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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 25/25

Ele nem sabe que eu fiz a letra de Summertime

Gafieiras – Dona Inah, como é a senhora analisa sua voz durante esse tempo? Hoje é o melhor momento? Como ela está?
Dona Inah – Ah, a minha voz é a mesma. Deve ter mudado um pouco, né, porque a gente tá velha hoje. Velha, meio transviada assim, né? [ risos ] As vozes das pessoas mudam, mas (a minha) não me prejudicou em nada, não. Pelo contrário.
Gafieiras – A senhora não acha que teve nenhum ponto em que a voz estava ideal?
Dona Inah – Não. Eu canto normalmente. Hoje a minha voz é um pouco mais rouca, não sei. Tenho gravações em casa quando eu era mais mocinha, mas não mudou muito, não.
Gafieiras – A senhora tem essas gravações?
Dona Inah – Eu tenho uma fita de 1970, mais ou menos.
Gafieiras – Que gravação é essa?
Dona Inah – Foi um trabalho que fiz com conjuntos. A gente gravava em fita.
Gafieiras – E não dá pra lançar nada desse material?
Dona Inah – Acho que não.
Gafieiras – Está em fita cassete?
Dona Inah – É. Tem bastante… Shows que eu fiz no SESC São José dos Campos, com outros conjuntos. Tem muitas (fitas) em casa.
Gafieiras – A senhora tem costume de ouvir essas fitas?
Dona Inah – Às vezes eu pego alguma lá e escuto. Não dá tempo, é tanta coisa agora que não dá tempo. Falei: “Tu tem que pegar elas todas, passar de uma fita pra outra e vê se faz um CD pra guardar. Aí, sim, fica guardado”.
Gafieiras – Não tem perigo de estragar.
Dona Inah – É.
Marco – Você perguntou sobre esse negócio de disco de samba. Acho legal um dia, não existe nenhum projeto ainda, mas gravar um outro gênero. Ela conhece muitas músicas, canta bem, e coisas diferentes que nunca vi ninguém cantar: versões de folks americanos que ela cantava com orquestra. Você escutando alguma música instrumental, sei lá, “Summertime”, e ela sai cantando a letra. Pô, de onde surgiu isso? Mó barato!
Dona Inah – De “Summertime” eu fui ver o filme. Então, depois do filme, comecei a pensar, “Puxa, que música bonita. O que quer dizer Summertime? Tempo quente, né?!” É aquele negocio: cheguei em casa e escrevi: “Amanhã o sol já vai raiar / Vem amor a sorrir e a cantar / Tá no ar o amor que não tem fim / Nós dois, só nós dois, o luar e o mar / Só nós dois enfim / O sol virá depois iluminar / Nós dois, só nós dois e mais ninguém / É verão e o sol já vai raiar!” [ risos ] Então ficou essa letra. Depois que fiz, eu falei: “Gozado, eu vou cantar isso aí. E tinha um japonês que freqüentava a noite e falava: ‘Canta Summertime pra mim, mas a versão brasileira!”. Ele nem sabe que fui que fiz essa letra! [ risos ]
Gafieiras – É sua letra? E a senhora compôs outras coisas?
Dona Inah – Não, pouca coisa.
Marco – Compôs, sim!
Dona Inah – Pára de me dedar, Marco! [ risos ]
Gafieiras – Mas a senhora não regravou nada que a senhora fez?
Dona Inah – Não! Eu quero ver se gravo ainda. Só música minha! Quero fazer um disco só meu!
Gafieiras – Então, mais uma da senhora.
Dona Inah – [ canta ] “Quando eu morrer / Não quero choradeira / Quero que cantem meu samba a noite inteira / Quando eu morrer / Não quero choradeira / Quero que cantem meu samba a noite inteira / Quero um velório de sambista / Fazendo prece pra esta artista / Não quero velas e nem coroas / E nem tampouco que digam criatura boa / Quero entrar no céu como turista / E receber o diploma de Noel como sambista.”
Marco – Ela também canta um monte de choro!
Gafieiras – Dona Inah, nós estamos encerrando. Já abusamos muito da sua boa vontade. Vejo, pelos poucos lugares que eu tenho ido, que tem uma geração de meninos cantando e tocando samba e choro na noite. Se a senhora pudesse dar um conselho pra eles, um conselho de vó, da Vó Inah, o que falaria?
Dona Inah – Olha, eu adoro esses jovens que estão vindo agora. Trabalho com vários jovens de 19 aos 24 anos. A única coisa que peço a eles é que não se envolvam com coisas erradas. Bebida faz mal, droga estraga as pessoas. “Gosta de ser músico?” Então, vamos ser músicos, mas não vamos misturar drogas com música, porque atrapalha a vida do músico e dos outros, atrapalha a vida da família. Músico depois que cai, não levanta mais. Dificilmente levanta. Tenho várias experiências com amigos que caíram uma vez e não levantaram mais. Isso é muito triste! Vê essa molecada que gosta da música, que gosta da noite, que toca muito e, de repente, se vê jogado por aí. Tem que pensar muito nas amizades, nas drogas, no álcool, porque o álcool também é uma coisa muito triste. Cigarro faz mal só pra gente, mas álcool e drogas fazem mal pra ele e pra toda a família.
Gafieiras – Um conselho profissional, a senhora dá ou não, ou somente pra vida mesmo?
Dona Inah – Profissional, sim. Se gosta da música, vá em frente, mas todos os jovens que gostam de música, têm que ter uma profissão paralela, porque se só tocar música, de repente acontece alguma coisa, e aí, vai viver do quê? Músico não tem aposentadoria, não tem nada. Então, esses jovens que estão começando, tem que ter qualquer coisa paralela à música. “Gosta de música?” Gosta! Mas vai por aqui também. Pelo menos, se amanhã fracassar a música, tem uma salvação. A não ser que sejam bem-sucedidos na vida, mas se forem pessoas humildes, têm que ter alguma coisa.
Marco – A não ser que seja um Caio Mesquita, né, Inah?
Dona Inah – É. Tem que ter outra profissão. Eu digo por mim, porque nunca tive profissão, sempre trabalhei como doméstica. Só com 55 anos (de idade) me arrumaram um emprego na Prefeitura. E se eu não tivesse esse emprego, como é que eu ia viver hoje? Então, trabalho, tudo bem, ganho na música hoje, graças a Deus, mas tenho uma aposentadoria, não é muito, mas vivo dessa aposentadoria. Eu trabalhei em banheiro… e eu dou graças a Deus por isso, porque pouco ou muito, eu tenho.
Gafieiras – E hoje, o que é legal na cidade de São Paulo? O que a senhora gosta de fazer em São Paulo? Que lugares gosta de passear?
Dona Inah – São Paulo tem tanta coisa que dá até vergonha de falar… A gente conhece tanta coisa lá fora e não conhece o nosso Brasil… Não somente eu, não, todo mundo, todo brasileiro, todo paulista conhece lá fora, conhece museu, mas aqui não conhece nada. E tem muita coisa boa aqui em São Paulo. Catedral, museus, enfim… Você conhece tanta coisa lá fora e aqui não conhece nada. Então, a gente tem que dar valor ao que tem. Apesar de que conheço pouca coisa aqui em São Paulo. Tem tanto lugar bonito pra se conhecer em São Paulo, no Brasil. Só quer conhecer lá fora, tem que conhecer o Brasil!

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