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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 1/15

Quem vai ser meu pai agora?

[Enquanto a equipe prepara os equipamentos de gravação]

Sérgio Seabra – Esse gol do Alex você viu?
Ricardo Tacioli – Eu não vi esse, não!
Max Eluard – Como corintiano, eu tive de engolir.

Seabra – Eu, como são-paulino, bati palmas.
Fernando Faro –
 Mas foi um gol fantástico! De chaleira, cobriu o Ceni… [n.e. Jogo válido pela primeira fase do torneio Rio-São Paulo, em que o Palmeiras venceu o São Paulo por 4 a 2]
Max Eluard – Impressionante!

Lillian Aidar – Tinha um caderno aí? Ah, está aqui!
Tacioli – Baixinho, preciso colocar o microfone na sua lapela.
Max Eluard – Fico com o fone.
Lillian – Faro, você lembre dele? (apontando para o Tacioli)
Faro –
Lembro.
Lillian – De onde?
Faro 
Da Unicamp.
Lillian – Ele te entrevistou não tem um mês sobre a Clementina de Jesus.
Faro
Ah, Clementina!
Lillian – (…) para a revista Bravo!
Faro
Acho que dá para colocar por baixo.
Max Eluard – Então, Baixo, fale um pouco de Laranjeiras.
Faro –
Alô, alô, alô!
Tacioli – Está pegando?
Faro
 Alô!
Tacioli
 – Max, você pode ficar embaixo, como o Baixo faz.
Faro –
 Como o pessoal do Dadá [n.e. referência ao movimento artístico Dadaísmo, do início do século XX] dizia: “Abaixo o Dadá, viva a vida!”. [risos] Baixo, está saindo o som?
Max Eluard – Tá, tá ótimo! Até os cachorros…
Faro –
Os cachorros são backing (vocal).
Max Eluard – São seus?
Faro –
São.
Max Eluard – Qual a raça?
Faro –
Uma pastor chamada Liv Ullman. Lembra da Liv Ullman? [n.e. Atriz e diretora sueca, 1938, uma das musas de Ingmar Bergman]
Max Eluard – Que maravilhosa aquela sueca!

Faro – Não, essa é alemã.
Max Eluard – Ah, ela é alemã?
Faro – A pastora? É!
Max Eluard – Não, Baixo, estou falando da Liv Ullman! [risos]
Faro – A Ana começou a beber? O que é?
Max Eluard – Cuba libre!
Lillian – (da cozinha) Quer uma Coca?
Faro –
Não!
Tacioli – A hora que quiser…
Max Eluard  Então, Baixo, fale um pouco de Laranjeiras…

Fernando Faro – Bom, eu acho que a primeira lembrança, a primeira imagem que tenho do mundo é de Laranjeiras. Ali na Rua Direita, número 8, onde ficava o sobrado, sobrado que tinha aquela janela que dava para o Morro do Cruzeiro, um morro assombrado! Lembro que minha mãe chegava e dizia assim, “Menino, está na hora de dormir! Se você não for dormir agora, a Maria das Mantas vem te pegar!”. Não sei quem é a Maria das Mantas, mas sei que é uma figura encantada, uma feiticeira que aparecia por trás do Cruzeiro do morro. Então, vamos dormir. Lembro também dessa janela. Lembro que uma vez, na festa de São João, bem pequeno, fui acender uma estrelinha – sabem estrelinha? – e uma gota da estrelinha caiu no bolso do paletó do meu pijama, que estava cheio de fogos. Aí, de repente, aquela fogueira, aquela labareda. [risos] Minha mãe correu, me abraçou e apagou o fogo com o corpo dela. Você se lembra da rua em frente ao sobrado, que dá para o Cruzeiro?
Max Eluard – Que dá para o mercado, perto do rio?
Faro – Não, é uma rua na direção do Cruzeiro, saindo da rua Direita. Lembro que uma vez tinha um monte de gente lá e eu desci pra ver – tudo isso é coisa que não sei se tem importância, mas pra mim, tem. Cheguei lá, rapaz, era uma casinha que não tinha nem quarto e nem sala. Era uma sala que era quarto! E havia uma mulher deitada, passando mal. Você sabe o que é arupemba? Aquele cesto que usam para coar coisas. Eu me lembro de duas mulheres que ficavam em volta abanando-a com a arupemba e aquilo me deixou aflito à beça. Voltei correndo para o sobrado. De noite me disseram que a mulher havia morrido. Mas foi uma coisa… e eu estava lá.
Max Eluard – E foi a primeira vez que você chegou perto da morte?
Faro – Não, a primeira vez foi a do meu pai, quando ele morreu, fui no quarto da minha tia.

O time de futebol de Laranjeiras. Abílio Faro, pai de Fernando, é o primeiro da dir. p/ esq. da turma do meio. Foto: reprodução

Max Eluard – Você tinha quantos anos?
Faro – Ah, eu já era… Eu já tinha dois anos.
Max Eluard – Você lembra?
Faro – Eu me lembro que cheguei no quarto da minha tia e havia um pessoal. Olhei. Estava a cama e o corpo do meu pai. E eu perguntei: “Quem vai ser meu pai agora?”
Seabra – Mas você tem essa memória de dois anos de idade?
Faro – Tenho. Por exemplo, ali naquela foto [n.e. Aponta para um quadro com a imagem de um time de futebol de Laranjeiras, integrado por seu pai], eu lembro dele no posto de pesagem. Chovia, ele me agarrando – esse calor – e me levando para a casa do engenho. O cavalo que desembestou… Você conhece cavalo-passarinheiro, aquele que se assusta com o nada? O cavalo desembestou e ele se atirou comigo no colo. Lembro disso, desse calor! Não lembro como era a mão dele, como era o rosto. Não me lembro. Quer dizer, agora lembro-me mais ou menos. Acho que ele devia ser um pouquinho mais alto, talvez.

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