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Entrevistas de música brasileira

Eduardo Gudin

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Eduardo Gudin

parte 5/13

O público jovem se conquista pela palma que bate

Max Eluard – Você consegue enxergar algum divisor de águas nessa mudança na época em que as pessoas comentavam sobre Tom Jobim para hoje quando se comenta sobre a música do KLB?
Gudin – Primeiro, o tipo de vida que a gente vive hoje. A mídia caminha para um lado, e a música para outro. Existe uma cultura do jovem. Vi um documentário americano que dizia quando o rock and roll chegou, os pais não gostavam. Inventam a vitrolinha, que é para mandar o adolescente para o quarto, para ele poder ouvir sossegado. Começa a se descobrir, segundo esse documentário, o mercado jovem. Só que se aperfeiçoou tanto, que hoje é a ditadura da juventude. Basta ver esporte radical. Eu tinha um amigo, o Carlão, filho do delegado caolho, que quando era criança passava de carrinho de rolemã debaixo de um caminhão andando. [risos]
Max Eluard – Que coisa mais radical!
Gudin – O pai dele [risos], quando descobriu, tomou o rolemã, bateu no filho e o trancou um mês em casa. Hoje o cara faz esporte radical, põe o boné e vai ser entrevistado. “Eu subo aqui na corda, eu desço, não sei o quê”. É o rei do mundo! O pessoal na faixa etária entre 40, 60 anos, que é quem conviveu com essa história da música brasileira, ficou alijado do mercado. Alijado de tudo, ele não se reconhece na mídia e em lugar nenhum. Ele não sai de casa, não vai em bar, só paga o colégio para o filho e o convênio. Mais nada. E a juventude de hoje, por causa dessa massificação jovem, vive em guetos. Quando eu frequentava o Bar 22, que ainda existe, o Quincas Borbas, o Riviera, que é um bar antológico, o Bar do Alemão, eu tinha uns 23 a 26 anos, e me lembro de gente muito mais nova e muito mais velha do que eu convivendo no mesmo lugar. Iam intelectuais e jornalistas maravilhosos. O Plínio Marcos, o Fernando Morais, o Dálio Dantas, aquele pessoal por quem éramos fascinados. Hoje quando a gente chega perto do jovens é “Ô tio!”. Até Chico Buarque é o “tio Chico Buarque”. Existe uma separação muito grande da juventude. Outro exemplo: o Vinicius de Moraes, que foi o grande guru da nossa geração, era um velho. Ele estava indo para os 50 anos. Imagina se hoje a juventude vai escutar mais que 10 palavras de alguém com mais de 40 anos.
Tacioli – O Caetano hoje, por uma série de motivos, conseguiu exercer um pouco dessa função, não? E é um exemplo único.
Gudin – Mas o Caetano… Você não pode botar o Caetano e o Gilberto Gil em nenhum assunto. Eles são sempre a exceção. Eles têm um poder de superar porque são artistas completos. Eles cantam bem, se apresentam bem, compõem bem pra cacete, são maravilhosos. Eles dominaram essa linguagem. Se você pegá-los como exemplo é até uma cortina de fumaça nesse assunto. Mas o Caetano consegue isso em termos. Existe muita distância do meio de produção para os programas, por exemplo. Existe a necessidade de se pagar um tributo para a juventude. Jô Soares, para fazer o seu programa, tem que aturar os caras batendo palma. E ele acha o máximo, “Estou comunicando”. O artista começa a cantar e o público começa a bater palma. A Banda de Pífanos de Caruaru atravessou aqueles caras. Quem é que bate palma? Ninguém acha o tempo. O público errou tudo. Mas ninguém pode falar! O público jovem se conquista pela palma que ele bate. É uma submissão! Até aquela peça do Chico e do Edu, Cambaio [n.e. BMG, 2001], teve que se adaptar. Agora você compra o disco e é maravilhoso, com arranjos do Chiquinho de Moraes e Edu Lobo.
Tacioli – Mas se você pegar alguns eventos, como o Chorando alto, isso não se enquadra, não é? O público daquele evento era extremamente jovem.
Gudin – Mas gostam!
Tacioli – É em menor número mas existe hoje…
Gudin – É aquilo que estou falando, é em menor número mas existe. De repente você pega uma facção da juventude que tem interesse nisso. Mas o Chorando alto [n.e. Festival de choro realizado entre 1996 e 1998, no SESC Pompeia, em São Paulo] acabou, né?
Tacioli – Acabou.
Gudin – Mas foi muito importante. O Elton Altman, que foi quem criou e dirigiu o Chorando alto, tinha uma teoria que aquilo podia mudar alguma coisa, e mudou. Com essa coisa de dizer que o choro é que nem o jazz fez com que um monte de gente nova aparecesse tocando choro, e bem. Ficou uma coisa cult, moderna. Um Paulo Sérgio Santos, que toca com o Guinga, é moderno. Não é mais aquele novo velho, ou aquele velho novo que toca choro. Isso é uma coisa que o Chorando alto fez, mas ele acabou. Não devia ter acabado. É a falta de hábito de se trabalhar um projeto do segmento.
Tacioli – Ao mesmo tempo que ele acabou, coincide de uma certa maneira com essa explosão das ruas e clubes do choro. E a mesma coisa com o samba tradicional…
Gudin – Não, o boom do samba tradicional é da década de 60. Aquela onda do Teatro Opinião, quando a intelectualidade descobre o samba de raiz, aí vão buscar Zé Kéti, descobrir Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola.
Tacioli – Exatamente. Mas da mesma forma que o choro está aparecendo para a juventude, esse samba também.
Gudin – Está voltando?
Tacioli – Acredito que sim.
Gudin – Também acho que sim. Profissionalizado o segmento você encontra. Você não vai mais querer que esse tipo de música participe como participou, principalmente porque a MPB mais clássica sempre foi ligada mais à classe média, né?! Quando fala assim “O Orlando Silva era um cantor popular, das multidões”, eu acho que era da classe média, porque só vejo nego de chapéu nas fotos. A classe média é que tinha o melhor rádio, televisão. O público do teatro Record na década de 60 era classe média, depois com a democratização dos meios de reprodução (os aparelhos de televisão, de rádio, a vitrola e o CD), a classe D começou a ter acesso a isso tudo e foi tomando conta da televisão. Por quê? É um mercado maior e essa classe média era muito intelectualizada, preocupada, vinha daquela coisa da informação. De repente era uma classe média que ficou mais velha, e a que veio, veio com esse negócio de nivelar por baixo, com pouco informação, tentando só pagar o colégio do filho. Aí começa a comprar pagode para churrasco. Já fui em churrasco de amigo meu da faculdade que estava tocando pagode lá. Esses mesmos caras que iam em show do Paramount comigo. Agora toca pagode lá porque vai alegrar os amigos dele, entendeu?
Tacioli – Neste sentido, os pequenos selos são responsáveis por essa pulsação.
Gudin – Aí é que está. Essa é uma vertente. Por exemplo: a Dabliú agora está fazendo um negócio interessante. Ela era distribuída pela Eldorado. Lancei um disco com a Fátima Guedes com orquestra e tudo [n.e. Luzes da mesma luz], vocês já devem ter ouvido falar. A Eldorado fechou, vendeu tudo e parou de ter disco. Falei para o Costa Netto: fui diretor da Velas por 5 anos. Nós temos um mercado segmentado, você sabe onde está o seu público, você sabe onde estão as lojas que tem que ter o disco. São 20, 30 lojas. Os caras destas lojas vão comprar 10 discos e não 200, porque eles sabem que o CD vende devagar. De repente vende mais depressa do que eles pensaram e você tem que estar atento. Acabou? No dia seguinte tem mais 10. Se você é distribuído por uma grande gravadora, ela vende um pacotão. Acabou aquele disco teu que está ali, demora dois meses para voltar. Até ter um pedido macro que justifique o frete. Então o cara compra mil discos de um artista de multinacional, e vai ficar vendendo até o representante ir de novo lá, e pega mais mil discos desses e de um artista lá na ponta…, o Francis Hime, gravou na Odeon. Pega dez do Francis Hime e se depois acabar, vai levar seis meses para ter de novo. A Dabliú o que fez? Pegou um vendedor disposto a lidar com isso. E está começando a dar certo. Porque esse vendedor tem uma comunicação direta com o dono da loja. Ele lida com cinco discos, e isso é importante porque você tem que trabalhar numa faixa de 10, 20 mil discos. De repente um cara vende cem mil, ótimo. Mas você tem que trabalhar com essa faixa. Mas para conseguir uma produção grande você tem que arrumar um patrocínio. Como o projeto como fiz com a Fátima Guedes, todinho patrocinado pelo SESC, mas o disco é da Dabliú.

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