não sei se foi do Becket, não me lembro. Depois o teminha do César, e voltei com o tema do balé no final do programa, uma hora depois. A Marika, “Baixo, que coisa fantástica que você fez!” “Pô, pensei que você não fosse gostar!” Ela havia feito uma marcação toda para a frente… mas ela gostou.

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