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Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

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Fernando Faro

parte 10/15

Tudo o que o brasileiro fala e faz é brasileiro

Max Eluard  Você teve alguma formação musical?
Faro  Não, nenhuma educação musical. Só rádio.
Max Eluard  Você era um bom ouvinte?
Faro  Sei manejar muito bem aquele aparelho. [risos]
Analu – Você ouvia muito rádio em Laranjeiras?
Faro  Muito. Era só o que tinha para ouvir, rádio e a professora da escola no outro lado da rua. Acho que uma das primeiras músicas que ouvi foi uma do Noel, “Quem é você, que não sabe o que diz” [n.e. “Palpite infeliz”] – que faz parte da polêmica com o Wilson [Batista]. Acho música uma coisa fantástica! Não a música pela música. Por exemplo, com a música daquele tempo, você pode passar todo um contexto, a vida naquele tempo, Getúlio, o feijão, o café.
Max Eluard – E como você vê a música brasileira? Em castas, em categorias?
Faro  Não. Tem um negócio, acho que é o Noel que fala, tudo aquilo que o brasileiro fala é brasileiro, já passou do português. Eu acho que tudo isso que o brasileiro fala é brasileiro. Se ele faz axé, se ele faz música sertaneja, se ele faz música caipira, se ele faz samba, se ele faz partido-alto, se ele faz candomblé, tudo é brasileiro. Agora, claro que neste Brasil você vê marcas. Por exemplo, na cantoria você vê a presença muçulmana, nos baianos você vê o peso malê dos negros.
Max Eluard  E hoje o que a gente vê na música brasileira?
Faro  [silêncio] Olha, Baixo, tem coisas que eu gosto. Eu gosto de um cara chamado Carlinhos Brown, talvez vocês não gostem. Perguntei pra ele, “Como você faz a Timbalada?” “Eu não faço a Timbalada, eu saio, vou para a rua, pego um ônibus e ouço o povo falar, escrevo, vou pra casa e ponho música nisso.” Essa coisa me atrai muito. Eu lembro do Caymmi, com aquela coisa do pregão, aprender o popular, entende? “Ô acarajé e coco!” Sabe essa coisa? Eu acho isso fantástico! Geraldo Pereira, acho incrível! Ele não é um Catulo da Paixão Cearense, não é pernóstico, não é metido a erudito. O Geraldo faz conversa. “Eu também tô aí, tô aí, o que é que há?” Não tem rima, é um papo.
Analu  Você acha que aqui em São Paulo Adoniran fazia uma coisa assim também?
Faro  O Adoniran fazia muito, o Adoniran fazia questão. Forçava, até. O Adoniran ficava em casa no sofá, “Negão, sabe o que é que nóis faz? Nóis num faz é nada!” Chegava pra mim e dizia, “Fala dregau.” “Como dregau, Adoniran? Degrau.” “Degrau você fala, o difícil é falar dregau.” Tudo dele era assim. Lembro que o disco que fiz com ele, ele chegou assim, “Baixo, eu queria que alguém fosse comigo, porque estou velho.” “Tá bom, quem você quer?” Ele tinha acabado de fazer uma música com o Carlinhos Vergueiro que a Clementina havia gravado. Como é que é? “Bife à milanesa”?
Tacioli  “Torresmo à milanesa”!
Faro  “Torresmo à milanesa”! Ele disse assim, “Ah, Baixo, o Carlinhos!” “Tá, o Carlinhos”. Eu ficava na Odeon, gravando e o Adoniran ia todo fim de semana pra lá. Era uma coisa incrível, porque toda vez que ele chegava, “Como é que foi a viagem?” “Ruim, muito buraco.” Era a turbulência no avião. Na outra semana, “Foi horrível a viagem. Paramos 5 vezes para pôr água.” [risos] Vocês lembram daqueles carros antigos que ferviam o radiador? Inclusive, está no disco. A Clara foi cantar, “Iracema nunca mais eu te vi” [n.e. “Iracema”, de Adoniran Barbosa]. Ela acabou de cantar, e ele disse, “Triste, né, Baixo?” “Poxa, você que fez!” Disse isso no disco. Uma vez o Carlinhos Vergueiro contou que ele chegou de uma boite às 6 da manhã, passou pelo quarto dele [Adoniran], olhou, e o velho estava com um copo na mão. “Pô Adoniran, bebendo essa hora?” “É mijo!” [risos] “Pô Adoniran, o banheiro é ali!” “Tive preguiça” [risos]
Tacioli  Baixo, e essa polêmica dele com o Noite Ilustrada, em que você ficou numa situação intermediária…
Faro  Quem?
Tacioli  Adoniran e o Noite Ilustrada sobre o “Bom dia, tristeza”…
Faro  Não sei.
Tacioli  Não teve uma polêmica sobre a autoria da música?
Faro  Não soube, não. A única coisa que sei do “Bom dia, tristeza” é que a Aracy pegou a letra do Vinicius [de Moraes], levou para o Adoniran, que pôs a música. É tudo que eu sei. Como polêmica?
Tacioli  Que o Noite havia feito a letra e passado para o Adoniran…
Faro  Não sabia disso, não. Mas não acredito que o Noite… Ele não ia fazer uma música…

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Noite Ilustrada

Analu  “Bom dia, tristeza” é (inspirada) na Simone Beauvoir?
Faro  Não!
Analu  Como (ela) chama? [silêncio]
Seabra – Memória…
Faro 
Não era memória, não! [risos]
Tacioli – Então não teve polêmica, Baixo?
Faro 
Não, nunca soube disso, não! E olha que eu convivi um bocado com o Noite, principalmente nos últimos tempos [n.e. Faro produziu Perfil de um sambista, lançado pela Trama em 2001].

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