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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 14/15

Escuto um pianinho e descubro que é o Johnny Alf

Analu  Onde você conheceu João Gilberto?
Faro  O João Gilberto? Na Tupi. Havia um programa apresentado pelo Hélio Souto e um dia o João foi participar. Ele chegou cedo – o que é raro – e ficou no estúdio. Ele contou uma historinha que eu acho incrível. Ele disse que na Bahia ele acordava, pegava a bicicleta, ia até Barra, Amaralina, Itapuã e voltava. E um dia, ele estava voltando e viu uma construção. Parou para descansar. Aí tinha um menino trabalhando lá. “O que você faz?” “Sou ajudante de pedreiro.” “Quanto você ganha?” “Ganho 5 mil réis por mês.” “E como é o seu nome?” “Gonçalves!” E o João disse, “Me deu vontade de chorar. Como um menino de 12 anos pode se chamar Gonçalves?! Tinha que se chamar Zezinho, Toinho!” [risos] Foi assim que conheci o João. Depois mil encontros e tudo, até que eu o trouxe para inaugurar o Tom Brasil.
Seabra  Voltando um pouco à questão do Ricardo, da música de qualidade. A impressão que se tem hoje é que existe muita música comercial, para se vender, e se tem pouco acesso ao outro tipo de música. Essa é uma impressão que se tinha também há 30 anos? Ou você não concorda com essa minha impressão? 
Faro  Sempre existiu. Agora, a mim dói muito quando eu entro em um boteco, escuto um pianinho, olho e descubro que o cara que está tocando é o Johnny Alf, que está lá, escondido, apagado. Esse negócio da gravadora não querer gravar com o Johnny… Não quis gravar o Tom Jobim. Tom não gravava no Brasil. Os Estados Unidos pediam para a Philips gravar com ele. João Gilberto ficou sem gravar um tempão! E de repente, “Chega de saudade” estoura. “Eu e a brisa”, do Johnny, um sucessão. Mas não é sucesso bastante para apagar essa coisa injusta. O Johnny foi um dos fundadores da bossa nova. O Johnny do Bar do Plaza [n.e. Localizado no Hotel Plaza, em Copacabana, um dos locais mais disputados da noite carioca nos anos 1950. Johnny Alf era o pianista e lá apresentou suas composições como “Rapaz de bem” e “Céu e mar”. O Bar era freqüentado por Tom Jobim, João Donato, Baden Powell, Dolores Duran, Carlos Lyra e Sylvinha Teles]. O Johnny Alf que tinha saído do Sinatra-Farney Fan Club. Naquele tempo ainda não tinha nem João. João era João Ninguém, que ia na boate do pessoal, “Olha que engraçado aquele rapaz!”
Tacioli  Crooner?
Faro  Crooner? Ainda não. Esse negócio de crooner que ele está dizendo é o seguinte: tinha um conjunto chamado Garotos da Lua [n.e. Formado em 1946, Os Garotos da Lua era composto por Jonas Silva, Acyr Bastos Mello, Milton Silva, Alvinho Senna e Toninho Botelho], e havia um cara que cantava [n.e. Jonas Silva, dono de uma voz afinada, mas anasalada] – até fez uma música bonita à beça. Mas ele tinha uma vozinha pequena demais e não dava para o conjunto. Aí trouxeram o João da Bahia. E o João tinha uma voz menor do que a dele! [risos]
Lillian Aidar  Quer parar? Quer parar? Você está cansado?
Faro  Não sei, vocês é que sabem!
Max Eluard  Não, estamos a sua disposição.
Faro  Não, vocês precisam mais do que eu.
Max Eluard  Ih! Se deixar a conversa vai longe.
Lillian  Marquem um outro dia então, porque ele já está com os olhinhos vermelhos. E com as bochechas também. [risos]

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