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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 2/25

Havia uma chácara para os negros fazerem a dança deles

Gafieiras – Ela contava histórias pra você, histórias do tempo da escravidão? Ou era somente uma figura rígida?
Dona Inah – Não, ela não era rígida, era uma pessoa enérgica, mas rígida, não! Ela tratava a gente muito bem. As histórias que ela contava eram do tempo dos patrões, das danças, dos encontros que tinham… Tanto que depois que terminou a escravidão, eles se encontravam numa área cedida pra eles na cidade mesmo. Eles iam pra lá toda semana. Não somente a minha avó, como a minha bisavó, como vários negros daquela época que haviam sido escravos. Era uma área atrás do campo da Associação Atlética Ararense. Havia uma chácara cedida para os negros fazerem a dança deles.
Gafieiras – Tinha nome esse lugar?
Dona Inah – Eu não me lembro. Era uma chácara… Eu era criança, então não me lembro. Eles se reuniam lá, faziam as fogueiras e lá dançavam tambor, cantavam, recordavam os tempos em que foram escravos… Tinha o Jeremias, o Ananias, a vó Maria, a vó Benvinda…. Todas aquelas pretas velhas que haviam sido libertadas depois que a escravidão acabou.
Gafieiras – A senhora chegou a frequentar (esses encontros)?
Dona Inah – Eu frequentava, ia com a minha vó, com as minhas tias; gostava. Tinha o “tambu”, muitos falam tambor, mas a dança mesmo é “tambu”. Porque o “tambu” era um instrumento como um pilão, sabe pilão de pisar arroz? Eles faziam aquele oco no pau, colocava um couro na frente, amarrava, e punham perto da fogueira. A fogueira esquentava aquele couro, que dava o som. E eles tocavam naquele couro; era um toque muito lindo. Hoje não consigo decifrar de onde vem; hoje talvez a cuíca imite o couro do “tambu”, aquele som chorado, sabe? Eles cantavam muitas músicas…
Gafieiras – A senhora lembra de algum canto?
Dona Inah – Eu lembro de algumas pessoas que cantavam lá. Por exemplo, tinha um senhor chamado Vito Alfredo: ele entrava na roda, que lá era tudo assim improvisado, sabe?! Lembro dele porque ele ia lá à minha casa, entrava na roda e falava assim: “Na mata da Fazenda Arara!”, e o pessoal respondia, “Onça briga com leão!”, porque tinha onça naquela época, na mata da fazenda arara, onça briga com leão, onça briga com leão, onça briga com leão, na mata da Fazenda Arara, “Onça briga com leão, ai eu eeeeee…”. Aí o tambu tocava e eles rodavam e davam umbigada nos que estavam na roda… Ele saia e entrava outra pessoa, e já fazia outros pontos, outras músicas, entendeu? Isso ia a noite toda e toda semana.
Gafieiras – E criança podia participar?
Dona Inah – Participava, era uma roda aberta. Mas tinha muita gente que ia lá pra beber, então cachaça rolava direto, virava a garrafa na boca e rolava… A criançada ficava perturbando, como eu ia lá perturbar também. Mas eram umas rodas gostosas.
Gafieiras – O que os velhos dançavam?
Dona Inah – Os velhos dançavam… Todo mundo dançava lá…
Gafieiras – Ia muita gente?
Dona Inah – Ia muita. Algumas pessoas pra assistir, mas a maior parte era de pretos velhos mesmo que havia sido escravos, de 70, 80 anos! Todos na roda dançando! Era uma recordação pra eles, né, dos tempos que moravam nas fazendas.
Gafieiras – E como a cidade via como esses encontros? Havia alguma impressão disso?
Dona Inah – Na cidade ninguém tinha nada contra. Acho que não havia nada pra ser contra, né? Não estava prejudicando ninguém, não estava atrapalhando ninguém… Naquela época, umas vezes, pouca coisa, não sei, como teve no Brasil, havia muito preconceito com o negro, mas isso depois foi acabando, mas havia esse negócio…
Gafieiras – Mas branco participava (desses encontros)?
Dona Inah – Tinha branco que participava; eles gostavam. Ninguém judiava ninguém, nem pisava em ninguém, enfim, (havia) uma separação assim, sem discussão nem nada, mas todo mundo se dava bem, era muito gostoso.

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