gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Eduardo Gudin

EduardoGudin-940

Eduardo Gudin

parte 8/13

Realizo uma mistura entre o samba e a bossa nova

Dafne Sampaio – Em Luzes da mesma luz tem um pouco de tudo da sua carreira, de sambas tradicionais, de Tom Jobim, mas também um Arrigo, atonalismo…
Gudin – É, tem um Arrigo ali!
Sampaio – Como você trabalha tudo isso?
Gudin – É mais ou menos o que eu faço mesmo, é uma coisa.
Sampaio – Mas são diferentes, não?
Gudin – Mas tem um canal, um vínculo no meio. Na verdade sou o cara que mais realiza uma mistura entre o samba tradicional e a bossa nova. Acho que ninguém faz do jeito que faço. Não de propósito, porque tenho uma paixão grande pelos dois. Normalmente noto nos meus amigos sambistas que eles têm uma distância da bossa nova.
Trentini – Quem são esses amigos?
Gudin – Não é uma distância por não gostar, é uma distância por não ter a discoteca em casa. Por exemplo: Elton Medeiros, Paulinho da Viola, eles têm todos os discos do mundo, mas eu tenho o Luiz Eça & Cordas [n.e. Philips, 1965], e eles não! [risos]
Max Eluard – É questão da formação.
Gudin – Pois é. Tenho lá em casa Bossa Nova York [n.e. Elenco, 1964], do Sérgio Mendes. Só de ouvir reconheço todos os pianistas de bossa. Tenho essa vivência com a bossa nova e ao mesmo tempo com o samba também. Ouvi tudo, tenho tudo e todo mundo. O Nelson Cavaquinho é padrinho de batismo da minha filha. Andava com ele para cima e para baixo. Elton Medeiros é meu amigo, amigo de contar nos dedos, e sua maneira de compor me influenciou muito. Dessa ligação sai uma música entre as duas coisas. Às vezes posso até fazer um samba mais tradicional. Se você pegar o “Verde”, ele não é bossa nova. Mas também não é samba. Mesmo com uma Leila Pinheiro que cantou de forma lenta, mas não é bossa nova. Não tem aquele espírito de bossa nova. Que é a mesma coisa que [canta] “Tristeza não tem fim / Felicidade …”, do Tom, não é bossa nova. Aí é um samba, um samba sofisticado. O Tom traz para esse lado, e eu acho que trabalho um pouco nessa linha. E as canções são canções mesmo. E essa parte com o Arrigo é porque ele tem aquele lado do atonalismo. Ele me propôs fazer uns trabalhos de misturar música atonal com tonal. E nós fizemos o “Ângulos”, que o Caetano pôs a letra, um chamada “Bem bom” que a Gal gravou num disco homônimo, em que toco violão. E aí fizemos valsas. As valsas que faço com ele são normais, não tem nada demais, faço um pedaço, e ele outro. Às vezes não sou nem sambista tradicional, nem bossa nova; uma música assim meio pelo meio.
Almeida – Gudin, as pessoas te chamam para produzir?
Gudin – Não chamam mais. Não chamam mais porque fiquei velho. Não tenho mais “aquela levada”. [risos]
Tacioli – É engraçado, porque o disco que você produziu da Beth Carvalho (Canta o samba de São Paulo, Velas, 1993, volumes 1 e 2) ganhou Prêmio Sharp de melhor disco de samba.
Gudin – Foi, foi, aquele dos sambas, né?
Tacioli – É, cantando sambas de São Paulo.
Gudin – Ah! Já fiz alguns discos bons, mas não me chamam mais não.
Tacioli – Essa questão de inserir ou não uma “levada” interferia quando você produzia um álbum? Como foi com o disco da Beth Carvalho?
Gudin – Faço o que a música pede, sem me importar se o que ela está pedindo é tradicional ou novo. O que é aquele disco? É um regional muito bom cantando sambas da maneira normal. Por isso que aquele disco é bom. Pega a Beth cantando bem. O show foi de emocionar. As pessoas choravam. Jorge Costa [n.e. Compositor alagoano radicado em São Paulo nos anos 1950, autor de “Triste madrugada”] morreu logo depois. Então é isso, uma coisa simples, peguei algumas músicas e pessoas, mas acabei esquecendo do Germano Mathias [n.e. 1934, importante sambista paulistano, autor de “Guarda a sandália dela”, com Sereno]. Não me perdoo até hoje, não me perdoo! Já falei isso pra ele. Mas não consigo encaixar um trabalho dentro de uma levada, não tenho paciência. Mas não é difícil. Outro dia encontrei uns amigos músicos, bons e importantíssimos, não vou dizer os nomes porque não é legal, e diziam “Ali naquela parte vai ser funk, aquela coisa de rolar uma mistura de não sei o quê com quê”. Eles gostam, os caras gostam.

Tags
Eduardo Gudin
de 13