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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 12/15

Onde está a verdade?

Max Eluard  Onde a música mais te realiza, Faro?
Faro  Baixo, eu sempre falo para os alunos “Se eu der duas músicas para vocês, por exemplo, ‘Travessia’ e ‘Índia’, em qual vocês votam?” “Travessia” é um negócio fantástico, os acordes do Milton. É difícil você imaginar que um mineiro que vive numa beira de rio, como o Toninho Horta, pode criar tantos acordes, uma harmonia tão bonita. Mas, de outro lado, você pega uma música chamada “Índia” que o mundo canta. Onde está a verdade? Eu lembro que uma vez a gente ia comprar a Mocambo. Sabe o que é a Mocambo? É um selo de Recife, do Rozenblit. O grupo era formado por mim, pelo Chico, Paulinho, MPB-4, Quarteto em Cy, Toninho Moraes. Disseram, “Faro, você vai cuidar da direção artística”. Aí fomos para Recife, num lugar chamado Afogados. Não tem nada a ver. Afogados. Estou um dia ali e chega o Rozenblit. “Faro, só vim te avisar uma coisa. Está terminando o contrato de fulano de tal.” Raynar, uma coisa assim. “E quem é esse cara, Rozenblit?” “Ele vende 100 mil discos!” “Que maravilha! Traz um disco dele para mim.” Aí ele me deu um disco. O álbum era assim: na capa tinha ele, a mulher e a filha. Ele olhando para a frente, a mulher, meio-grávida, de vestidinho que sobe um pouquinho do joelho. Os três olhando para a câmera. Aí chamei o Elifas, que também era da turma. “Elifas, você precisa dar um jeito nisso aqui! Tem que fazer um visual legal!” “Tudo bem, Baixo!” Chamei o Magro, porque os arranjos eram… sabe aquele órgão antigo? Mais antigo ainda! [risos] Era aquilo! E não era nem uma bateria. “Magro, vamos substituir esse órgão por umas cordas, vamos fazer uns pizzicato!” Aí me deu um estalo. “Não faça nada! Elifas, esqueça! Pô, Baixo, o cara vende 100 mil cópias, e eu venho de São Paulo para cá para dizer a ele o que é bom, o que é ruim! Não, não vou fazer isso! Deixe ele fazer do jeito dele”. Então, acho que música tem que ser na rua. Por que eu fico atrás dos Clóvis? Vocês conhecem os Clóvis?
Tacioli  Clóvis?
Faro  É, Clóvis! Clowns, palhaços!
Analu  Ah, clowns! [risos]
Faro  É, aqui chamam de Clóvis! [risos] Em Campo Grande você os encontra. São aqueles caras que se vestem de preto, muitas vezes de Morte, e saem com as bexigas batendo. E sobre esse negócio de chamá-los Clóvis… Teve um desses viajantes famosos, o Enri Costa, que foi para Pernambuco, e lá o chamavam de Enrique da Costa. Então os Clóvis… Eu acho incrível essa coisa de rua! Quando os caras falam das primeiras escolas, que eram formadas por 30, 50 pessoas, e que você tinha que pôr a corda para que o povo não invadisse e desfigurasse o que eles queriam fazer. Acho fantástico! Acho a rua, o povo, coisas maravilhosas!

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