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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 3/15

O Marçal tlocava a letla!

Ana Costa Santos (Analu) – Quais discos?
Faro  Com o Marçalzinho, você o conhece? É o Marçal cantando as coisas do pai e do padrinho dele, o Bide [n.e. Marçal interpreta Bide e Marçal, EMI-Odeon, 1978].
Tacioli  Saiu pela Som Livre?
Faro – Não. Gravei na Odeon. Foi uma história engraçada! Como se chamava o diretor da Odeon? Milton Miranda. “Quero fazer um disco com o Marçal!” Eu estava impressionado com aqueles discos de fim de ano, que você põe na vitrola e o pessoal fica dançando e tocando junto. Aí ele disse assim, “Eu não estou preocupado com isso! É o seguinte: terminou o contrato do Paulinho da Viola. Quero saber se ele vai continuar na Odeon.” E eu disse, “Milton, vamos fazer o disco do Marçal!” “Deixe-me resolver isso, esse negócio está na minha cabeça.” Aí, de noite… “Paulo [Paulinho da Viola], você vai sair da Odeon? Diga sim ou não.” “Ah, Baixo, não vou sair, não. Dá muito trabalho, papelada! [risos] Não vou sair!” No dia seguinte fui na Odeon. “Milton, o Paulo não vai sair da gravadora. Vamos fazer o disco do Marçal?” “Vamos, Baixo! O que você quer?” “Quero o Nelsinho do Trombone, quero o Regional do Canhoto”, estavam todos vivos. Aí comecei a fazer o disco com o Marçal. Lembro-me que tinha uma coisa engraçada. O Marçal “tlocava letla”. [risos] Ele começava a cantar e eu dizia para o Dino. “Temos que consertar!” Aí fazíamos ele gravar só a partezinha em que ele “tlocava a letla”. “A Plimeira…”. “A primeira, a primeira, Marçal!” [risos] Ele ficava, “Prrrrrrri, prrrrrrri”. Gravávamos somente a palavra e substituíamos. Gravamos o disco e fomos para o coro. Cheguei para o Milton e disse, “Milton, tenho uma idéia para o coro. Vou chamar os caras que o Marçal acompanhou durante a vida toda. Por exemplo, Milton [Nascimento], Chico [Buarque], Paulinho [da Viola], Martinho [da Vila], João Nogueira, Clara [Nunes]. Todo mundo!” “Pô, Baixo, você está louco? A gente não vai ter dinheiro pra pagar isso!” Eu disse, “Não, eles vão receber cachê de coro, de músico normal!” “Ah, é?!” Era uma segunda-feira. Eu saí dali e liguei para todos. Quarta-feira, nove horas da noite começa a chegar o pessoal no estúdio da Odeon – como se chama a rua de Botafogo onde fica a EMI? Nove horas da noite e começa a chegar o pessoal. Nunca vi tanto diretor da Odeon junto! [risos] Não tinha nem fotógrafo para registrar isso! Então, foi esse pessoal que cantou. Eu ia abrir o disco com uma música chamada “Agora é cinza”. Aí, de cara, pintou um grilo que o Chico levantou. “Baixo, é ‘agora é cinza’ ou ‘agora é cinzas’?” Cinzas de Quarta-feira de Cinzas. Eu disse, “Não, Baixo, é cinza, mesmo!” Depois, mais para a frente, o Paulinho levantou outra dúvida a respeito de um samba do Marçal – você conhece esse samba? [canta] “Você partiu, saudade me deixou” – que era “Barão das Cabrochas”. [segue cantando] “‘Contlolo’ a escola no surdo do Bola / lá em cima o rei pequeno sou eu…” [risos] Aí, o Paulinho chega, “Baixo, acho que a letra está errada. Não é ‘rei pequeno’, é repiqueiro!” Que até faz mais sentido. “Lá em cima o repiqueiro sou eu / Barão das cabrochas luminoso.” “Paulo, não posso ter errado! Vou ter que refazer o disco!” “Não, mas eu estive com um amigo do Bide que cantava assim!” Fui pegar a gravação original que é dos Quatro Ases e um Curinga. Cheguei para o Paulo e disse, “Ouça, porra!” [risos] Era “Lá em cima o rei pequeno sou eu”. Nove horas da noite começa a chegar o pessoal.

Capa do LP Marçal interpreta Bide e Marçal, de 1978. Foto: reprodução

Tacioli  Esse foi um disco. Qual foi o outro?
Faro  Fiz o disco da Clementina, esse do Marçal e da Célia, a Célia gorda. “Mangueira, onde é que estão os tamborins, ó nega”. Fiz um disco com ela [n.e. Célia, álbum lançado pela Continental em 1977 com obras de ilustres sambistas, como Bide & Marçal, Wilson Batista, Ataulfo Alves, entre outros], e aconteceu uma coisa curiosa. Pela primeira vez o Cristóvão Bastos comandou musicalmente o disco. “Cristóvão, é com você!” “Mas, Baixo, nunca fiz isso!” “Mas é você, não me interessa. Amanhã no estúdio é você! [risos] Aí ele foi fazendo. Eu chegava e falava para ele, “Não, Baixo, não faz harmonia no piano. Quero percussão no piano, faça percussão como o Nono fazia, como os caras antigos faziam. Percussão!” E ele fazia. Tem uma música daquele cara que se atirou do morro – Assis Valente – em que aparece bem esse piano, que é a última do disco [n.e. “Minha embaixada chegou”]. Ficou legal, porque misturou com tamborim. Uma coisa percussiva!

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