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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 2/15

Quero montar uma televisão, respondi ao Boni

Tacioli – Que imagem você construiu dele depois de sua morte?
Faro – Fui para a Globo em 76, 77, e foi um negócio assim: saí da Cultura e o pessoal da Tupi foi em cima de mim. Saí da Cultura de manhã e à tarde o pessoal da Tupi já estava lá. Aí eu disse: “Tudo bem, vamos acertar o negócio de dinheiro!” Mas me disseram, “Tem um problema jurídico, porque você era da Tupi e saiu.” Esqueci o nome do cara – era o genro do Oliveira que estava no Guarujá de férias. “Baixo, hoje é segunda, quarta-feira ele está de volta.” Quarta me procuraram e, “Não, ele vai estar de volta na sexta.” Na sexta me procuraram, “Não vai ser hoje, ele volta na segunda.” “Tudo bem!” Na sexta à noite ligou para mim um cara chamado Luiz Guimarães. Alguém sabe quem é? Era o diretor da Globo aqui em São Paulo [n.e. Nos anos 1950, Luiz Guimarães foi locutor de futebol e apresentador de programas na TV Paulista, canal 5]. “Baixinho, é o seguinte: o Boni queria conversar com você. Você pode ir lá?” “Posso. Quando?” “Segunda-feira. Vou marcar com ele às 11 horas.” Fui lá e o Boni disse assim, “Pô, Baixinho, você saiu da Cultura! O que você quer da vida?” “Quero montar uma televisão!” “Estou com você nisso!” Aí, Baixo, eu disse assim, “Já andei pensando em Taubaté, Aparecida, esses lugares assim.” “Deixa! Aqui tem um cara de marketing que vai cuidar disso! É o Amazonas!”
Max Eluard – É o Marcos Amazonas?
Faro – Não é o Amazonas da Cultura, acho que era o pai do Marcos Amazonas. “Tudo bem, Boni!” “Não se preocupe com esse negócio de dinheiro, porque a Globo financia tudo. Financia, não, ela dá tudo! Dá a construção, dá o equipamento, dá tudo!” No dia seguinte, chego à minha sala, e em cima da mesa está uma espécie de mapa. Tudo do Boni é assim, um estudo. E ele chegou, “Poxa, Baixo, isso que você pensou de Aparecida é o cocô do cavalo do bandido. O negócio é Guarujá, Santos! Foi feito um estudo aqui. Aí ficamos em cima desse negócio de Santos.” Ele continuou. “Escuta, enquanto a gente não resolve esse negócio da televisão, você não quer vir trabalhar comigo?” “Eu? Mas como é?” “Quanto você quer?” Fiz as contas: o dinheiro da Cultura, multipliquei por dois. Pedi hotel, pedi passagem. [risos] “Boni, é tanto!” E o pessoal da Tupi me esperando. Ele me disse, “Está valendo a partir de agora!” Aí comecei a trabalhar na Globo. “Dê uma olhada por aí, depois a gente vê o que você vai fazer.” Aí eu fui… Uma reunião do Fantástico que presenciei me doeu à beça, Baixo, porque encontrei um cara que era um ídolo, um deus para mim, o Costa Lima, Demerval Costa Lima, todo-poderoso, que fundou a Nacional, a Globo em São Paulo (TV Paulista). E o Costa Lima, magro, “Ô figura!” – ele chamava todo mundo de “figura”. “Ô figura, como é que é?” “Tô bem, Costinha.” E fiquei assistindo a reunião meio de fora. E, Baixo, qualquer palpite que o Costinha dava, os caras, “Não Costinha, deixa pra lá, não dá palpite aqui!” Aquilo me deixou… O que é a vida, o cara coberto de glória, e de repente, não é ninguém. Aí fiquei vendo o Fantástico. Quatro meses depois, o Boni chegou e disse, “Baixo, e aí?” “O que você quiser!” [risos] “Não, mas você pensou em alguma coisa?” “Pensei. Pensei em fazer um negócio chamado Levanta poeira!” “Pô, Baixinho, me dá este título! Você vai fazer a Sexta Super!” O Sexta Super [n.e. Programa semanal apresentado por atores da Globo e que tentava mostrar os diferentes ritmos regionais da música brasileira] era um programa que o Vanucci [n.e. Augusto César Vanucci, morto em 1991] fazia, não sei se vocês lembram. Eu disse, “Tudo bem, o título é seu!” Aí ele chamou a Clara Nunes para fazer o programa. Ela disse, “Eu faço somente se o Faro dirigir!” “O Faro não pode, porque ele vai cuidar da Sexta Super”. No final ele pôs a Alcione. Lembram disso? A Alcione apresentando um programa da Globo? E com o Boni fiquei fazendo a Sexta Super e dois programas chamados Caso Especial, fiz um especial com o Milton e aí fiz dois discos ótimos.

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