gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Eduardo Gudin

EduardoGudin-940

Eduardo Gudin

parte 13/13

Temos o direito de não fazer mais música

Tacioli – Seu primeiro disco é de 1973, cinco anos depois de sua primeira participação em festivais. Como é que foi e o que ele representou?
Gudin – Como eu estava aparecendo bastante, fazendo umas músicas, me convidaram para fazer um disco na Odeon. Fiz um teste, gravei um compacto simples e me contrataram. Foi ótimo! Fiz um disco legal.
Trentini – Tenho uma dúvida em relação a capa desse disco que me atormenta desde o dia em que o comprei. Aquilo é em estúdio ou é um boteco mesmo?
Gudin – É o bar do Alemão! Foi a última foto. O cara bateu umas 40 e nenhuma serviu. A última?! “Ahnnnnn!!!” [reproduz o espanto ao ver a última foto]
Tacioli – Que lembranças você tem dessa época, desse primeiro disco?

Gudin – Eu lembro da alegria quando o disco saiu. Eu era programador da rádio Eldorado, e nunca me esqueço da sensação que tive andando da Eldorado à Odeon por meio daquele prédio do Copam. Lembro-me de experiências como ter que tocar junto com orquestra toda me olhando, porque só tinham dois canais. Foi uma festa! Mas eu não tinha o exato valor do que aquele disco estava representando para as pessoas. Elas estavam adorando. Eu não tinha muita ideia.
Max Eluard – Gudin, depois de 30 anos de carreira, como é que você se sente em relação à música, não só à sua música, mas à música em geral. Você se acha uma pessoa realizada ou desiludida?
Gudin – Considero-me um cara que conseguiu provar a qualidade para as pessoas. Agora, às vezes existe uma dificuldade de gerenciar o trabalho, isso é que é o problema. Nessa área você depende muito de SESCs. Você tem que misturar com a sobrevivência, e isso é muito difícil. Nunca consegui fazer isso direito, porque sempre tive uma faceta de produtor que parou. Não quero mais. Hoje só vivo da parte do artista. Aqueles projetos todos que eu fazia como a Jazz Sinfônica, Festival da TV Cultura em que o Arrigo Barnabé ganhou, essas coisas, não faço mais.
Max Eluard – Que era um trabalho de guerrilha, não?
Gudin – Não, era um trabalho paralelo à atividade artística. Você lida com outras coisas, outras alianças. Mesmo não tendo mais feito, me sinto legal. Sinto dificuldade em sonhar alguma coisa nova. Você tem que esperar, fazer o quê? Chega uma hora que você não tem mais uma idade e nem uma vivência para andar atrás das coisas, tentar empurrar o barco, fazer projeto… Isso não consigo. Mas vamos ver esse ano aí. Estou empolgado em fazer a sinfonia.
Almeida – Esse é o teu próximo projeto?
Gudin – Esse é o meu projeto de coração.
Almeida – E outros projetos?
Gudin – Ah! Não tenho.
Almeida – Nenhum?
Gudin – Estou sem nenhum [risos]. Tenho vontade de fazer músicas para pessoas que nunca fiz.
Almeida – Alguma em vista?
Gudin – O Luiz Tatit, para ver o que dá.
Max Eluard – Que é uma coisa paulistana!
Gudin – Ele é. Mas ele domina a canção, até em tese, porque tem um trabalho sobre a canção, O cancionista [n.e. O cancionista: composição de canções no Brasil, Edusp, 1996], um livro muito bom. Vou dar um samba pra ele, com o meu jeito, ver se ele quer fazer uma letra. Estou devendo uma letra para o Chico César. Vou ver se consigo fazer [a banda do bar começa a tocar “Trem das onze”]. Mas estou num compasso de muita espera. Eu me dou o direito também de não fazer porra nenhuma. Se eu não for mais compositor, para mim está bom. Mas não me sinto naquela obrigação. O Vanzolini não faz mais música. Pra mim, falaram que ele está fazendo uma agora. ”Mas por que você não faz mais música?” Ele fala assim: ”Cansei. Não quero fazer mais”. Temos o direito de não fazer mais música e fazer outra coisa. Acabou.

Tags
Eduardo Gudin
de 13