gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Eduardo Gudin

EduardoGudin-940

Eduardo Gudin

parte 7/13

Pode ser a última vez que me pinta uma orquestra

Almeida – Gudin, distanciar-se do popular é uma preocupação para você? Ou isso é para quem vende 500 mil discos?
Gudin – Da música popular que eu faço?
Almeida – É.
Gudin – Gostaria de fazer tudo junto. Descobri um negócio outro dia, sempre desconfiava, sou uma pessoa que não tem muito domínio sobre o meu trabalho. Ele tem que pintar de alguma maneira.
Max Eluard – Como “domínio”?
Gudin – Por exemplo: vou fazer uma canção. Não sei se vou fazer uma canção. Não tenho essa…
Max Eluard – Não existe um método para compor, para criar?
Gudin – Não existe um método, existe um jeito desde que me apareça alguma coisa. Então, pintou a melodia bonita, aí eu vou.
Almeida – Mas é um método que está sempre submetido a uma coisa mais sensível.
Gudin – Como assim?
Almeida – Você precisa ter uma inspiração antes de você aplicar o método?
Gudin – Tem que ter uma onda qualquer que você sinta, tem que ter uma magia da história. É difícil explicar. Tem que achar que aquilo é mágico, porque se você ligar muito para o que acontece com as pessoas hoje, para a gravadora que não tem distribuição, a melodia, a rádio que não toca…
Tacioli – Essas coisas interferem na hora da composição?
Gudin – Muito, interferem muito! Você tem que ter uma motivação para romper isso. Interfere… interfere muito [voz baixa] Cansei de ver isso: sou arranjador e um cara me chama para fazer arranjos para um disco. Quando acaba “Pô, esse arranjo é maravilhoso”, o cara fica doido. Aí vai fazer um próximo e ele pede para um outro que faz tecno-meio-pop, com uma levada; e nem me liga. Passa o tempo, “Oh, aquele nosso disco é que é demais!”. E daí começa a voltar para aquele. Vai fazer o outro disco e procura um outro cara. São essas coisas que desestimulam um pouco você… Tanto é que quando fui fazer esse disco com a Fátima Guedes, eu tinha aquela orquestra toda na minha mão. “Deixo ver se consigo bolar uma coisa mais atualizada, dentro do não sei o quê”. Mas aí pensei: “De repente é a última vez que me pinta uma orquestra desse tamanho”. “Não, não, eu vou escrever o que tem que ser mesmo!”.
Trentini – Mas o que seria mais atualizado, o que você imaginava?
Gudin – Mais atualizado é a tal da levada [risos].
Trentini – A tal da levada?
Gudin – “Pô, aquela música tem uma levada!”. É a levada. O cara começa pela levada. Esse é um jeito! Enfim, o que é isso senão uma porcentagem de música pop? Sempre falo levada, mas no fundo o que o cara está tentando ter é uma linguagem um pouco pop para atingir a juventude e estar inserido numa modernidade. É isso! O cara tem que buscar o lado pop de algum jeito. Então é mais fácil o cara compor a música com esse espírito.
Max Eluard – Assume, né?
Gudin – É, não é legal? Fica até mais bonito. O cara faz uma música que é pra cá, e começa a pôr uma levada. E normalmente não acontece nada. Ou faz que nem o Gilberto Gil que faz reggae bem pra cacete. Agora não, o cara faz um monte de sambas, canções e quando vai gravar, quer uma levada [risos]. Aí fica aquela mistura de coisas que não é nada. Normalmente não dá certo.

Tags
Eduardo Gudin
de 13