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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 7/15

Mas que merda de cantor! Chamem o Nelson Gonçalves!

Seabra – Você era repórter de geral?
Faro  Não, eu era o diretor do jornal. Isso durou dois anos. Até que cheguei para o Rizini e disse: “Rizini, não quero mais.” “Mas você não pode parar!” “Não, não quero.” Não agüentava fazer aquele caminho – da minha casa, passar pela rua das Palmeiras. Não agüentava! E ele dizia: “Faro, você não pode sair da televisão, você tem que… A gente conversa amanhã.” No dia seguinte ele foi lá com uma cartinha e disse assim: “Entregue para o Cassiano, lá na Tupi”. Levei a carta para o Cassiano [n.e. Um dos nomes mais importantes da televisão brasileira, o paulistano Cassiano Gabus Mendes, 1927-1993, foi diretor artístico da TV Tupi e também autor de famosas novelas como Beto Rockfeller, Locomotivas, Plumas e Paetês, Brega e Chique, Que Rei Sou Eu? e O Mapa da Mina]. Cheguei lá, “Seu Cassiano!” “Fala, Baixinho.” “Tenho uma carta para você.” Ele pegou, olhou a assinatura da carta, Edmundo Monteiro [n.e. Diretor das Emissoras e Diários Associados, São Paulo] [imita o Cassiano amassando a carta]. “Lima e Dionísio já me falaram de você. Então, vamos fazer o seguinte: você vai fazer um teste, um contrato de 3 meses. Você vai fazer TV de Vanguarda” [n.e. Programa dirigido por Faro e que levou pela primeira vez para a TV brasileira Genet, Kafka, André Gide, Thomas Mann]. Alguém lembra do TV de Vanguarda? Foi um programa de muita repercussão.
Max Eluard  Mas o programa era musical?
Faro  Não, não! Teatro. Fazia o TV de Vanguarda. “O que é que eu faço?””O que você quiser!” Aí peguei o Érico Veríssimo, O tempo e o vento, uma parte em que uma mulher se transforma em lagartixa, uma coisa assim. Aí, fiz aquilo. O espetáculo foi no domingo, na segunda-feira cheguei na TV Tupi, lá no Sumaré, “O Zezinho quer falar com você.” O Zezinho era o gerente. Pensei, “Pô, acho que me ferrei”. Cheguei lá, e ele: “Tenho aqui um contrato de dois anos que o Cassiano mandou.” Aí assinei o contrato e passei a fazer o TV de Vanguarda. Teve um tempo em que fiquei muito influenciado pelo pessoal do noveau roman francês. A Marguerite Duras, o Rob-Grie, que era uma coisa fria. “A sala mede oito metros por três. Há uma estante…” Uma coisa fria, de arquiteto. “O jardim que leva à casa tem não-sei-quantos metros…” Aí imaginei um negócio e fiz, porque haviam me dito, “Faça o que você quiser!” Imaginei uma peça chamada Triângulo, que era um casal e um amante. Eram três atos. Só que cada ato era contado ora pelo ponto de vista do marido, ora da mulher, ora do amante. Era uma linguagem… eu ficava meio assustado. Aí, o Severino, que era o diretor comercial, chegou para o Cassiano e disse, “Baixo, não dá para o Faro fazer o Vanguarda, não. Ele é muito complicado!” Aí, o Cassiano disse, “Tudo bem.” E inventou o negócio de musical. Comecei a fazê-lo. O primeiro musical que fiz foi um programa com a Norma Bengell. Depois que terminou o tempo com a Norma Bengell (um mês), fiz outro com a Alaíde Costa. Aí fiz um que era uma espécie de Fantástico, coisa assim. Era um programa que o Fernando Barbosa Lima fazia e que se chamava “É Wallig”. Você se lembra dessa marca de fogão? Wallig. “É Wallig, o espetáculo”, apresentado por uma mulher maravilhosa, a Helena Ignez. Uma mulher incrível! [n.e. Atriz baiana nascida em 1942 considerada a musa do Cinema Marginal]
Analu  Que foi atriz de cinema também…
Faro  É, qualquer coisa, qualquer texto ela…
Seabra – Esposa do Bressane
Faro  É, esposa do Bressane. Então passei a fazer isso. No comecinho da televisão, fiz um musical chamado Hora de bossa [n.e. Programa dominical, ao vivo], com as coisas da bossa nova e tudo. O pessoal ligava, “Mas que merda de cantor! Que merda de música!” “Chamem o Nelson Gonçalves, o Orlando Silva! Chamem um cara legal para cantar!” Mas eu fiz.
Tacioli  Tudo em São Paulo, Faro?
Faro  Tudo em São Paulo, na Tupi.

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