gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Fernando Faro

FernandoFaro-940

Fernando Faro

parte 9/15

Quando faço o Ensaio, tento me comportar como um alquimista

Max Eluard – Nesse experimentalismo todo, tinha uma busca consciente ou você ia na intuição?
Faro  Consciente… Tinha sim. Por exemplo, eu acreditava e acredito muito num negócio chamado cruzamento de mídia, de linguagem. Por que o Joyce? Por que o Lewis Carroll? [n.e. Autor de Alice no país das maravilhas] Por que os Campos, o Décio Pignatari? Eu acho que é desse cruzamento que saem os novos vocábulos, os novos sinais ou não-novos. A linguagem do Joyce, aquela palavra montada, criada. Eu lembro que cheguei e disse que a televisão começou pela mão do rádio. Os calores eram os seguintes: a boa voz, era o cara do rádio que ia falar. Eu lamentava muito, porque achava que devia ser uma outra coisa. O Móbile foi uma tentativa de levar para a televisão as manifestações mais avançadas e… McLaren, Bèjart, Mondrian.
Seabra  Faro, um caminho natural seria você cair no cinema. Isso não aconteceu por absoluta falta de opção de se fazer cinema no país?
Faro  É, sabe por quê? Por que o cinema é uma coisa muito demorada. Você tem que filmar, mandar revelar. Agora não, existem monitores, mas naquele tempo era uma coisa muito complicada. Acho que a gente pode fazer com vídeo. Existem várias experiências de pessoas que fizeram com vídeo e depois kinescoparam, passaram para cinema.
Seabra  Mas naquela época você não tinha o planejamento “Vou fazer cinema”?
Faro  Não tinha em mente, não! E olha que fui assistente do Ruggero, fui assistente do Dionísio num filme rodado em São João da Boa Vista, que eu fiz o roteiro e planejei toda gravação. Marli Bueno vem, Chico Negrão vai, Lima Duarte… essa coisa toda. Então, eu gostava muito de cinema, gosto muito de cinema, mas acho a televisão uma coisa muito mais fácil, prática.
Seabra – Esse nível de experimentação que você teve não poderia ter no cinema
Faro  No cinema! Não ia, nunca, nunca!
Seabra  Curioso ter na TV…
Faro  Quer dizer, existiram caras que fizeram essa experiência. Por exemplo, Andy Warhol. O que ele fez com o cinema, o cara dormindo…
Max Eluard  Só uma questão… Incomoda fumar?
Faro  Não!
Max Eluard – Então, tá. Estava ansioso para acender o cigarro.
Faro – 
Pode fumar, Baixo. Eu fumava charuto até há pouco tempo, aí comecei a tossir e o médico disse, “Você fuma?” “Só charuto.” “Pare, se não quiser ter uma pneumonia.” “Ué, tudo bem, doutor.” [imita o gesto de apagar o charuto] [risos]
Tacioli  Baixinho, esse nível de experimentação que você teve nos anos 60, 70, como você lida com isso hoje na TV? Parece que isso existe muito pouco…
Faro  Não existe, não existe. Por exemplo, quando faço o Ensaio, tento me comportar como se fosse um alquimista. Então, mudo uma luz, uma posição, coisinhas mínimas, mas como os alquimistas: quem quiser ver, verá.
Tacioli  Você considera o Ensaio hoje na TV uma forma de resistência? Dá para ser encarado assim?
Faro  Não sei. Será que não existe essa experimentação na TV hoje?
Tacioli  Eu acho que não, ainda mais com a sua temática…
Faro  É. O Ensaio tem um pouco desse “à vontade”, mas não deixa de ser um estudo, um estudo sobre o compositor, sobre a música. Um estudo de cores, de enquadramento. É um programa que eu gosto de fazer. Aliás, é um conselho que dou para todo mundo: vocês têm que ser apaixonados pelo que fazem, senão tudo fica um encargo muito penoso.
Max Eluard  E qual sua maior paixão, a televisão ou a música?
Tacioli  Ou o futebol? [risos]
Faro  Futebol. [mais risos]
Max Eluard  Já não quis incluir o futebol porque era covardia! [risos] Tirando o futebol, a música ou a TV?
Faro  [silêncio] TV.

Tags
Fernando Faro
Programa Ensaio
de 15