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Entrevistas de música brasileira

Eduardo Gudin

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Eduardo Gudin

parte 6/13

Começo a pensar na tal sinfonia que sempre quis fazer

Max Eluard – Gudin, como você vê a sua música, o que ela te representa?
Gudin – Pertenço a esse tipo de compositor que gosta de lidar com melodia dentro da linha da composição popular, que tem orgulho porque fez aquela nota malandra que nenhum cara faria ali. É um dom, e criar melodias que não são plágios. Você pega as minhas músicas e elas não plagiam nada, nem elas mesmas. Quando você descobre que tem esse dom, se você o valoriza, você não consegue substituir por outro, porque esse é o caminho. Você é comparado. E quais são os parâmetros? É o Gershwin, o Tom, o Cole Porter, o Edu Lobo, é nessa que você quer embarcar. Mas pertencer a um universo em que você é respeitado pelas melodias e letras que faz é muito difícil. Não faço só samba, mas vamos pegar os meus sambas. Quando você percebe que faz um negócio que os caras do meio tem aquele respeito, você tem a certeza de que está fazendo legal e dentro da maior exigência. Mas ao mesmo tempo que isso é uma coisa legal, é também uma cruz para você carregar, porque às vezes você tem caminhos mais fáceis e você não abre mão. Não é não abre mão porque você não quer. Dentro de você fica aquela vontade, mas é difícil porque é o que você considera o maior valor…. O que estou pensando agora? Fiz aquele disco de orquestra e atingi um ponto como orquestrador que foi legal. Começo a pensar na tal sinfonia que sempre quis fazer. Aí começo a ouvir Ravel e Wagner. Pô, mas Ravel? Quem sou eu para fazer? Mas você quer fazer e começa a estudar os grandes mestres. Não sou nenhum gênio, mas faço direito.
Max Eluard – É um caminho de uma necessidade, não é …
Gudin – Talvez seja necessidade porque você percebe que tem um talento para lidar com isso e isso te põe num ponto muito alto dentro do parâmetro dos compositores, sabe? Não tive a chance de mostrar uma música para o Tom Jobim. Ele só conheceu “Verde”. Elogiou a música e a Leila Pinheiro, mas a ela esqueceu de dizer que foi eu quem tinha feito a música [risos]. E eu, burro, também não disse. Mas esse padrão a gente tem com as pessoas. Fiz um disco de arranjos para músicas de Dorival e de Dori Caymmi [n.e. Canções de Dorival e Dori Caymmi, Dabliú, 1998], para um menino novo chamado Ney Mesquita [n.e. Cantor e ator morto em 2004, aos 36 anos]. Mandei para o Dori. Eu queria que ele ouvisse. Ele é duro para elogiar um arranjador. ”Pô, umas cordas lindas”, e começou a me chamar de maestro. Agora, tenho muito problema existencial com isso. ”Pô, mas se o Gershwin já fez, se o Tom já fez, por que vou me meter a fazer isso aí?”. Às vezes dá isso. Então, saber mexer num troço desse, que as pessoas respeitam, você não precisa ser o primeiro, e só de estar no meio, já é alguma coisa.

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