gafieiras

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mais do que entrevistas grandes, grandes entrevistas.

Eduardo Gudin

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parte 2/13

Parei a Elis, o Bôscoli e o Menescal para me escutarem

Tacioli – Mas já com 16 anos você tocou no O fino da bossa.
Gudin – Era o último O fino da bossa, não sei se já estava se chamando Frente única, que era um programa que veio logo depois. Parei a Elis, o Ronaldo Bôscoli, que era marido dela naquele tempo, e o Roberto Menescal no Hotel Normandia para me escutarem. Naquele tempo as pessoas tinham uma solidariedade que não era só na classe, era na vida; fazia parte do romantismo da época. Os artistas tinham uma certa obrigação em ouvir os outros novos. Você chegava para o Chico Buarque e “Quero mostrar as minhas coisas”. O cara arrumava um jeito de te escutar. Fazia parte! Ele não tinha esse negócio, a não ser que o cara fosse muito chato. O Francisco Petrônio [n.e. 1923-2007, cantor paulistano especializado no repertório da música brasileira da velha guarda], que é de um outro estilo de música, era chofer de praça. Aí ele foi levar o Nerino Silva, um crioulo magro, que já morreu, que gravou “Súplica cearense”, [canta] “Senhor, mata esse pobre coitado”. Foi quem lançou esse sucesso nacional. Enquanto o Petrônio estava levando o Nerino Silva para a TV Tupi, ele ia cantando, porque ele tem uma voz muito boa e até hoje canta bem. O Nerino disse “Você gosta de cantar? Você tem uma voz muito bonita. Pega esse meu bilhete e faça o teste na terça-feira com o Magno Saleno na Tupi”. E eu me lembro, aquela fila enorme. Tinha esse hábito. Hoje, com o neoliberalismo, é mais ou menos assim: “Tira esse cara porque ele vai tirar o seu lugar”. Mas é o meu pai”. “Não, tira! Não quero saber!” [risos]
Rogério Trentini – Acontece de gente querer mostrar música pra você?
Gudin – Procuro escutar bastante. Tudo o que as pessoas falam ou me mandam. Só que agora a maioria das coisas é muito ruim. [pega umas polentas com queijo] Mas o que existia muito era esse tipo de atitude das pessoas de decisão, como a Elis, que sentou lá, e “Estou atrasada. Toca aí”. Toquei e ela me botou n’O fino da bossa. Não é pouca coisa!
Tacioli – Que música que você tocou?
Gudin – ”Morena boca de ouro” (Ary Barroso), um solo. Toquei outro dia na Rua do Choro, com o mesmo arranjo, que é do Toninho. Não tinha o que mudar. Não mudei nada até hoje [risos]. [n.e. Canções de Dorival e Dori Caymmi, Dabliú, 1998] Então, isso tinha. Toquei violão, mas não esperava ser compositor ainda.
Tacioli – Você não se arriscava?
Gudin – Não tinha pensado nisso. Eu me lembro ouvindo um programa chamado Bo66, era o rival d’O fino na bossa da Tupi. Eu assistindo, chegou um carinha lá, tímido, sentou num cantinho e cantou “Pedro pedreiro”. “Mãe, venha ver, tem um cara aqui que é demais!”. Aí ela veio ver. O Chico Buarque pra mim é essa atitude do compositor, que mudou o meu horizonte. [dirige-se à garçonete Sílvia] Vê mais uma dessa polenta. E eu queria também um guaraná. Adoro polenta, é um negócio que me fascina!
Almeida – Eu também. Nem batata frita substitui.
Gudin – Nem moral! [risos]
Trentini – Mas em Minas chama-se angu.
Almeida – Mesmo frito?
Gudin – Angu é mole. É a polenta mole do frango ensopado. Curiosamente sempre tive uma coisa que o músico normalmente não tem. Mesmo quando não pensava em compor, eu sempre olhava o autor. Vinicius de Moraes era um ídolo, eu já tinha ligação com letra de música. Mas por que esse Antonio Carlos Jobim aparece em todo o lugar? São sensações infantis, adolescentes! Por que a minha geração tomou contato com isso. É a mesma coisa que o cara falar “A Sandy fez uma música nova?”, e eu “Você viu a música nova do Antonio Carlos Jobim?” Era a época! [risos] E tinha uma outra parte da juventude que gostava mais da coisa americana, Beatles e Rolling Stones. Mas hoje é cult gostar da Jovem Guarda. Não se gostava de Jovem Guarda, quem gostava era a classe D, sem nenhum tom pejorativo, mas era a realidade. Roberto Carlos tinha lançado aquela calça Calhambeque, o salto carrapeta. E a classe média não usava a calça Calhambeque. Hoje um monte de gente da classe média alta fala “Ah! Que saudade da Jovem Guarda, da Wanderléa!”. Nada, na época tinham vergonha! Podiam até gostar, mas não falavam. O Roberto Carlos começa a ficar mais curtido pela classe média depois de “Quero que tudo vá para o inferno”. Até aí não…

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