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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 15/15

Preservação da memória é sobrevivência

Max Eluard  Faro, só mais uma pergunta: do seu trabalho, o que você acha que vai ficar pra música? Qual é o seu legado pra música?
Faro  Todo esse trabalho que eu fiz com o MPB Especial, com o Ensaio, com os discos, com os teatros. Tudo isso eu acho que vai ficar. O Ensaio, o MPB são uma maneira mais aberta, clara, um registro da música popular brasileira importante, acho. Nos teatros eu sempre usei temas brasileiros e música brasileira. Dia desse estava lembrando de um teatro que eu fiz, acho que foi no (canal) 2, chamado Acidente em Sumaúma, do José Jacinto da Veiga, J. J. Veiga, e eu pus um cara chamado Walter Franco [risos] fazendo a trilha. E um dia desses eu peguei a fita e escutei. Só tem grito! [risos]
Analu – Você registrava isso em fita?
Lillian  Tem aí o que ele está falando.
Faro
 Tenho.
Analu – Dos teatros, você tem algum registro?
Faro  Eu tenho a fita do “O homem que galopava”, do “O cego”, que eu usei muito no Móbile, do David Herbert Lawrence [n.e. Escritor inglês, 1885-1930], aquele do Lady Chatterley’s Lover. Ele foi um autor que deslocou a ótica da gente, dos românticos até a proximidade… [silêncio] A gente olhava as pessoas, as mãos, e se encantava só de olhar. Ele dizia que tinha que ter um contato tátil, não somente olhos, ouvidos e cheiros. Você tem que tocar. E há contos dele fascinantes. “O cego”, que fiz para a TV, tinha um prólogo mais ou menos como estou te contando. “O cego” é a história de um casal em que aparece um primo da mulher, dando em cima dela. E uma hora, o cego, que era um cego da guerra, que veio mutilado da guerra, com cicatrizes enormes – quem fazia era o Othon Bastos – dizia: “Eu quero te conhecer melhor!” Aí vai tateando e apalpa o cara. “Agora eu sei quem você é! Quero que você me conheça!” Aí ele pega a mão do cara e põe na cicatriz, no rosto, nos olhos dele, e o cara sente tanta repugnância por aquilo que vai para o banheiro vomitar e vai embora. É essa a história. Quando fiz isso, o Abujamra chegou para mim no dia seguinte e disse assim: “Vi seu teatro ontem! Não gostei do prólogo, mas achei a peça ótima!” Meia hora depois ele volta. “Viu seu teatro ontem! Achei o prólogo a coisa mais fantástica que eu já vi na televisão!” [risos] “Mas, Abu, você estava aqui comigo e há meia hora você tinha dito que não gostou do prólogo!” “Falei?” “Falou!” “Eu não tenho nenhum caráter!” [risos]
Max Eluard  Tá bom, então, Baixo…
Analu – Você já fez tanta coisa na televisão. O que você quer fazer ainda?
Faro
 No caso da Cultura, eu acho que a televisão tinha que se aproximar mais do povo. Eu tinha a idéia de fazer um programa – não sei se vou fazer – chamado Hein?! Que é assim: pegar um cara tipo o Manga, do Premê, e “O que você quer saber?” “Hein?!” “O que você quer saber? Se o Chico fez tal música? Peraí. Chico, fala!” Aí entra o vídeo do Chico. “O Pelé não-sei-o-que-lá!” “O Serra?” “Hein?! O que você quer saber? A nossa programação!” Quer dizer, é um negócio quase sem custo. Eu lembro de um programa que eu fiz uma vez, na Cultura, chamado Processo. Quando o cara fica diante da câmera, ele vira uma cópia, um modelo, um clichê. O programa era o seguinte: eu ia ao teatro e o Antunes ensaiando o Arthur Miller. “Não, ensaie!” “Vamos ensaiar, voltem aqui!” Eu gravava esse treco. “Não quero ouvir ninguém. Não quero saber de ninguém!” Gravava isso e botava na televisão. Ia para um corredor e dizia assim: “Olha, você está treinando?” “Estou” Então ele ia dar mais uma volta na pista. Eu gravava essa volta. E punha no ar. Porque era uma coisa de dizer, “Porra, isso não é modelo, não é nada. Isso é a vida!” [pausa] Fazer agora como o Mário de Andrade, “Mais não digo porque o tamanho da folha se acabou”. [risos]
Max Eluard  Tá bom, Baixo!
Lillian  Quer uma Coca?
Faro  Não.
Lillian  Quer um café? A Aninha faz para você. [silêncio]
Max Eluard  Ele não botou fé em seu café. [risos]
Analu  Você quer, Faro? Eu faço.
Lillian  Quer um sanduichinho?
Faro  Não sei, vocês querem um sanduíche? Querem?
Lillian  Gente, fiquei a tarde inteira preparando os lanches.
Max Eluard  A gente não vai fazer essa desfeita.
Lillian  Pelo amor de Deus.
Max Eluard  Faro, posso tirar o microfone?

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