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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 5/15

Meu primeiro emprego foi num jornal comunista

Max Eluard  O seu grande trabalho é na televisão.
Faro
 É.
Max Eluard  Você nasceu em Laranjeiras. A televisão chegou lá outro dia. Como? Qual é a relação da televisão com Laranjeiras?
Faro  Baixo, não tem. A relação da televisão com Laranjeiras é a seguinte: eu lia muito lá, lia mesmo. Lia Tarzan, lia um cara chamado Carl May, aquelas histórias… Li todo José de Alencar. Quando saí de lá eu tinha mania de escrever. Depois da escola, fui trabalhar num jornal chamado Notícias de Hoje, que era um jornal comunista. Depois fui para o Noite, que era outro jornal de São Paulo. Depois em outro jornal e numa porção… Jornal da Tarde, Veja, Istoé. Mas nesse comecinho passei a ser uma espécie de colunista de teatro e cinema. Essa coisa do teatro e do cinema me marcou muito, me encantou muito. Comecei e foi quando começou também esse negócio de televisão.
Seabra  Nos anos 50?
Faro  É. Isso foi nos anos 50.
Analu  Aí você já estava em São Paulo?
Faro  (silêncio) Qual era a data? [risos]
Analu – Não a data, mas você já era adulto quando veio para São Paulo.
Faro 
Já.
Analu – Mas que experiência você já tinha de teatro e cinema em Laranjeiras?
Faro
– Nada. Não tinha experiência nenhuma com teatro e cinema! Outro dia eu estava conversando com o Antunes Filho e aí ele disse assim, “Baixo, não me desafie que eu publico aquelas coisas que você escreveu sobre o Claudel! Como você pôde elogiar um cara daquele? Eu ainda vou publicar aquilo!” Paul Claudel! [n.e. Poeta, escritor católico e diplomata do Estado francês, 1868-1955, e irmão caçula da escultora Camille Claudel, amante de Auguste Rodin] Sobre esse negócio de teatro e cinema eu tinha um amigo que me marcou demais chamado Ruggero Jacobbi. Daquela leva do TBC [Teatro Brasileiro de Comédia] veio o Ruggero Jacobbi. Ele tinha uma cabeça incrível, polifônica, entende? Tudo ele tinha ali. Lembro que uma vez ele foi almoçar em minha casa e ficou na janela. Ele fez o quê? Presença de Anita [n.e. Película de 1951 baseada no romance homônimo de Mario Donato, com Antonieta Morineau, Orlando Vilar, Vera Nunes, Armando Couto, Henriette Morineau, Ana Luz] foi o filme que ele dirigiu. Fez outros também para a Vera Cruz. Por qual companhia que ele fez Presença de Anita?
Analu  Multifilmes?
Faro  Não, aquela outra…
Seabra  Não é a Maristela, não?
Faro Maristela! [n.e. Cinematográfica Maristela, companhia paulista que, entre 1950-58, produziu ou coproduziu 24 filmes de diretores como Ruggero Jacobbi e Carlos Hugo Christensen]. Então o Ruggero fazia um teatro na Tupi que se chamava Teatro das Segundas-Feiras e muitas vezes ele me pedia o roteiro. Lembro-me que uma das primeiras coisas que fiz foi um monólogo do Tchékhov chamado “O mal que faz o fumo”, que é de um cara que vai fazer uma conferência e diz “Não fumem que faz mal”. Vai falando, falando e termina assim, “Eu estou falando isso para vocês, mas eu fumo. Minha mulher não chegou, né? Eu fumo!” [risos] Aquelas coisas do Tchékhov. Tem outra dele que eu adorava, que é de um cara que ia assistir a uma peça de teatro e, de repente, ele espirra. Na frente dele está um casal, cujo senhor era um policial. E ele, “Desculpe, salpiquei no senhor?” “Não, não.” “O senhor está querendo ser delicado, salpicou no senhor.” “Não, não salpicou”. Aí fica aquela discussão terrível! [risos] Tchékhov!

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