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Entrevistas de música brasileira

Eduardo Gudin

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Eduardo Gudin

parte 11/13

Sempre rola um ''O sole mio!''

Almeida – Gudin, é verdade que você compunha com o Paulo Cesar Pinheiro pelo telefone?
Gudin – Muita coisa. Ele tinha um gravador velho, desses…
Almeida – Mas como é que vocês se conheceram, você paulista e ele carioca?
Gudin – Sempre fui muito ligado ao Baden Powell. Ouvi o Baden com “Samba do perdão”, gravada por um conjunto chamado 004, que não existe mais. Eu tenho esse disco! Com esta música notei que havia um outro cara legal compondo. Mas quando conheci o Paulo Cesar – ele tinha 17 anos – fiquei espantado porque naquela época todo mundo que fazia samba imitava o Chico Buarque. Uma influência difícil de interromper. Mas o Paulo Cesar veio de outro jeito. E isso me encantou. Quando ele ganhou a Bienal do Samba [n.e. Festival organizado pela TV Record em 1968, na capital paulista; teve apenas uma única edição] com “Lapinha”, falei “Você me impressionou por isso e aquilo”. Fiz uma música e mandei para a Márcia, que cantava com o Baden Powell. A Márcia do “Oi a brisa” e do “Ronda”. Ele me ligou um dia do Rio de Janeiro com a música pronta. E foi assim que nós começamos. Ele tinha um gravador e um microfoninho, punha um lenço naqueles telefones antigos e eu pegava o violão aqui; e ele gravava.
Max Eluard – Gudin, o que me intriga muito na sua música é justamente isso, pegando o gancho do que o Daniel falou, você paulista e o Paulo Cesar Pinheiro carioca. Não sei se você acredita nisso, que exista uma música paulista e uma música carioca, mas eu vejo algumas nuanças na música feita em São Paulo. Porém, a sua é muito carioca.
Gudin – Exatamente.
Max Eluard – Por quê?
Gudin – Discos, né! Um monte de discos! [risos] É disco do Baden, é disco da bossa nova. Agora, quando faço com o Vanzolini, procuro compor um samba paulista.
Tacioli – Então qual é a característica da música de São Paulo? Dá para identificar?
Gudin – É um samba mais chorado. Chuto pra cacete, não fico lendo livro de música [risos], acho que isso tem a ver com a colônia italiana. Você imagina aqueles caras cantando samba dos Demônios da Garoa, tudo descendente de italiano, sempre rola um “O sole mio!” [risos]. Até no Geraldo Filme, que é mais arrastadão, é mais chorado, passando pelo cavaquinho. Agora com essa turma do samba novo, do Zeca Pagodinho, apareceu um monte de cara fazendo samba parecido com Luis Carlos da Vila, Jorge Aragão, com aquela levada de cavaquinho de quintal. O cavaquinho do Xixa, do Regional do Caçulinha, é outro negócio. Não é igual ao do Jair da Portela, que é um tamborim tocando. Só tem um negócio que é um lado mais racional do paulista. Por exemplo: adoro o Arrigo Barnabé, gosto do universo dele, mas você pergunta para qualquer carioca, eles odeiam. Não tomam nem conhecimento, a não ser o público que o Arrigo formou no Rio. Mas o músico não sabe, ele não se interessa em saber que valor tem aquilo, existe uma distância.

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