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Entrevistas de música brasileira

Eduardo Gudin

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Eduardo Gudin

parte 4/13

Um artista multimídia. Pô, que diabo que é isso?

Max Eluard – Você vê uma saída, um caminho para essa outra música que não é voltada para fazer 10 mil pessoas dançarem? Você acha que ela sobrevive?
Gudin – Ela vai sobreviver. A gente tem que profissionalizar esse segmento, porque é um tipo de música pela qual vai sempre ter gente interessada. Nunca foi um tipo de música que vendeu 500 mil ou um milhão de cópias. O cara vai montar uma gravadora para cuidar de um determinado tipo de produto, e não se desviar no meio. Vou montar um selo de jazz, é um selo de jazz. O cara não pode falar, “Não, mas de repente eu contrato o Elton John e vendo mais”. Dentro disso é que ele vai ver que mercado ele tem, qual é a receita, como é que ele lida, que patrocinador se interessa por isso. E a convicção disso é difícil você manter, porque o cara começa a fazer esse produto e de repente vem um outro e fala que ele está louco para fazer um show num teatro. Manda fazer um rodeio! O empresário normalmente não aguenta a onda, a mentalidade é muito ruim nesse ponto. Faço isso aqui, o meu produto é esse, vou fazer dar lucro. Uma vantagem que os caras não vêem é que o caminho dessa música independe do jabá, não precisa ter tanto faz ter hoje em dia. Ela não compete mais. O público-alvo você encontra com mais facilidade, você só precisa avisar que aquele produto saiu. Pô, a gente faz um disco e sai três matérias nos jornais naquela semana botando-o nas alturas e nunca mais. Você tem que saber como é que avisa, como é que põe o disco para vender, que tipo de mercado. Tem que se profissionalizar, que empresário que gosta de participar disso, e isso tem que ser conquistado. O que não dá é achar que ele vai estar inserido no contexto como já esteve. Não, porque o mundo mudou. Qual é a linguagem da mídia hoje? É a mesma coisa quando se fala “Estamos aqui entrevistando um artista multimídia. Pô, que diabo que é isso? [risos] Você pode imaginar um Adoniran Barbosa hoje? O Adoniran tinha um cotidiano assim: ele ia na Rádio Eldorado onde tinha um sofá. Aí sentava, botava o bonezinho e ficava dormindo umas duas horas. Depois levantava e ia embora. Conhecia todo mundo. Porra, aquele sofá há muitos anos não existe mais ali. As salas são pequenas e nem cabe um artista desse que passa pelos lugares dormindo. Não combina! E é isso que ele fazia. Então, nessas andanças ele ficava pensando nome de coisa, descobrindo nome de pinga, patenteava para depois vender, ficava o dia inteiro fazendo isso e compondo. Hoje um cara desse não cabe em lugar nenhum. “Olha aquele louco lá!”. Primeiro que não entra numa redação de jornal. “Ô Adoniran! Ele entrava e cumprimentava os jornalistas. Hoje com essa mudança toda, a música é um entretenimento de massa. O Free Jazz hoje é o quê? É uma piada!
Max Eluard – Não tem nada de jazz!
Gudin – Nada, nada! E o jazz fica numa salinha. E quando você imaginava o festival de jazz da TV Cultura, que foi o primeiro, uma maravilha, preto-e-branco, com a luz parada. Porra, cada concerto! Pelo amor de Deus! Isso não tem mais. Por quê? Porque o jazz não dá mais o público. Tem que ter aquela meninada, abrindo cerveja, dando entrevista. O jornalista pergunta: “E tá paquerando muito aqui?!” [risos] É, o mundo mudou e você não evita isso! Então como é que vai caber uma música com equação sofisticada, equação de nono grau pra todo mundo cantar. O cara não vai cantar “Quem te viu, quem te vê”.

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