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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 6/15

E o Ensaio começou assim...

Max Eluard  Mas e a música, Faro?
Faro  Baixo, a música entrou de uma forma! Quando saí da Paulista, depois que fiz aquele teatro do “Inácio Brinquinho”, fui para o jornal, porque o Costinha chegou e disse, “Figura, não dá para te trazer para o Artístico, porque ele está sobrecarregado de gente. Mas vai começar um telejornal aqui, dirigido pelo Rizini.” Carlos Rizini era diretor dos Diários. O telejornal era apresentado, entre outros, pelo Evaldo de Almeida Pinto. Você se lembra dele? Evaldo de Almeida Pinto era um que cortejava o Jânio [Quadros]. Mauro Guimarães também trabalhava lá. E fiquei no jornal. Um dia, disse, “Costinha, já estou há três meses no jornal. Não vou sair? Não venho mais para cá!” “Falo com o Rizini amanhã, Figura!” No dia seguinte, “Figura, falei com o Rizini e ele disse que de forma alguma você sai do jornal. Ele viu um texto seu anteontem…” Nesse texto eu usei uma maldita palavra, “na salvaguarda de seus direitos”. Salvaguarda! Não se usa mais essa palavra! Aí ele me pôs como editor-chefe do jornal. [risos] Então tive que ficar, mas não queria mais o jornal. Naquele tempo existiam dois bandidos aqui em São Paulo, o Promessinha e o Jorginho. Lembram-se?
Analu – Quem?
Faro  Promessinha e Jorginho. 1959, por aí. [n.e. O bandido paulista Antonio ‘Promessinha’ Rossini teve sua vida retratada no filme Cidade ameaçada (1960), do diretor Roberto Farias, com Reginaldo Faria, Jardel Filho, Eva Wilma, Pedro Paulo Hathayer, Ana Maria Nabuco e Milton Gonçalves]. Eu ficava no jornal e depois saía. Pegava um rapaz que era cinegrafista, e íamos procurar o Promessinha e o Jorginho. Eu era muito amigo da família Zumbano. Você conheceu o Tonico Zumbano? Ralph? [n.e. Pugilista e treinador, Ralph Zumbano morreu em 2001, aos 76 anos. Disputou os Jogos Olímpicos de 1948, em Londres, na categoria peso leve, quando conquistou a 5ª colocação e foi campeão brasileiro e sul-americano na mesma categoria. Também descobriu Adílson Maguila] E o Éder?
Max Eluard  Éder?
Faro  Éder Jofre, não? [n.e. Campeão mundial de peso-galo]
Max Eluard – Ah, Éder Jofre! [risos]
Faro – 
Éder era sobrinho do Ralph e do Tonico. O Tonico era peso médio, um cara forte, não gostava de ringue, o negócio era na rua. E brigava… O Tonico tinha um chaveiro. Eu chegava no chaveiro e dizia assim, “Tonico…” E ele, “O que cê quer, baiano?” “Tonico, preciso ver se acho o Promessinha. Não quero entregá-lo para a Polícia, só quero entrevistá-lo.” “Ô baiano, não vou me meter nisso!” “Pô, Tonico, me ajuda!” “Tem um cara aqui…” Aí, chamou o Gibi, que era um outro pugilista, campeão dos leves, um crioulo que não era muito articulado. Você chegava e dizia assim, “Ô Gibi, vamos ganhar essa luta!”. E ele, “É…” Só dizia isso. “E aí, Gibi, como vai ser?” “É…” Rapaz, o Tonico disse, “Tem que ser com o Gibi!”. O Gibi era ligado nesses negócios de maconha, dos fumos, das drogas. Aí o Gibi e o Tonico me ajudavam. Eu saía do jornal às 23h30, meia-noite, pegava o jipinho da televisão e íamos aos encontros que o Gibi havia marcado. Por duas vezes perdi o encontro. A gente chegava e o cara, “Pô, Gibi, agora que você chega, o cara saiu faz dois minutos!” Então, não deu certo. Nesse meio tempo, eu tinha um amigo chamado Nelson Gato. Já ouviram falar dele, o Gatinho, que era chefe de reportagem policial da Última Hora? O Gatinho dizia assim, “Baixo, deixa o seu cinegrafista comigo, porque vou pegar o Promessinha.” E, Baixo, foi ele quem pegou o Promessinha. Aquilo saiu nos jornais. Tinha um pessoal que não gostava do Gato. Na fotografia do Última Hora, o Gato aparece dando uma gravata no Promessinha. [risos] Perdi, perdi. Ficou o Jorginho. Estou no jornal um dia, chega um cara e diz assim, “Olha, o Jorginho foi preso lá na Vila Maria. O pessoal da polícia chegou e ele estava jogando bolinha de gude. Ficou jogando da uma às sete da noite. E às sete da noite o pessoal da polícia, que estava disfarçado como pessoal da telefônica, foi lá e o prendeu. Ele está no DEIC, ali na…” Onde era o DOPS?
Analu  No Bom Retiro, não?
Faro  Não! Aqui…
Max Eluard – Ali perto da Júlio Prestes
Analu
 – Então!
Faro  Isso, na Júlio Prestes. Aí fomos lá fazer um negócio com ele. Quando cheguei lá, a primeira coisa que ele me falou foi, “Eu conheço você.” Eu disse, “Eu não te conheço.” “Eu quase te apaguei ontem.” “Por quê, Jorge?” “Você chegou no meu barraco!” Eu havia ido à favela do Vergueiro, era uma pista que haviam me dado sobre o Jorge, aquele barraco. Estava a luz acesa, fui e bati na porta. Ninguém atendeu. Dei a volta pelo fundos, ninguém atendeu, também. Aí ele disse, “Eu estava lá!”. A primeira pergunta que fiz para ele… “E o japonês quitandeiro? Você passou com o carro por cima dele?” Ele diz, “Passei, uai, ele já tava morto!” Era um cara de uma frieza! Eu ficava perguntando para ele, e como a cela é uma cela, ele ficava do lado de lá. Dei o microfone pra ele e gravava fora. Aí começou esse negócio do Ensaio. Pensei: dá para fazer assim. [n.e. Além da iluminação e dos closes, o programa tem como uma de suas principais marcas a ausência do áudio e da imagem de Fernando Faro, que faz as perguntas ao artista]

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