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Entrevistas de música brasileira

Eduardo Gudin

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Eduardo Gudin

parte 12/13

O Rio de Janeiro não reconhece o Adoniran como deveria

Almeida – Como é que você conheceu o Adoniran?
Gudin – Foi na TV Record, ele ficava naquele bar que tinha uma sinuca, bebendo cerveja. ”Ô, ô, como é que tá?”, mas aí não vale. Não vale porque eu era qualquer um.
Max Eluard – Musicalmente.
Gudin – Não me lembro.
Almeida – Vocês chegaram a compor juntos, não?
Gudin – Ele ficou muito amigo meu. De vez em quando falava para eu fazer, mas ele me dava as músicas meio prontas. Aí eu não queria fazer. ”Adoniran, já estão prontas!” ”Não, preciso de alguém!” Às vezes eu melhorava um pouco a música para ele, mas é outra coisa. Pegava o violão, cantava junto, mas a música era dele. Até que fiz uma, que foi o “Armistício”, que ele escreveu a letra e não cantou. Nessa ele não assobiou nada, e eu fiz imitando ele. Ele pensa que é dele. Porque a música do Adoniran só dá certo se a melodia for assim. Com aquele jeitinho. E com o Vanzolini a mesma coisa. Tem que ter aquela cara. É o tal do samba mais paulista, mais chorado.
Almeida – Como era o Adoniran, Gudin? Porque o que se preservou dele é uma coisa meio caricata, engraçada.
Gudin – Ele tinha aquele personagem. Claro que ele incorporou, mas era aquilo mesmo. E com aquela roupinha, era ”autentis”. Ninguém pode fingir o dia inteiro. Era engraçado, inteligente e muito mal-humorado. Não suportava quando alguém perguntava sobre carreira e vida. Ele não aguentava. Gostava de ficar conversando com os amigos. Tinha uma característica interessante que era ouvir os seus problemas. Esses caras, ainda mais de idade, muito ídolo, não tem paciência de ouvir você, né?! Só o calo dele que é importante, o teu não interessa. Se ele falasse “Tô com um calo aqui”, apareceriam quatro, “Mas por quê?”, “Você quer que eu te dê um band-aid?”, “Quer que eu vá comprar na farmácia?”. Vira assunto. Aí se alguém fala assim: “Tô com um calo assim”, “Pô, pára de incomodar!”. A relação é essa. Ninguém quer ouvir as suas histórias, mas fica obcecado ouvindo a história do ídolo. E o Adoniran não era assim.
Almeida – Você tinha essa relação de ídolo com ele.
Gudin – A gente tinha, mas o Adoniran não era assim. Até pela idade dele, ele sempre iria ditar o ritmo da conversa. Mas ele ditava e gostava de ouvir o que você tinha para dizer, prestava atenção nos seus problemas. ”E aí, melhorou?”, ”E a mulher, o que ela falou?”, ”Não tá mais brigando?”, ”E o filho?”, ele era assim. Uma raridade, porque o cara começa a ter um certo ritmo de culto a personalidade por onde ele está andando, e vai se esquecendo do exercício do outro.
Tacioli – Você acha que há um desrespeito tanto com a obra, quanto com o patrimônio de Adoniran?
Gudin – Acho que o Rio de Janeiro não reconhece o Adoniran como deveria. É uma linguagem muito paulista, o Rio tem dificuldade de aceitar tudo o que é paulista. Comigo não, graças a Deus, não tive esse problema, talvez até porque a minha música…
Max Eluard – O seu samba é carioca.
Gudin – E meus parceiros, a minha vivência. A força que eu tive toda a vida veio do Rio de Janeiro, e não de São Paulo. São Paulo tem gente que me dá muita força nos meios de produção, isoladamente. Não no meio musical, não! Mas as pessoas são muito isoladas aqui. Por minha causa o Paulo Cesar Pinheiro é paulista [risos], ele adora São Paulo, não deixa ninguém falar mal. Porque o Paulinho teve a vida aqui, “Lapinha” foi aqui que aconteceu, e ele tem essa noção do que São Paulo foi para ele. Mas é muito raro. O Adoniran com aquela coisa típica de São Paulo… Já vi a Vânia Bastos num show no Rio cantar aquela música que fala do cigarro Iolanda, [canta “Tocar na banda”] “Tocar na banda, pra ganhar o quê? / Duas mariolas e um cigarro Iolanda”. E “Num relógio é quatro e três / num outro é quatro é meia / é que de um relógio para outro / as horas vareia” e um cara levantou xingando e foi embora. Pô, Adoniran é o máximo! Depois fizeram uma homenagem ao Adoniran no Rio de Janeiro e um jornalista abriu um artigo para dizer que não era justo, que tinha gente muito mais importante que mereceria aquela homenagem.
Tacioli – É engraçado porque “Trem das onze” estourou primeiro no Rio.
Gudin – Foi quando o Adoniran ganhou o Carnaval do Rio. O Adoniran falou para mim: ”Foi legal, mas foi muito tarde!”. Ele tinha essa noção de que foi reconhecido muito depois de velho. Tanto é que o Adoniran teve um samba na Bienal do Samba chamado “Mulher, patrão e cachaça” [n.e. Defendida pelos Demônios da Garoa e composta com Oswaldo Molles], uma obra-prima, que foi desclassificado. O júri era todo carioca. Eles não entendem aquilo, acham que é samba de sambeiro, não conseguem percebem a genialidade.

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