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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 4/25

Fui dama de honra do casamento da Inhana (com o Cascatinha)

Gafieiras – A senhora lembra qual foi a música com a qual a senhora ganhou esse primeiro concurso?
Dona Inah – [ canta ] “Eu sonhei que tu estavas tão linda / Numa festa de raro esplendor / Teu vestido de baile lembro ainda / Era branco, todo branco meu amor / A orquestra tocou a valsa dolente / Tomei teus braços / fomos dançando / Ambos selente / E os pares que rodeavam entre nós / Diziam coisas / Trocavam juras a meia voz / Violinos enchiam o ar de emoção / E de desejos uma centena de corações / Pra despertar teu ciúmes / Tentei flertar alguém / Mas tu não flertaste ninguém / Olhava só para mim / Vitória de amor / Cantei / Mas foi tudo um sonho / Acordei…” Essa foi a primeira música que cantei como cantora.
Gafieiras – Lembra de quem a senhora ouvia essa música?
Dona Inah – Meu pai cantava essa música. Eu desde criançola frequentava bailes com meu pai, já que ele tocava, né?! Então, aprendi muita música, muita coisa com ele. Estudei muita música com meu pai, estudei partitura de música, depois fui estudar bandolim com uma professora, mas não quis saber de tocar nada. Eu queria era cantar mesmo.
Gafieiras – O seu pai era músico?
Dona Inah – Meu pai tocava trompete.
Gafieiras – De profissão mesmo?
Dona Inah – Não tinha profissão naquela época, ele era operário de uma fábrica ali na cidade, uma fábrica de farinha de mandioca. Nas horas vagas tocava nas fazendas, fazia bailes, fazia festas. Ele juntava o pessoal e ia tocar.
Gafieiras – A senhora falou que os seus tios tocavam também. Quais eram os instrumentos?
Dona Inah – Trompete o meu pai, meu tio Lazinho cantava, o João era clarinete, meu tio Alfredo, pandeiro, meu tio Diolindo, violão , e meu tio Diolindo tocava trombone. Todos eles eram músicos. Meu tio Alfredo tocava pandeiro e bateria também. E tinha o irmão da Inhana que cantava bem. O Luís também era baterista.
Gafieiras – A Inhana?
Dona Inah – Do Cascatinha, que era prima do meu pai.
Gafieiras – Já estava no sangue.
Dona Inah – Ele tocava bateria, cantava bem. A Inês Patrocínio e a Marilia também, que era irmã dela, cantavam bem.
Gafieiras – Mas a música era vista como lazer?
Dona Inah – Era, porque a gente não tinha campo pra viver de música, principalmente no interior naquela época. (E pelo fato de sermos ex-escravos também…) Então, não havia campo pra isso. Depois é que foi apagando isso tudo. Hoje, não, hoje já é (diferente)… Mas teve uma época muito triste, não é só lá, não, vocês sabem disso.
Gafieiras – Mas mesmo tendo como parente a Inhana?
Dona Inah – Ah, naquela época ela não tinha nome, naquela época ela era uma menina.
Gafieiras – Nos anos 1950?
Dona Inah – É, nos anos 50… 1945, 46, ou menos até. Eu fui dama de honra da Inhana. Fui no casamento dela… E quem era Inhana? Inhana apareceu em 1957, mais ou menos. Depois que casou, ela foi embora com o circo. Quando voltou, já estava na Record. Aí ela começou a ser mais badalada na cidade. Ela foi a primeira cantora negra da cidade. A Inhana era uma pessoa maravilhosa, uma menina bacana.

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