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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 11/15

Não conheço música, mas eu sinto quando um treco está bom

Max Eluard – Quantos discos você produziu, Faro?
Faro – 
Ih! Disco à beça, Baixo! [silêncio] Dos quais eu me lembro? O primeiro disco da Cristina, o segundo, o terceiro. O primeiro disco do Gudin, o disco do Paulo Cesar Pinheiro, a maioria dos discos do Paulinho da Viola, disco do Marçal, da Célia, do Adoniran.
Analu – E da Elis?
Faro  Da Elis… Disco à beça.
Max Eluard  Como nasceu essa relação, de você ser um produtor que não tinha nenhuma formação musical e que…
Faro  É a mesma coisa que dizia a Elis. Chegavam para ela e falavam assim, “Isso tá bom?” “Não, para mim não está bom! Olha, não entendo desses desenhinhos no papel, não entendo nada disso! Mas eu sinto, entende? César, faça um acorde! Não está bom! Faça de novo! Assim está mais legal! Faça mais um!” Então comigo é a mesma coisa. Não sei música, não sei ler as bolinhas [risos], mas eu sinto quando um treco está bom, ou quando um treco não está bom.
Tacioli – Como foi o primeiro disco que você produziu?
Faro  O primeiro disco que fiz, não sei se foi o do Gudin [n.e. Eduardo Gudin, Odeon, 1973] ou o da Cristina Buarque [n.e. Cristina, RCA Victor, 1974]
Tacioli  No início dos anos 70, né?
Faro  Foi nos anos 70. [canta “Quantas lágrimas”, de Manacéa, sucesso na voz de Cristina Buarque, lançado em 1974] “Ah! Quantas lágrimas / Eu tenho derramado”.
Analu  (O LP) não chama Quantas lágrimas…
Faro  Não, o disco chama-se somente Cristina.

Capa do LP Prato e faca (1976), segundo álbum de carreira de Cristina Buarque. Foto: reprodução/IMMB

Seabra  Ao produzir o primeiro disco você já era maduro, cerca de 40 anos…
Faro  Não me lembro. Eu me dava muito bem com o pai dela [n.e. O historiador Sérgio Buarque de Holanda, 1902-1982]. Aliás, o lançamento desse disco ia ser na casa do pai e íamos juntar todo mundo, Cartola, Nelson Cavaquinho, o Manacéa, que foi o autor dessa música. Íamos juntar todo mundo lá. Combinei com o Osmar Zan, que era diretor artístico da RCA. Aí não me deram a notícia. Uns três meses depois escuto no rádio o disco. “Ué, não teve lançamento?!” [risos] Não teve. O pessoal ficou empolgado com o sucesso e começou a tocar acho que num programa do Barros de Alencar. [canta] “Ah! Quantas lágrimas”. O pessoal ficou tão empolgado. “Faro, você tem que fazer um disco só com essas músicas!” Tinha Ismael. Eu disse “Tudo bem”. Aí peguei aqueles caras, Mijinha, Armando Santos [canta] “Pensar em ti? / Pra quê?”. Fiz o disco, o Prato e faca [n.e. Segundo álbum de carreira de Cristina Buarque, lançado em 1976]. Foi o segundo. Aí fiz. Acho que vendeu uns três. [risos] Entende, todo o pessoal da RCA se juntou e falou “Tem que fazer no mesmo estilo!” Aí eu fiz. “Porra, ótimo!” Vendeu três! [risos] Não, o departamento de vendas de gravadora é um treco fantástico!

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