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Entrevistas de música brasileira

Eduardo Gudin

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Eduardo Gudin

parte 1/13

Converse com o meu assistente

Daniel Almeida – Gudin, com quantos anos você começou a tocar violão?
Eduardo Gudin – Comecei a estudar violão com 13 anos, um pouquinho tarde.
Ricardo Tacioli – Tarde?
Gudin – Um pouquinho, mas é uma idade boa porque eu tinha um relacionamento muito forte com música. Tinha muito disco em casa, ouvia muita música clássica. Essa foi a vantagem quando comecei. Vi o Paulinho Nogueira tocando num programa de televisão “Agora é cinza” e fiquei doido pelo violão.
Almeida – Em que ano foi?
Gudin – 1963. Fiquei doido pelo som dos dedos, porque um pouquinho antes tentei tocar acordeão, que todo mundo ia aprender. Quando coloquei aquele peso… “Não vou carregar isso aqui” [risos] Sou muito preguiçoso para carregar… como pesa aquilo!
Almeida – Como era esse ambiente, a sua infância e como é que você foi entrando na música?
Gudin  Entrei na música porque meu pai comprava muito disco. Ele também tocava um violãozinho, mas gostava mesmo era de comprar disco. Ele comprava para a minha irmã, que era mais velha, The Platters, Neil Sedaka, Paul Anka, Elvis Presley, e aí fui ouvindo isso. Depois ele comprou uns discos para baile chamados Feito para dançar, do Waldir Calmon [n.e. 1919-1982, pianista mineiro, um dos divulgadores do solovox e pioneiro na gravação de sucessos dançantes em faixas únicas], com aquelas faixas corridas. O Waldir Calmon tocava aquele tipo de piano, cheio de oitava, pianão. E eu ouvindo aqueles discos fui me interessando pela música brasileira. Lembro-me também do “Chega de saudade”, um 78 rotações, mas curiosamente eu ouvia o dia inteiro o lado B (“Bim bom”). Tinha uns 9 anos. Tinha um programa do Moraes Sarmento [n.e. 1922-1998, radialista campineiro, defensor das raízes musicais brasileiras] que era de música brasileira. Ele odiava a bossa nova e falava “No tempo em que o samba era samba”. Meu pai levava o radinho para eu escutar o programa, ele também gostava. Tocava muito Ataulfo Alves. E o programa que se chamava Música sempre música da TV Tupi, com o Bernardo Federovski e orquestra sinfônica. Até que chegou o Waldir Calmon, um negócio brasileirão.
Tacioli – Calmon então foi decisivo.

Capas da série “Feito para dançar”, do pianista Waldir Calmon. Fotos: reprodução

Gudin – Foi porque com ele tomei contato com o samba, isso quando eu tinha meus 10 anos. Aí fiquei fascinado. Comprei um disco chamado Batucada fantástica [n.e. Disco de carreira do baterista Luciano Perrone, 1908-2001, lançado originalmente em 1963 pela Musidisc], que trazia a batucada das escolas de samba e eu decorava todas. Até hoje tenho na cabeça algumas faixas. Quando vi o Paulinho Nogueira tocar violão, percebi o que eu queria fazer. Fui procurar o Paulinho Nogueira e não o achei. Ou procurei e não tinha vaga. Aí dei a maior sorte, porque peguei um anúncio de jornal em que estava escrito “Aulas de bossa nova”, que era a coisa do momento. Rua Vergueiro. Naquele tempo a gente andava a pé porque não tinha tanto assalto, as crianças podiam andar pela rua. Eu morava perto da rua Tutoia com a Abílio Soares e até a Vergueiro era longe pra daná. Aí eu fui. Bati na porta e o dono estava saindo (encontrei esse cara na Rua do Choro outro dia depois de trinta e tantos anos). Ele falou “Faz o seguinte: converse com o meu assistente que está ali” e apontou para um cara chamado Antonio Ramos. Toninho Ramos, um crioulo magrinho, quietinho. Hoje ele está na França. Conhece aquela que o aluno não supera o mestre? O que ele toca de violão! Pelo amor de Deus! Aí sobrei com esse cara, ninguém dá nada por ele! [risos] Ele falou “O que você quer estudar? Você tem uns discos?” Eu já tinha muito disco. O primeiro disco do Baden Powell [n.e. Apresentando Baden Powell e seu violão, Philips, 1959] eu já tinha. Falei “Gosto muito do Baden Powell”. Aí ele tocou um arranjo, ele sabia tudo igual, e falava “E se você gostar de clássico, daí tocava peças dificílimas. O cara era demais!! Aquilo era um músico de primeiríssima. Tanto que está lá na França até hoje, tem discos gravados. Se ele fosse um cara menos tímido, seria muito mais conhecido. Escrevia música bem, um músico completo! Outro dia ele voltou para o Brasil e a gente foi tocar. Ele fez uns improvisos em uns estudos sobre atonalismo – porque ele não pára de estudar. Então tive essa sorte de, num anúncio de jornal, que nunca se acerta, pegar um cara desse. Fiquei estudando com ele dos 14 aos 17 anos, porque eu tinha feito um ano de conservatório, aquele violão mais para o clássico.

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