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Entrevistas de música brasileira

Dona Inah

Dona Inah por Jefferson Dias

Dona Inah

parte 24/25

Faço todo mundo chorar quando tô cantando

Gafieiras – A senhora é uma pessoa de personalidade forte.
Dona Inah – Não, eu sou muito calma, tenho uma calma muito grande.
Gafieiras – Mas a senhora tem opinião?
Dona Inah – Tenho. Eu tenho opinião.
Gafieiras – A senhora se considera muito emotiva?
Dona Inah – Eu sou muito emotiva. Qualquer coisa me magoa, me machuca. Sou chorona.
Gafieiras – Mas qualquer coisa deixa feliz também?
Dona Inah – Qualquer coisa me deixa feliz. Se você chegar pra mim e me der uma agulha, “Oh, esse aqui é seu presente!”, vou pegar e guardar. Eu tenho coisas guardadas em casa que nem sei quem foi que me deu. Mas está guardado dentro de uma caixinha.
Gafieiras – A senhora tem saudade, Dona Inah?
Dona Inah – Saudade eu tenho de alguma coisa, mas algumas prefiro esquecer.
Gafieiras – Então, das coisas boas…
Dona Inah – As coisas boas da minha família, da minha avó…
Gafieiras – De sua família em Araras?
Dona Inah – Em Araras, meus tios, que me queriam muito bem, os amigos que eu tive em Santo André, tive, não, tenho ainda. Amigos bacanas… Agora a família dá muita dor de cabeça pra mim, sabe? Difícil! Netos, principalmente… Tenho lembranças, mas não são aquelas ótimas, entende? Mas eu respeito muito, acho que devo respeitar pra ser respeitada.
Gafieiras – Dona Inah, a senhora fala muito “no meu tempo é que era bom”. Qual é o tempo da senhora?
Dona Inah – Tempos de criança. Você não pensava em nada, só pensava em trabalhar e curtir, ter um pai, ter uma mãe, entendeu? Eram tempos bons.
Gafieiras – E a senhora tem alguma mágoa de alguém que fez muito mal?
Dona Inah – Não. A única mágoa que eu tenho até hoje é de uma amiga. Ela jogou uma barata dentro da minha roupa! A casa em que eu morava era dessas casas enormes, tinha aquelas janelas enormes, aqueles casarões antigos. Eu sentada pro lado de dentro da minha casa, e aí ela chega uma barata desse tamanho e joga. Até hoje eu não falo com ela! [ risos ] Fui fazer um show na minha cidade e, quando ganhei um prêmio, ela estava no teatro. Ela me cumprimentou, eu a cumprimentei, tudo numa boa, mas sabe quando você não sente vontade de conversar com a pessoa? Quando eu a vi, parece que eu vi a barata dentro de mim.
Gafieiras – Mas isso não foi molecagem?
Dona Inah – Molecagem, mas não se faz. E se eu tivesse problema do coração? Eu tinha morrido.
Gafieiras – Mas a senhora era criança quando que ela jogou a barata?
Dona Inah – Eu era uma criança, tinha 9, 10 anos. Até hoje não falo com ela.
Gafieiras – Mas ela sabe que é por causa da barata?
Dona Inah – Ela sabe que é por causa da barata.
Gafieiras – Quem mandou fazer essa pergunta foi o Cidão.
Dona Inah – Ah, o Cidão? Eu tive raiva um tempão do Cidão.
Gafieiras – Tem bronca do Cidão? Então, fala logo que a gente já resolve isso. [ risos ]
Dona Inah – Não… Eu não tenho bronca e mágoa de ninguém. Não guardo rancor.
Cidão – Nesse pouquinho de tempo que eu tô aqui, vejo muita coisa que as pessoas não merecem, sabe? O que eu sofro vocês nem imaginam. Sou muito sentimental com as pessoas, então, gosto muito de todo mundo. Quando eu vejo alguém que empurra alguém pro canto e depois pelas costas fica falando, fico muito sentido. Por isso a turma me chama de grosso, disso e daquilo, porque o que tenho que falar falo na cara da pessoa. Sou caipira, na verdade, não tenho estudo. Detesto ver gente falando da pessoa…
Dona Inah – (…) Que na frente fala uma coisa e por trás fala outra…
Cidão – É. Então eu brigo aqui principalmente com os músicos… É muito difícil lidar com os músicos, sabe? Chega o cara e beijinho daqui, beijinho dali, aí a pessoa vira as costas e… Do jeito que fui criado, acho que isso não é digno, sabe? Como uma vez: é amigo, mas por causa de namorada, daqui a pouco nego tá metendo a mão na cara do outro. Isso me machuca muito. Por isso que mandei fazer essa pergunta, porque tem muito a ver…
Dona Inah – Não, eu não tenho mágoa de ninguém, mas tenho pena de muita gente. As pessoas têm a mente tão pequena que dá pena. Não dá pra ter raiva… Você não sabe se pode tropeçar amanhã, cair e se machucar. Então, a gente tem que ser o que a gente é. Sou uma pessoa que, quando passo nervoso, falo “Deixa pra lá, um dia vai cair aqui!”.
Gafieiras – Dona Inah, o próximo disco é de samba também?
Dona Inah – É de samba.
Gafieiras – Já tem um terceiro? Também de samba?
Dona Inah – Também é de samba. O terceiro vai ser de sambas inéditos, de compositores do Rio e de São Paulo.
Gafieiras – Mas, por algum momento, passa pela cabeça ter um outro disco com repertório que vai além do samba?
Dona Inah – É, tem sempre uma ou duas músicas que não são samba, sambão assim. Eu gosto do samba de raiz. Na noite eu canto tudo… Faço todo o mundo chorar quando tô cantando. É gostoso fazer as pessoas chorar!
Cidão – Tem umas músicas que, sinceramente, chorar eu não choro, mas que me arrepia todo…
Gafieiras – Cidão, qual música que a Dona Inah canta que dá arrepio?
Cidão – Ah, tem várias, não é somente uma, não. É que não conheço nome de música.
Marco – Tem até música internacional que ele sempre pede pra cantar.
Gafieiras – Qual é Cidão, que música é essa?
Dona Inah – [ canta “Los hermanos”, de Atahualpa Yupanqui ] “Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / Em el valle en la montaña / Em la pampa y en el mar / Cada cual con sus trabajos / Con sus sueños cada cual / Con la esperanza delante / Con los recuerdos detrás / Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / Gente de mano caliente / Por eso de la amistad / Con um lloro para llorarlo / Con un rezo para rezar / Con un horizonte abierto / Que siempre esta más allá / Y esa fuerza pa buscarlo / Con tezón y voluntad / Cuando parece más cerca / Es cuando se aleja más / Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / Y asi seguimos andando / Curtidos de soledad / Nos perdemos por el mundo / Nos volvemos a encontrar / Y asi nos reconocemos / Por el lejano mirar / Por las coplas que mordemos / Semillas de imensidad / Y así seguimos andando / Curtidos de soledad / Y en nosotros nuestros muertos / Pa que nadie quede atrás / Yo tengo tantos hermanos / Que no los puedo contar / Y una hermana muy hermosa / Que se llama libertad.”
Gafieiras – É, você tem razão, Cidão. Dona Inah, qual é o barato de cantar na noite e cantar no palco?
Dona Inah – Na noite você está acostumada a conviver com os amigos, por exemplo: aqui no Cidão eu tenho muitos amigos. Agora, no palco, cada show é um show diferente. Às vezes, o pessoal fala: “Não vamos ensaiar pra ir ao palco, porque esse show já está ensaiado!”. Mas cada show é um público diferente. Pode vir 40 pessoas que já viu o show, mas vem 20 pessoas novas e eles querem ver coisa boa. Então, o público do palco merece muito mais o nosso respeito. O público do bar, como é o do Cidão, ou o do Ó do Borogodó, está acostumado com a gente. Você canta, você brinca, às vezes você erra… Mas o público (de um show) de palco está concentrado em você, que tem que fazer bonito pra transmitir coisas boas.

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