gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Eduardo Gudin

EduardoGudin-940

Eduardo Gudin

parte 9/13

A capa pronta, e estava lá, Toquinho, mas sou eu quem toca

Almeida – Além da música “Cidade oculta”, que você fez com o Arrigo Barnabé para o filme homônimo, você não namorou com o cinema mais nenhuma vez?
Gudin – Fiz uma vez a trilha inteira de um filme chamado À flor da pele [n.e. Película de 1976, dirigida por Francisco Ramalho Jr. e estrelada por Juca de Oliveira, Denise Bandeira e Sérgio Hingst], que ganhou o Festival de Gramado. Mas, na realidade, o pessoal do cinema tem um pouco de ignorância com o meu trabalho, porque acham que compositor de samba não saberá fazer outra coisa, que a gente não sabe música. Isso é um preconceito com o samba. Até esse trabalho com a Fátima Guedes que eu fiz foi um pouco disso. Eu tinha necessidade de mostrar esse outro lado, de botar a cabeça a prêmio, porque sempre fiz arranjo nos meus discos, mas aí escrevi de outro jeito.
Almeida – À flor da pele como é que foi?
Gudin – Não gostei muito da trilha, mas as pessoas gostaram. Eu estava fazendo um show chamado O importante é que a nossa emoção sobreviva – vol. 2, no Rio de Janeiro, até em que o Guinga aparece pela primeira vez tocando. Um dia eu tinha feito um favor para o Juca de Oliveira. Depois de ter voltado do Rio de Janeiro debaixo de chuva, com trinta e tantos graus de febre, ele me ligou, com o Faro. Fui para o estúdio e toquei violão para o Juca recitar poesias do Drummond. Saiu numa revista [n.e. Disco produzido por Fernando Faro e encartado na revista Mais]. Toquei uma valsa que eu tinha e deu tudo certinho. Acabou junto com a poesia. A capa pronta, e estava lá, Toquinho, mas sou eu quem toco. Então o Juca achou que me devia uma. Quando teve À flor da pele ele me ligou e queria que eu fizesse a trilha. Mas o Romário, diretor, não tinha dinheiro para nada e ele quis uma coisa que eu não devia ter concordado: que tivessem músicas para as cenas.
Max Eluard – Ver a cena e compor a música?
Gudin – Não. Tem músicas com letras para várias cenas. Várias músicas e eu veria um tema só, e esse tema seria tocado de várias maneiras. Mas não foi isso. Foi muito rápido, acabei fazendo três músicas novas. E aí fica aquela coisa, a cena chega e a música vem encantando-a. Isso é complicado. Mas as pessoas gostaram.
Max Eluard – A música perde a sua função, ela fica reafirmando o que está passando ali.
Gudin – É, ou então, fechando a visão. Mas é muito comum em cinema.
Almeida – Mas não muito comum o pessoal de cinema encomendar música com letra.
Gudin – Ou só para fechar.

Tags
Eduardo Gudin
de 13